Arquivo da Categoria: Céltica

Mouth Music – “Mo-Di”

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993


Mouth Music
Mo-Di
CD Triple Earth, import. Contraverso



Depois de um primeiro álbum bastante promissor, os Mouth Music fazem um golpe de rins em toda a linha, e inflectem para a música de dança de influência étnica, à semelhança, por exemplo, dos Suns of Arqa. Se na estreia deste grupo escocês a tónica incidia em harmonias vocais envoltas em névoas de “new age” céltica, agora o ênfase deslocou-se para o ritmo, através de sequências hipnóticas sobre as quais evoluem as vozes de Michaela Rowan e Jackie Joyce. As fontes étnicas utilizadas, sampladas e manipuladas de todas as maneiras e feitios, incluem temas da tradição gaélica, entre os quais um aprendido com Catherine-Ann MacPhee, e outro de “mouth music”, ou “puirt a bail” – designação de um género particular desta tradição – e um cântico xhosa (façam como eu e vão procurar na enciclopédia…) “Mo-Di”, impecavelmente limpo e polido em estúdio, reúne todas as condições para facturar nas pistas de dança dos “new agers” de consciência cósmica. “World music” para consumo nas grandes urbes néon ocidentais dá direito a bilhete de acesso para o mundo exterior, genuíno e assustador, das coisas vivas que mordem. (6)

Skylark – “Light And Shade” + Trian – “Trian”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993
WORLD


Skylark
Light And Shade (9)
CD Claddagh, distri. VGM
Trian
Trian (9)
CD Flying Fish, distri. VGM



Por vezes dá a ideia de que a música tradicional da Irlanda sofre de excesso de abundância e oferta. Grupos e solistas, ainda por cima de alta qualidade, existem às dezenas, senão às centenas, pela ilha Esmeralda. Novos nomes surgem a um ritmo alucinante, enquanto a velha guarda se divide por múltiplos projectos, explorando novas ideias e trocando sensibilidades. Aos leigos, já o ouvi da boca de alguns, a música irlandesa soa sempre igual. Pura ilusão. Esquecem, ou não sabem, que o prazer, resultante do convívio sistemáticos com este tipo de música, reside em grande parte na descoberta de diferenças, na comparação de estilos, individuais e colectivos, no confronto de abordagens diversas a uma música que constantemente se renova e inventa novas vias. Tudo isto se aplica aos discos em questão. Os Skylark, em segunda etapa, a seguir a “All of it”, e os Trian, em estreia, partilham entre si semelhanças óbvias. O gozo está em avaliar as diferenças. E em saborear, caso se esteja nas tintas para o raciocínio analítico, a excelência da música, independentemente dos modos da sua criação.
A primeira semelhança é visível logo no formato instrumental. Skylark e Trian apresentam a configuração típica violino / acordeão / guitarra, no caso dos Skylark aumentado por um bodhran. Os instrumentistas são, em ambas as formações, virtuosistas do mais alto grau. Máirtin O’Connor, dos Skylark, considerado o expoente máximo do seu instrumento na Irlanda, rivaliza com Billy McComiskey, do lado dos Trian, no acordeão. A vantagem pende para o lado do primeiro, mas não por margem folgada. Contra a veterania do mestre, o novato apresenta já credenciais de grande executante.
O caso do violino é mais bicudo. Gerry O’Connor, pelos Skylark, contra Liz Carroll, pelos Trian. O som desta última (que já nos impressionara num anterior álbum a solo ou, na qualidade de convidada, num dos projectos de Mick Moloney com Eugene O’Donnell, “Uncommon Bonds”) é mais encorpado. Gerry O’Connor, aparentando maior agilidade, possui um estilo mais aéreo. Liz vence-o em dramaticidade. Gerry ganha-lhe em leveza. Finalmente os dois guitarristas, Dáithi Sproule (vale a pena escutá-lo com maior pormenor em “Carousel”, ao lado de Deamus e Manus McGuire), dos Trian, e Garry O’Briain, dos Skylark, são dignos um do outro e candidatos ao trono ocupado por Arty McGlynn, na justeza com que tecem as típicas malhas rítmicas em contratempo.
Len Graham é o tocador de Bodhran nos Skylark, cargo que desempenha com eficácia, embora seja nas vocalizações que revela dose superior de talento, através de uma profundidade e pureza de timbre que, uma vez mais, deixam ver as marcas deixadas na música irlandesa pelos Planxty. O mesmo acontece aliás, com Dáithi Sproule, também ele um vocalista de recursos, do lado dos Trian.
Os membros dos Trian residem em Chicago, onde vive uma das colónias de irlandeses mais activa e interveniente da América do Norte. A distância serve-lhes para reforçarem o cordão de prata que os une à ilha-mãe. Daí talvez a sensação de urgência que se desprende da sua música, quase um amplexo. Os Skylark, por seu lado, ostentam a naturalidade de quem tem as raízes bem seguras no chão. Muitos tocam, e bem, este estilo de música. Mas poucos conseguem fazê-lo com a convicção e empenhamento destes dois grupos. Explorem-se os seus detalhes e segredos. Para descobrir as razões que fazem da tradição da Irlanda uma das mais ricas e férteis do planeta.

June Tabor – “June Tabor, Em Lisboa, Braga E Porto ‘Basso Profondo'”

Cultura >> terça-feira >> 02.03.2019


June Tabor, Em Lisboa, Braga E Porto
“Basso Profondo”


Na sua terceira apresentação em Portugal, as circunstâncias estiveram por fim à altura da cantora. June Tabor, mais do que desenrolar um reportório, criou um ambiente. A sala do teatro S. Luiz encheu-se de silêncio para escutar a sua voz grave cantar canções de amor e desencanto.



Sexta-feira à noite, no velho recinto do Chiado, em Lisboa, aconteceu finalmente a consagração de uma grande cantora, após as más condições com que foi recebida nas duas anteriores visitas ao nosso país, no mesmo ano, 1991, no Folk Tejo e na Festa do “Avante!”. O som esteve perfeito e a assistência, que encheu pouco mais de metade da sala, soube sintonizar na frequência adequada. A voz e a música de June Tabor fizeram o resto. Decerto, também ontem em Braga. O Porto recebe a cantora esta noite, no Rivoli.
Música que exige silêncio e concentração absoluta, não admitindo transgressões nem falhas de atenção. Semelhante à superfície de um lago, pode ser espelho e pode ser lente. Mas é necessário que as águas estejam calmas e planas se quisermos ver, além da imagem reflectida, o fundo.
A voz falou devagar, preocupada em tornar compreensível cada palavra, cada história encerrada no coração das canções. Uma voz grave, sem mácula nem rugosidades que, pela vibração, irradia directamente do centro, com a profundidade de um oráculo. June Tabor foi sacerdotisa de um magistério iniciado há longos anos no templo das músicas tradicionais e finalmente depurado em escolas e linguagens contemporâneas.
Oficiou logo de início com a tradição, em “Month of January”, que deu o mote a todo o concerto: solenidade, contenção, centrados numa figura franzina, vestida de negro, de mãos caídas ao longo do corpo em pose hierática. Esfinge. June Tabor lembra essa figura ocultadora e reveladora de segredos. Por detrás da imobilidade, e através dela, arde uma chama, invisível aos olhos de quem não souber romper o véu das aparências.
June Tabor não cantou “All tomorrow’s parties”, o clássico de Lou Reed e dos Velvet Underground que a voz de Nico imortalizou – esse lado de tragédia que também habita em si, mas que na sua voz é redimido. June Tabor dobrou o Cabo das Tormentas e optou pela serenidade da maioria dos temas que integram o seu disco mais recente, “Angel Tiger”: “Hard Love”, “All our trades are gone”, “Sudden Waves”, “The doctor calls” (de Ian Belfer, dos Oyster Band, cuja ambiência sinistra comparou ao “film noir”), “All this useless beauty” (Elvis Costello) e “10 000 miles”.
Cada tema foi antecedido de uma curta explicação, dita em voz baixa de maneira a reforçar o tom de intimismo que caracterizou o concerto. “Esta é uma história de amor que acaba mal”. O estilo de histórias que disse gostar mais de cantar mas que ela própria, com quase imperceptível ironia, desmistificou comentando várias vezes no final de cada canção: “Afinal esta tem um final feliz! Estranho, não me estou a reconhecer!…”. “Game keepers”, em interpretação “a capella”, dedicou-a ao “homem” que ama, o seu cão Flynn (em homenagem a Errol Flynn…), inveterado bebedor de cerveja Guiness. O standard “I’ve got you under my skin2, de Cole Porter, dedicou-o igualmente ao amigo canino. Distanciação. Um sorriso de mil rostos, a sugerir enigmas.
Momentos altíssimos, viveram-se sobretudo nos duetos mantidos com o piano de Huw Warren, de longe o melhor instrumentista da noite: “You don’t know” e “Sudden waves”. A Mark Emerson, violino e viola de arco, e Marl Lockheart, saxofones, foi deixado espaço para brilharem no compasso emaranhado de um tradicional da Bulgária, “Rucenista”, (deu para perceber que não são búlgaros…) e em duas polkas tradicionais igualmente mal aproveitadas. O segundo solou, esforçado, no sax tenor, em “I’ve got you under my skin”, tema que serviu ao mesmo tempo para mostrar não ser este, em definitivo, o campo onde a voz da cantora se sente mais à vontade.
“Dogs of Money”, de Richard Thompson e os tradicionais “Mount and go” e “10 000 miles”, subiram alto numa actuação que nunca chegou verdadeiramente a tocar a terra. “Retreat”, outra composição de Richard Thompson, trouxe para o S. Luiz o espectro da diva desaparecida, Sandy Denny. Um único “encore”, “Light Dragon”, encerrou o ciclo de luz. Com a chave do silêncio. No intervalo, alguém da assistência comentara: “Esta mulher tem qualquer coisa de comovente!”