Arquivo da Categoria: Críticas 1990

Gerry Rafferty – “Right Down the Line – The Best of Gerry Rafferty”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


GERRY RAFFERTY
Right Down the Line – The Best of Gerry Rafferty
LP e CD Emi, distri. Valentim de Carvalho


“Baker Street” foi um “hit” dos anos 70, para sempre recordado pela célebre entrada do saxofone. O tema não tinha nada de especial para além de ser melodicamente agradável e um slow ideal para dançar agarradinho. O seu autor é um rapaz sossegado que começou por fazer parte, juntamente com Billy Connolly, do duo Humblebums, voltado para as delicadezas acústicas da folk. Mais tarde passou pelos Stealers Wheel, antes de optar definitivamente pela carreira a solo. A coletânea agora editada passa em revista alguns dos temas mais conhecidos de Gerry, espalhados por álbuns como “City To City”, “Night Owl” ou “Snakes And Ladders”, servidas pelas famosas “Produções Melaço”. Da ficha técnica constam nomes importantes, conotados com a cena folk, como Jerry Donahue (Fotheringay), Davy Spillane, Ric Sanders (Albion Band), Richard Thompson, John Kirkpatrick e Richard Harvey (Gryphon), mas a Melaço Incorporated garante que ninguém dará por nada.

Cramps – “Stay Sick”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


CRAMPS
Stay Sick
LP e CD Enigma, distri. Valentim de Carvalho



“Stay Sick” é mais um presente envenenado da dupla Ivy Rorschach/ Lux Interior. Fiéis a um estilo e atitude mantidos com coerência ao longo de uma já vasta discografia, os Cramps prosseguem a sua saga provocatória e viciosa. O “Rock And Roll” ou mais exatamente o “Rockabilly” é de novo posto à prova e volta a sair vencedor de mais esta prova de fogo. Ao longo de doze temas corrosivos, a fórmula resulta como suporte musical ideal das mansagens viciosas com que os Cramps nos querem corromper. Digamos que a banda é a versão mais clássica dos também pouco saudáveis Suicide. As mesmas vocalizações sincopadas, entre o angustiado e o desdenhoso, sobre uma rítmica pesada e repetitiva. Os temas tratados são bem elucidativos das preocupações e sentido de diversão destes senhores: “Beach Girls”, “surfando” armadas de metralhadoras (“Bikini Girls With Machine Guns”), chauvinismo maricas (“All Women Are Bad”) ou sexo cósmico em “Journey To The Center Of A Girl”. “Saddle Up A Buzz Buzz” é uma chuva cerrada de ácido sulfúrico, perigosa de verdade se escutada a elevados níveis decibélicos. Sãos de corpo e espírito, abstenham-se!

Mahabharata (The) – “Banda Sonora Original”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 4 ABRIL 1990 >> Videodiscos >> Pop


THE MAHABHARATA
Banda Sonora Original
LP e CD Real World, import. Edisom


O título refere-se ao longo poema, originalmente escrito em sânscrito, narrando a história da humanidade em geral ou da civilização indiana em particular, se considerarmos a dupla aceção do vocábulo “bharata” (“homem” e “hindu”). Alguns estudiosos inclinam-se ainda para uma terceira hipótese, definindo o termo como uma espécie de inseto rastejante. O cineasta Peter Brook parece ter-se cingido às duas primeiras no filme com o mesmo nome que a RTP recentemente transmitiu em vários episódios. A música é representativa de várias culturas e tradições orientais e é belíssima. Os participantes, oriundos de regiões tão diversas como o Japão, Irão, Turquia, Índia, Dinamarca e França, não recearam aliar os sons tradicionais às técnicas e eletrónica atuais, criando um exemplar de “world music” na linha de uma outra banda sonora, “Passion”, de Peter Gabriel, gravada, aliás, para a mesmo editora. Com a vantagem de, ao contrário da música do filme de Scorsese, saber evitar habilmente qualquer concessão ao mau gosto. Uma chamada de atenção para o canto de Sarmila Roy, e em particular para as suas interpretações das peças escritas e compostas pelo poeta Rabindranath Tagore.