Arquivo da Categoria: Críticas 1997

Bowery Electric – “Vertigo”

Sons

17 de Outubro 1997
DISCOS – POP ROCK


Bowery Electric
Vertigo (7)
2xCD Kranky, distri. MVM

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“Beat”, álbum do ano passado dos Bowery Electric, constitui, até à data, um dos objectos mais originais e corrosivos saídos da linha de montagem do pós-rock. Na sequência de uma corrente agora muito em voga, “Vertigo” surge como uma colecção de remisturas, na maioria extraídas de “Beat”, por “homenageantes” mais ou menos conhecidos, alguns deles inseridos na mesma cena do pós-rock. Estão neste caso os Third Eye Foundation, que recentemente editaram o álbum “Ghost”, ou, numa área mais próxima da electrónica industrial, os Main. Completam a lista de remisturadores os Chasm, Osymyso, Witchman, Immersion, Dunderhead e Twisted Silence. “Vertigo” soa um pouco em relação a “Beat” como “Resport”, outro álbum de remisturas, soava em relação ao “Weekend” dos Kreidler, ou seja, o som ganhou espaço, uma dose reforçada de electrónica e uma respiração mais ampla o que, neste caso, fez desaparecer algum do fascínio provocado pela atmosfera opressiva de “Beat”. Entre as nove remisturas aqui incluídas – estranhamente divididas em dois CD, o primeiro com apenas 18 minutos e três faixas, duas versões de “Fear of flying” e “Black light”, enquanto o segundo se estende por 56 – destaca-se a opção pela exclusividade dos sintetizadores e pelo experimentalismo dos Dunderhead, numa versão reptilínea de “Black light”, na linha da electrónica fria dos Microstoria.



L@n – “L@n” + Wabi Sabi – “Wabi Sabi”

Sons

5 de Dezembro 1997
DISCOS – POP ROCK


Electrões em mutação

L@N
L@N (8)

A-Musik, distri. Matéria Prima/Ananana

Wabi Sabi
Wabi Sabi (7)


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lan

A Alemanha vem sendo palco de alguns dos mais interessantes projectos de música electrónica dos últimos tempos. Basta recordar a obra recente de grupos como os Oval, Mouse on Mars, Microstoria, Kreidler ou To Rococo Rot, todos eles geralmente conotados com o pós-rock, para se compreender que nunca se desfez a cadeia cujo elo inicial remonta à geração dos anos 70 do “krautrock”. As noções associadas a este tipo de música alargam-se na perspectiva da editora alemã A-musik, para a qual gravam, além dos L@N e dos Wabi Sabi – cujos primeiros trabalhos acabam de chegar ao mercado português –, os F.X. Randomizer, com ligações aos Microstoria.
No caso dos dois primeiros grupos citados, as respectivas propostas diferem nos diferentes enunciados, tanto estéticos como ideológicos, de uma música que, de uma forma geral, se designa por “electrónica”. Os L@N, Rupert Huber e Otto Müller, dividiram as gravações do seu disco de estreia pelo estúdio e por registos de palco. Em termos sonoros, as diferenças são mínimas, já que a música resulta de uma manipulação exaustiva das máquinas e dos seus automatismos, num registo de abstracção que, uma vez mais, remete para as propostas pioneiras dos Cluster. Todos os temas, num total de sete, ostentam a designação L@N, seguida por um número ou uma espécie de patente.
Se os Cluster são o pilar, o carácter impiedoso e sequencial desta música que dispensa qualquer tipo de intervenção das emoções humanas remete, de igual forma, para os To Rococo Rot ou para os espanhóis Esplendor Geometrico. Embora evidenciando sempre marcas que o tornam indissociável dos seus meios de produção, o som consegue ter elasticidade suficiente para manter os acontecimentos musicais em constante mutação, numa escala cuja nitidez contrasta com as metamorfoses subliminares dos Microstoria. Música palpável, apoiada na matemática e na irredutibilidade dos estímulos sensoriais a que recorre, “L@N” contextualiza sem desvios uma certa paranóia urbana e contemporânea, conduzida por uma moral que, nascendo da tecnologia, não deixa de ser idealista. As máquinas também sonham?
Os Wabi Sabi não serão tanto um grupo como um dos múltiplos projectos saídos da mente distorcida de Markus Schmikler, cabeça pensante de bandas como os POL, Kontakta e Microstoria. O mundo em que se movimentam as partículas sonoras de “Wabi Sabi” (dois termos que expressam o poder artístico compreendido “entre o silêncio e o ‘decay’”) é o da música encarada, em primeiro lugar, como um espaço aberto a acontecimentos acústicos ou psicológicos, programados de acordo com uma lógica de contornos pouco perceptíveis.
O primeiro tema, “Wabi sabi”, é uma “composição espacial” para dois canais que evoca a música de computador de François Bayle. Sobre uma trama de “white noise” obsessivo, nascem e morrem detritos radiofónicos, intercalados por estática pura, tornando a audição quase penosa. O segundo tema, “Param”, igualmente desenhado para dois canais, redimensiona a música de uma composição mais extensa, “Drift/Dense”, feita em 1995, sendo os parâmetros sonoros sensivelmente os mesmos de “Wabi sabi”. As “drones” tornam-se, todavia, mais suportáveis, ganhando uma pulsação que chega a dar a ilusão de que nelas habita qualquer coisa vagamente parecida com a vida. Um comboio avança do nada, esmagando o som à sua passagem. Imaginamos formas vagas e obscenas a dançarem no escuro, formando um ente composto por uma acumulação de peças autónomas, animadas de um perturbante movimento. Já perto do fim, a loucura instala-se e uma voz humana dissolve-se no miasma electrónico. A máquina dos L@N parece o paraíso, comparada com o lugar pantanoso, onde o cérebro se afunda, de “Wabi Sabi”.



Anamar – “M”

Sons

3 de Outubro 1997
DISCOS – PORTUGUESES

Anamar
M (7)
RCA, distri. BMG


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Dez anos passaram sobre a edição de “Almanave”, oito sobre “Feia-bonita”. A seguir, o silêncio e o recolhimento, quebrados por esporádicas aparições como actriz. Numa delas (“O Ensaio”, de Jean Anouilh), Tiago Torres da Silva, produtor de “M”, sugeriu-lhe que cantasse o fado, revisto sob uma nova luz. Anamar acedeu, ressurgindo transfigurada, por dentro e por fora. “M”, gravado em tempo real numa igreja, é uma oração, interiorização de um tempo e de um lugar que atravessam as idades. “Do coração aqui ao coração além”, como diz uma das canções. O ambiente é, por vezes, de música antiga, de uma reunião secreta no templo. Sente-se que há uma partilha e uma partida, no dar as mãos de todos os músicos envolvidos – André Louro de Almeida, Joaquim d’Azurém, Florêncio de Carvalho, José António Santos e Gabriel Mateus. São temas que flutuam pelas vielas do fado que se canta no mundo astral. Ventos e água e pássaros, ciúmes e beijos vibrando num ar de paixões rarefeitas. Passam por aqui os choros góticos dos Dead Can Dance e os ecos distantes da civilização e da tecnologia. “Os grandes nomes” fixa Laurie Anderson numa onde de esoterismo, “Via láctea” descreve-se a si mesma numa mistura de ciência e misticismo, “Pulsar” é pura música do espaço. Só é pena que a voz de Anamar não tenha, por vezes, a firmeza e focagem exigidas por uma completa exposição à luz. No geral, “M” soa ao que seria um disco de fado gravado na editora Hearts of Space.