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Vários – “5ºs Encontros Musicais da Tradição Europeia – Europa Mais Para Sul” (Calicanto, de Itália, Thierry Robin, Taraf de Haidouks, Rádio Tarifa, Albion Band, Fia na Roca, Romanças, Oumou Sangare)

cultura >> terça-feira >> 21.06.1994
Folk


Europa Mais Para Sul


UM PROGRAMA excepcional aguarda os apreciadores de Folk nos “5ºs Encontros Musicais da Tradição Europeia”. Pelos palcos de Coimbra, Évora, Guimarães e Oeiras (Algés) vão passar, de 1 a 12 de Julho próximos, os Calicanto, de Itália, Thierry Robin, de França, Taraf de Haidouks, da Roménia, Rádio Tarifa, de Espanha, Albion Band, de Inglaterra, Fia na Roca, da Galiza, Romanças, de Portugal e, numa extensão africana dos Encontros, Oumou Sangare, do Mali.
Os Calicanto trazem o seu teatro musical inspirado no carnaval veneziano, uma proposta bastante mais interessante de seguir ao vivo do que no álbum da banda, já distribuído em Portugal, “Carta del Navegar Pitoresco”. Thierry Robin é conhecido entre nós pelo excelente álbum “Gitans”, editado com o selo Silex, síntese exótica das tradições ciganas, da Índia e dos Balcãs ao Mediterrâneo. Ciganos são também os Taraf de Haidouks cujo álbum “Musique Tzigane de Roumanie” o suplemento “Poprock” do “Público” considerou entre os melhores de 1993. O Sul está ainda presente na música dos espanhóis Radio Tarifa. O seu álbum “Rumba Argelina” é para nós, e até à data, o melhor álbum de música tradicional deste ano, uma bizarria que, ultrapassado o embate dos primeiros temas, pouco significativos da música que se lhes segue, explode em tons escuros e sensuais num enquadramento do flamenco, da rumba e da música árabe no contexto mais vasto e mais profundo da música antiga.
Míticos são os Albion Band, projecto e escola, já com um quarto de século de existência, de Ashley Hutchings, por muitos considerado o “pai da folk inglesa” e responsável pela electrificação das típicas “morris dances” mas que no trabalho mais recente do grupo, “Acousticity”, inflectiu na pureza do acústico. Quanto aos Fia Na Roca poderão constituir a surpresa maior destes Encontros. Desde o aparecimento dos Milladoiro que não surgia na Galiza um grupo com a categoria deste trio (ao vivo aumentado para quinteto) formado pelo violinista dos Xorima, Xaquim Farina, gaiteiro, saxofonista, tocador de “tin whistle” e de “sintetizador de vento”. Xabier Bueno, e, nas cordas, incluindo a harpa céltica, Enrique Comesana.
Representantes portugueses neste Encontros, os Romanças vão apresentar a música do seu mais recente álbum, “Azuldesejo”, enquanto a cantora do Mali, Oumou Sangare – excelente cantora, diga-se, o seu último álbum integrou a lista dos melhores do ano passado na revista “Folk Roots” -, vem espetar uma lança africana na Europa. Para a semana mais pormenores sobre os Encontros.

La Reverdie – “O Tu Chara Sciença – Musique de la Pensée Médiévale”

pop rock >> quarta-feira >> 08.06.1994


La Reverdie
O Tu Chara Sciença – Musique de la Pensée Médiévale
Arcana, distri. Megamúsica



“O Tu Chara Sciença” é um manifesto sublime da chamada “Ars Musica”, da Idade Média. Tudo começou muito antes de serem construídas as catedrais da Europa, quando um grego chamado Pitágoras ensinou que a essência de todas as coisas era o número. Uma matemática não exclusivamente conceptual e abstracta, embora obviamente lidando com relações e equilíbrios, logo, com harmonias. A ideia de harmonia era muito importante na Idade Média. A música (movimento, vibração), por via de Pitágoras e, mais tarde, de Platão, era considerada (e muito bem, como diria o compositor contemporâneo Xenakis), a expressão das relações matemáticas entre os sons. A “Ars musica”, expressão latina da escolástica medieval, aplicável a uma série de conhecimentos matemáticos em geral, estudava e procurava pôr em prática estas relações. Havia três modalidades: a “musica mundana” ou “musica celestis”, que estudava as relações e a música produzida pelos corpos celestes (Holst partiu desta ideia para compor a sua célebre composição “Os planetas”), a “musica humana”, que estudava as relações entre o corpo e a alma e as proporções entre ambos que regulavam a personalidade humana, e, finalmente, a “musica terrestres” ou “instrumentalis” – referindo-se o termo “instrumento” tanto aos artefactos sonoros artificiais como à voz humana -, que buscava o entendimento das relações possíveis entre os sons que podiam ser produzidos neste mundo. Em “O Tu Chara Sciença”, a voz (quatro vozes femininas e uma masculina) ocupa o lugar de maior proeminência, em cânones e floreados intricados em conjunto com onomatopeias, gritos e interjeições que procuravam reproduzir cenas ou acontecimentos bucólicos como um cantar de um pássaro, cenas de caça e de pesca, ou uma rapariga colhendo uma flor. “A poste mese” e “Or sus, vous dormez trop” demonstram até que ponto certas técnicas vocais de Meredith Monk são devedoras desta música. Os restantes instrumentos – alaúde, symphonia (sanfona medieval), flautas de bisel, “vielle”, rabeca, “cornetto” e harpa – funcionam como contraponto ou pano de fundo ambientais. Há uma complexidade formal que estabelece o contraste entre este disco e uma segunda obra dos La Reverdie, também disponível em Portugal, “Speculum Amoris – Lyrique de l’Amour Médiéval du Mysticisme à l’Érotisme”, na qual a depuração e a meditação contemplativa estabelecem outros paradigmas da arte medieval, enquanto o disco agora em análise recria formas como o “virelai” o “conductus” e o madrigal, culminando, em termos da tal complexidade, no motete, estrutura harmónica coincidente com o grau máximo da polifonia na “ars musica”. Dividida em três partes – “Musica terrestres”, “Ars musica” e “Laudatio Dei” -, “O Tu Chara Sciença” inclui composições de autores franceses e italianos do século XIV e proporciona o vislumbre, sobre um céu azul sem nuvens, da beleza no seu estado mais elevado. Fechemos os olhos e percamo-nos neste labirinto de harmonias que conduzem ao paraíso. Sem fazer contas. (8)

La Maurache – “Élogedu Vinet de la Vigne – de Rabelais à Henri IV.”

pop rock >> quarta-feira >> 08.06.1994


La Maurache
Élogedu Vinet de la Vigne – de Rabelais à Henri IV.
Arion, import. VGM



Nos séculos XV e XVI, período correspondente à música do mais recente disco dos La Maurache (designação da guitarra mourisca ou “lute Maurache” em francês) – grupo de que se encontram igualmente disponíveis os álbuns mais antigos, “Danses dans la Cour des Ducs de Bourgogne” e “Chansons et Danses au Temps des Cathédrales” -, o vinho ocupava um lugar de destaque nas preferências das várias classes sociais. Rabelais e Henrique IV, compreensivelmente, foram dois dos seus mais acérrimos defensores (e bebedores). De reto, o gosto pelo vinho, do néctar mais sofisticado à vinhaça mais retinta, existe desde o momento em que o homem, pela primeira vez, provou e sentiu os efeitos do sumo da uva. “Fonte de vigor”, “fermento da amizade”, “poção de amor”, “convite ao perdão”, “alimento humano”, “símbolo mágico ou religioso”, “sinal de civilização”, “higiénico”, “medicinal”, “dietético” e “com propriedades terapêuticas”, de tudo chamaram ao vinho como justificação para uma boa bebedeira. A abordagem e homenagem ao álcool levada a efeito pelos La Maurache está de acordo com a principal directriz seguida pelo grupo – exemplificar o carácter clássico e a intemporalidade da música antiga. Neste “Elogio do vinho”, a música acentua o carácter dionisíaco do tema através das manifestações exuberantes das flautas de bisel (uma piela dos céus, na “Basse danse” “Sansserre”) cromornas, “Chalemie”, bombarda, dulçaína, darbouka, alaúde, “vilhuela”, teorba, viola de arco e de gamba, cravo, órgão de pedais e bendir, marcando as diversas etapas do acto de saborear uma taça de vinho, desde a apreciação da cor e do aroma ao brinde final de júbilo. No Renascimento, era assim, tudo feito com requinte, de maneira a proporcionar o maior prazer possível, a embriaguez do espírito e dos sentidos – o humanismo, enfim, acrescentando à fama o proveito. Em França, na Holanda, em todo o lado, ainda mais humanistas se possível com a ajuda de um Bordeaux, um Champagne, ou um vinho da Flandres de boa colheita. Cantemos com o entusiasmo e a força do baixo Vincent Lecornier, sobre um tonel de bombarda, órgão, dulçaína e “viellle”: “Bom vin je ne te puis laisser”. Hips! (9)