Arquivo da Categoria: Country

Steve Ashley – “Family Album”

Pop Rock

27 de Julho de 1995
Álbuns world

Steve Ashley
Family Album

ROAD GOES ON FOREVER, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


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Reedição de um original gravado em 1979 nos estúdios Woodworm de Dave Pegg, dos Fairport Convention, mas editado somente três anos mais tarde no selo com o mesmo nome, “Family Album” é um trabalho conceptual que etrata de maneira satírica, faixa a faixa, os vários elementos de uma família inglesa. O seu autor já entrara anteriormente na obra-prima “Anthems in Eden”, de Shirley e Dolly Collins, integrar uma das primeiras formações dos Albion Band e, já a solo, gravara, entre outros discos, uma pérola do “folk progressivo” dos anos 70, “Stroll on”, fundando anos mais tarde o seu próprio grupo, Ragged Robin.
“Family Album” oscila entre o cinismo e a ternura, o humor e a poesia das tardes inglesas, dos jardins infinitos e do “five o’ clock tea”, como em “Pancake day”, um retrato onde entram sinos e pássaros, e um coral de outros tempos, como gostamos de o imaginar, elevando-se de uma capela perdida numa esquina do tempo, no meio do “country”.
Baladas assombradas pelo génio da melodia e da fragilidade, como “once in a while” e “Love is all we live for”, na linha de grupos como os Dando Shaft e Fairfield Parlour (preciosidades desconhecidas pelas quais vale a pena rebuscar no baú dos anos 70), ou próximas da amargura de Richard Thompson, como “Days like today”, contrastam com a violência de “Lost and found (The dog’s day)”, alegadamente cantado num “estilo canino”, onde Steve Ashley parece estar possuído pela loucura dos Residents, ou com as vocalizações “doo wop”, revistas de forma brilhante no exercício revivalista de “I’m a radio”.
Para quem se deixou conquistar pela recente colectânea de Leon Rosselson e não dispensa uma dieta de folk inglês, para desenfastiar das grandes pratadas irlandesas, “Family Album” constitui uma alternativa obrigatória. (8)

Loreena McKennitt – Concerto, 31 de Março, Lisboa

Pop Rock

30 MARÇO 1994

A PRINCESA PROMETIDA


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A sua figura de princesa da Idade Média sugere os mitos e a simbologia célticos. Infelizmente, vista de perto, Loreena McKennitt revela-se uma figura de papel. Vem pela segunda vez cantar e tocar harpa a Portugal. Com um novo álbum na bagagem, “The Mask and Mirror”.
Nasceu no Canadá, aprendeu canto clássico e encontrou a harpa quase por acaso. É estudiosa da cultura celta e interessa-se, entre outras coisas, por literatura, pelos vários folclores do Globo e por Portugal, onde tirou as fotografias da capa e foi buscar alguma inspiração para o seu penúltimo álbum “The Visit”, cartão de visita do seu anterior concerto, há dois anos, no nosso país. Loreena McKennitt parece ter à partida vários trunfos à sua disposição. Trunfos que, na prática, desaproveita ao desbarato. Em parte, talvez, devido ao sucesso de vendas obtido com “The Visit”, primeiro álbum da sua discografia a ter distribuição internacional, pela Warner, a música desta senhora, que se adivinha cheia de boas intenções, raramente ultrapassa a beleza superficial, dispersando-se por arranjos que privilegiam o exotismo e piscam o olho aos ouvidos e sensibilidades ávidas de evasão, mas que, ao mesmo tempo, não dispensam uma certa caução cultural.
Loreena dá, no fundo, aos seus auditores aquilo que eles querem receber, pondo de lado aquilo que os poderia levar mais fundo e a outras músicas menos presas à superficialidade. Não basta ir buscar um amontoado de referências – Yeats, Shakespeare, Tennyson, Stª. Teresa d’Ávila, S. João da Cruz, Santiago de Compostela, a música indiana, sufis, cátaros, templários, os evangelhos, a mil e uma noites, África… – para depois as misturar numa sopa que, no novo álbum, “The Mask and Mirror”, mais ainda do que em “The Visit”, acaba por saber a um inofensivo exercício de “new age”, com um ligeiro aroma a tradição.
Compreende-se que Loreena queira agradar a todo o custo. As capas dos discos são por regra belíssimas – por sinal mais, até, do que a própria música –, as referências célticas são distribuídas com parcimónia por tudo o que é nota, a força evocativa da harpa (céltica, topam?), também ajuda. Tudo isto não chega nem evita que a obra de Loreena McKennitt precise urgentemente de levar um abanão.
Posto isto, o que poderemos esperar desta sua segunda apresentação em Portugal? Sem dúvida, muitas e bonitas melodias, uma voz doce como a dos anjos, doses cremosas de folclore e “imaginários” celtas, um ou outro bocejo nos momentos mais contemplativos. Deve chegar para fazer do concerto desta princesa prometida um êxito.

31 DE MARÇO
Lisboa
Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
22h00



Tom Petty – “Wild Flowers”

Pop Rock

2 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Tom Petty
Wild Flowers

Warner, distri. Warner port.


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Não há, definitivamente, valores adquiridos no sector musical. Vejam agora o caso de Tom Petty. A eterna vedeta secundária vocacionada para os “pastiches” das glórias passadas da história do rock acaba de lançar uma obra de fundo. O passo não é, todavia, sem precedentes e prossegue o rumo traçado em 1989 com o seu primeiro álbum a solo, ou a estratégia de romper com o som “southern” monolítico da sua banda, os Heartbreakers. A pedra de toque desta abertura a novas experiências reside na escolha dos produtores e, se aquele disco era produzido por Jeff Lyne (seu parceiro nos Travelling Wilburys), este traz a chancela de Rick Rubin. Ora Rubin, o maestro da Def Jam, especializado em bandas radicais, surpreendeu tudo e todos quando, já este ano, produziu o veterano Johnny Cash, despojando-o de todo o acompanhamento, num álbum com a crueza e a mística de uma lenda viva a sós com a sua guitarra.
Tom Petty não tem esse carisma, nem nunca terá, mas Rubin aplicou-lhe um tratamento de choque muito no género. Assim, a maior parte dos temas em “Wild Flower” são acústicos ou de base acústica, trocando Petty as suas usuais vocalizações soalhentas, por um registo bem mais austero e dramático. As suas canções tratam agora de vagabundagem, da sina de andar pela estrada sem poiso nem destino fixo, lamentando a solidão que isso implica, mas também o gozo que confere a total liberdade. Petty ressurge assim no papel de um cantor/compositor amadurecido, de um trovador errante calejado pelos tombos da vida, reformulando a sua proverbial jovialidade numa melancolia do tipo fatalista. Claro que, depois, há as inevitáveis referências a Dylan, Beatles e, sobretudo, George Harrison, umas investidas no rockabilly e até no glam rock, mas filtradas segundo uma nova profundidade. Quando, em “Don’t fade on me”, Petty lastima a desistência daqueles que antes quiseram ir demasiado longe, somos levados a concordar e a admitir que, no rock, os frutos de juventude não são obrigatoriamente os mais suculentos. (8)