Arquivo da Categoria: Country

Joan Baez – “Play Me Backwards”

Pop Rock

10 FEVEREIRO 1993
NOVOS LANÇAMENTOS POP/ROCK

Joan Baez
Play me Backwards

CD Virgin, distri. Edisom


jb

Está a envelhecer bem, Joan Baez. É forçoso reconhecê-lo. “Play me Backwards”, excelentemente produzido por Wally Wilson e Kenny Greenberg, dá a ouvir uma voz depurada, que os anos tornaram mais quente e incisiva, e canções da melhor cepa “country rock”. Joan Baez jogou a cartada da contenção e de uma boa escolha de autores e acertou. Não quer dizer que “Play me Backwards” seja um disco de bradar aos céus, longe disso. Mas é uma obra asseada, que se deixa ouvir com agrado do princípio ao fim e, sobretudo, que jamais exala o incómodo odor a naftalina. Mary-Chapin Carpenter, a nova coqueluche da “country”, ofereceu à sobrevivente de Woodstock “Stones in the road”, mas os melhores momentos do álbum acabam por ser a lenta e belíssima balada “Steal across the border”, o apontamento afrogospel de “Isaac & Abraham” e uma “Dream song” arranjada sobre quarteto de cordas que Elvis Costello faria bem em ouvir. A velha senhora está para durar. (6)

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Loreena McKennitt – “The Visit”

Pop Rock

15 JANEIRO 1992

VERNIZ CELTA

LOREENA MCKENNITT
The Visit

LP/CD, WEA, distri. Warner Music

lmc

“Sempre considerei o impulso criativo como uma visita”. É Loreena quem o diz, explicando deste modo o enigma do título. Loreena Isabel Irene (assim mesmo, em português) McKennitt nasceu no Canadá e desde muito nova, quando tocava num clube “folk” em Winnipeg, começou a interessar-se pela música céltica. Loreena tem o cabelo louro e longo aos caracóis, toca harpa e teclados e canta, na sua bela voz de soprano. Jura que se apaixonou pela harpa quando ouviu pela primeira vez o álbum “Renaissance de l’Harpe Celtique”, de Alan Stivell. Não descansou enquanto não adquiriu uma, que por acaso encontrou, a um preço em conta, na montra de uma loja perto do hospital de onde acabara de ter alta.
“The Visit” é o quarto álbum da senhora, primeiro distribuído por uma multinacional, depois de “Elemental”, “To Drive the Cold Winter away”, (uma colectânea de temas de Natal gravados num mosteiro irlandês) e “Parallel Dreams”, todos editados na sua própria editora Quinlan Road Productions.
Neste novo disco, Isabel Irene procurou ir ao fundo, que é como quem diz, às raízes da questão celta, e descobriu, encantada, a pólvora no lugar certo – a oriente. Por pouco não ia mesmo ao fundo. A solução musical que encontrou para o problema da distância geográfica não podia ser mais simples: juntar o som de umas “sitars” sampladas ou de uma “tamboura” indianas à harpa e à gaita-de-foles e esperar que a voz fizesse o resto. Bem pode Isabel gritar aos sete ventos que até visitou a exposição sobre os celtas em Veneza. “The Visit” pouco difere das xaropadas do sétimo céu de Enya, incorrendo nos mesmos tiques e na mesma visão “Walt Disney” da música tradicional.
Alguma crítica estrangeira embandeirou em arco, o que não espanta, atendendo à memória curta de que costuma dar mostras e que a faz tomar por “novo” ou por “original” aquilo que, neste caso, não passa de polimento de uma ideia antiga. Se fosse Mike Oldfield a fazer o mesmo que Loreena (e já fez parecido), eram capazes até de lhes chamar nomes. Nada melhor do que escutar o clássico de John Renbourn (com Jacqui McShee e um percussionista indiano, entre outros músicos) “A Maid in Bedlam” (1977) para refrescar a memória e ajudar a distinguir entre “mistura” e “síntese”.
Irene dá tudo por tudo – não faz mais do que o seu papel – para dar ares de princesa de Avalon, mesmo se na interpretação de “Greensleeves” se diz inspirada por Tom Waits – dotada pela natureza com um visual adequado (com o senão do queixo, demasiado proeminente), apenas teve de se preocupar em encaixar nas canções textos de Tennyson (“The lady of Shalott”) e Shakespeare (“Cymbeline”), deixar-se fotografar com a harpa entre as pedras de uma quinta portuguesa em Azeitão (onde, numa laranjeira, viu materializada a árvore representada na mítica tapeçaria “The Lady and the Unicorn”) e falar a torto e a direito do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda, sem esquecer a mensagem ecológica, veiculada num dos temas, contra a destruição das florestas de carvalhos na Irlanda.
Tudo isto é belo, tudo isto é (mais ou menos) celta, tudo isto é positivo e defensável e onírico, etc., mas infelizmente a música não está à altura dos adereços. Fica a promessa do tema de abertura, “All Souls Night”, a fazer lembrar glórias passadas dos Pentangle e de Jacqui McShee, um ou outro apontamento do violinista Hugh Marsh e a voz de ouro de McKennitt a prometer “visitas” de outra envergadura. O resto é luz reflectida. Muito brilho para pouca substância. (6)

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Tim Buckely – “Sefronia” + “Look At The Fool” + “Dream Letter”

Pop Rock

 

5 JUNHO 1991

IMPORTAÇÃO DO CATÁLOGO DEMON RECORDS

 

TIM BUCKLEY

Sefronia (1973) **

Look at the Fool (1974) **

Dream Letter (reed. 1990) ***

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Obedecendo sabe-se lá a que estratégias comerciais, a obra de Tim Buckley começou, entre nós, a ser editada pelo fim, pelos anos correspondentes à fase da decadência criativa, das concessões ao “business” e da incongruência de atitude. Longe iam os tempos de glórias passadas como “Goodbye and Hello”, “Happy Sad” ou a viagem interminável pelos confins da loucura que é “Starsailor”.

Rendido ao apelo dos dólares, cansado de ser remetido para o “ghetto” dos autores malditos, Tim Buckley terá pensado ter chegado a altura de alterar tal estado de coisas. “Sefronia” constitui o primeiro passo decisivo nessa direcção, após a tímida tentativa de “Greetings from L. A.”. Perdida a magia da época dourada, a própria voz parece deslocada, em registos que procuram apoio na “soul”, resultando, na prática, pelo menos duvidosos. Uma canção assinada por Tom Waits e um último vestígio de lucidez poética (nas duas partes de “Sanfronia” – “After Asklepiades” e “After Kafka”) são insuficientes para salvar o álbum da mediania.

“Look at the Fool” avança ainda mais no abismo da decrepitude. Tudo se reduz ao rock mais vulgar, contundente, é certo, mas totalmente falho de inovação. Canções curtas, insípidas, passam com a brevidade de uma brisa, sem deixar marcas nem boas recordações. A partir daqui, para Tim Buckley, a música passava a ser outra, em canções sem sons nem palavras que viriam a revelar-se fatais.

“Dream Letters”, gravado ao vivo em Londres, 1968, funciona assim como a derradeira imagem de uma personalidade inquieta, perdida entre visões poéticas alucinadas e uma energia que aos poucos a viria a consumir. Imagem difusa de uma voz apaixonada, em diálogo intimista com as reverberações de um vibrafone e a tristeza sombria de um contrabaixo.

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