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Vários (Calicanto + Albion Band) – “V Encontros Musicais Da Tradição Europeia – Os Cães Ladram Mas A Música Passa” (concertos)

cultura >> quarta-feira >> 06.07.1994

V Encontros Musicais Da Tradição Europeia
Os Cães Ladram Mas A Música Passa

Segunda-feira, em nova jornada realizada nos jardins do palácio Anjos, em Algés, tivemos os Calicanto, de Itália, cuja música é óptima mas os músicos nem por isso, e os Albion Band, de Inglaterra, cujos músicos são óptimos e a música nem por isso. Mais as interjeições ruminadas em voz alta por um bêbedo melómano e um cão muito participativo. Encontros com o imprevisto.



Imprevisto à parte, os Calicanto trouxeram a Algés imagens e sons do carnaval de Veneza e referências à “comedia dell’ arte”. Um domador de leões, um capitão de navio, um pescador pobre e um gondoleiro rubricaram uma actuação em crescendo que só perto do final provocou a adesão sem reservas da assistência numerosa, apesar de, à mesma hora, a televisão transmitir o Brasil-Estados Unidos. Música difícil a dos Calicanto, mais teatral na própria estrutura interna do que no aparato exterior da apresentação. Mostraram-se melhores nas danças instrumentais, “branles” e pavanas, do que nas canções vocalizadas. Relevo para os dois irmãos Tondelli, um clarinetista e tocador de gaita-de-foles, de longe o melhor músico da banda, o outro seguro no contrabaixo, secundados por um vocalista, guitarrista e acordeonista de opulenta figura com tendência para os excessos histriónicos e a concertina um pouco afónica do quarto elemento. À medida que foram tocando foram aquecendo e provocando a adesão do público – pelo menos de parte dele, desconhecedora do álbum “Cartas del navegar Pitoresco” – que a princípio fora apanhado de surpresa pela estranheza da proposta musical dos Calicanto.
Maior impacte causaram os Albion Band, banda de grandes pergaminhos liderada há mais de vinte anos por uma das lendas da folk britânica, Ashley Hutchings. Os Albion Band foram, até meados da década de 70, uma formação revolucionária, por onde passaram alguns dos melhores músicos tradicionais da dita Albion, que recuperou e actualizou as ancestrais “morris tunes” inglesas, em álbuns seminais como “No Roses” (com Shirley Collins) “Battle of the Field”, “The Prospect Before Us”, “Rise up Like the Sun” e “Larkrise to Candleford”. Hoje os Albion Band são uma agremiação de profissionalões que espalham as suas habilidades por um reportório heterogéneo, onde cabe de tudo um pouco: canções “americanizadas” sobre temas tão diferentes como as árvores, um museu ou o desemprego dos mineiros, um “set” de “morris tunes”, um “sea shantie”, instrumentais arranjados ao estilo de Louisiana e até um “blues” sobre automóveis intitulado “Cars.
Deu sobretudo para entreter. Não é todos os dias que se vê em acção um veterano dos Fairport Convention, Simon Nicol, a tratar por tu a guitarra, nem a espantosa fluência de Hutchings no baixo acústico. Ou verificar o virtuosismo violinístico de Phil Beer e o bom-humor do homem do bandolim e da mandola, Steve Knightley (por sinal com um penteado à Júlio Pereira). Este último, após um incitamento de participação dirigido à assistência, recebeu como resposta o ladrar entusiástico de um cão. Knightley salvou de pronto a situação, referindo-se ao canídeo como sendo o empresário da banda. O refrão de “Cars”, por sua vez, foi acompanhado em coro por toda a gente, não sem que antes Steve Knightley tivesse explicado que Lisboa, à semelhança de outras cidades que já visitara, estava cheia de automóveis. Comentário que de imediato suscitou o aplauso de alguém da assistência, como quem diz: “É para que vejam, ó bifes, que também somos Europa!”.
Foi agradável de se ouvir, com cão e tudo, uma música descontraída e sem arrojos formais que os Albion Band tocam com uma perna às costas e a particularidade de ser acompanhada por insistentes apelos da banda, no intervalo das canções, para que no final as pessoas se dirigissem à banca e adquirissem os seus compactos trazidos directamente da Inglaterra. Enfim, fizeram pela vida.
Hoje há mais Encontros. Em Algés, com os Radio Tarifa, de Espanha, e os Fia na Roca, da Galiza; e em Évora, com Albion Band e Calicanto. Amanhã, também em Évora, tocam Taraf de Haidouks e Thierry Robin. Sexta, dia 8, é a vez dos Taraf de Haidouks actuarem em Évora; e Oumou Sangare e Radio Tarifa em Guimarães.

Hevia – “Hevia”

pop rock >> quarta-feira >> 06.07.1994


Hevia
Hevia
Nuba, distri. Dargil



Já alguém pensou ser possível fazer-se um disco em Portugal dedicado à gaita-de-foles? Bom, lá possível, é. Passar da intenção à prática é que já se nos afigura mais complicado. Pelo menos enquanto o Grupo de Gaiteiros de Lisboa não editar a sua estreia discográfica. Alheios ao atraso português, os nossos irmãos galegos vão aperfeiçoando escolas e técnicas e lançando novos grupos apostados na divulgação da “gaita” – símbolo regional da tradição musical na Galiza e título de uma publicação dedicada à folk em geral lançada por ocasião do último Intercéltico -, num esforço concertado de preservação da identidade galega e das diferenças culturais que distinguem a Galiza do resto da Espanha. Os Hevia não querem ouvir falar em “uillean pipes”, nem da ameaça da “irlandização” que ainda paira sobre grande parte dos grupos galegos. Fenómeno interessante é o ressurgimento de novas bandas filiadas na linha dura do purismo, como os Noítarega ou estes Hevia, que, a par das típicas “xotas”, marchas e “muineiras” galegas, não receiam perder a integridade, na interpretação deliciosa e nada fiel às regras de um par de “reels” compostos pelo escocês Michael Murphy. (7)

The House Band – “Groundwork”

pop rock >> quarta-feira >> 22.06.1994


The House Band
Groundwork
Green Linnet, distri. MC – Mundo da Canção



Os House Band sempre estiveram um bocado ao lado de outras bandas escocesas, como os Battlefield Band, Ossian e Tannahill Weavers, só para referir três das mais importantes. Bem, costuma-se considera-los escoceses, mas isso é relativo: um dos músicos é irlandês e a música espalha-se por bastantes outras áreas. “Groundwork” vem colmatar a falta em CD da primeira fase dos House Band, reunindo excertos dos dois primeiros álbuns para a Topic, “The House Band” e “Pacific” – metade dos temas de um com metade do outro, intercalados. Escolha talvez não muito acertada, uma vez que os temas do primeiro são, na generalidade, algo incipientes, enquanto os de “Pacific” contêm já os germes e a segurança instrumental que caracterizam os posteriores “Word of Mouth” e “Stone House”, este último considerado “melhor disco folk” de 1992 pela associação de retalhistas de música britânicos. Assim não espanta que os melhores (no sentido de mais completos) momentos de “Groundwork” sejam os que foram retirados de “Pacific”, em que é já visível o “swing” e o “feeling” que são norma nos músicos de “jazz” e os House Band dão mostras de possuir, no excepcional balanço da flauta de John Skelton em “The fox on the prowl”. O interesse por tradições estrangeiras – neste caso, da Bretanha e da Galiza – manifesta-se respectivamente em “The trip to amnesia” e “Na erminig hag ar greskenn”. “Joy after Sorrow” bebe na fonte renascentista de “The dancing Master”, compilada em 1728 por John Playford, a mesma onde foram beber Ashley Hutchings e John Kirkpatrick para criarem o didáctico e bem-humorado compêndio de danças tradicionais inglesas a que chamaram “The Complete Dancing Master”. “The Diamantina drover” é a balada a reter, embora continue a preferir a versão inigualável de Christy Moore incluída no álbum deste ex-Planxty. “Ordinary Man”. Resta seguir os passos futuros da banda da casa. (7)