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Tina Turner – “Uma Mulher Dos Diabos” (concerto | antevisão | na capa)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 28 SETEMBRO 1990 >> A Semana >> Na Capa


UMA MULHER DOS DIABOS

Depois dos Stones e de Bowie – com quem já atuou em diversas ocasiões – é a vez de Tina Turner: uma voz rouca e sensual, capaz de provocar os sentidos como poucas. A primeira parte do concerto será assegurada pelos Delfins.



Ancas longas e esguias, lábios carnudos, “Soul Music”, a alma voltada do avesso, deixando ver tudo (como os vestidos que usa durante as atuações), as lágrimas e os sonhos, o fogo interior inextinguível, “rhythm’n’blues”, os maus velhos tempos em que era dominada e espancada por Ike, “manager” e marido que não queria saber da emancipação feminina, Phil Spector e o clamoroso falhanço de “River deep, Mountain high”, a voz rouca e sensual, “Acid Queen” no “Tommy” de Ken Russell e amazona em “Mad Max beyond Thunderdrome” de George Miller – outras tantas imagens e sons que invadem a memória, presentes decerto no olhar e nos ouvidos de todos aqueles que se deslocarem ao encontro marcado para amanhã.
Turner provoca os sentidos como poucas. Há quem lhe atribua responsabilidades no sair da casca de Mick Jagger. Os seus gostos não enganam, a energia transborda em cada instante, nas canções, na dança, no constante apelo erótico do corpo e da voz, na opulência radiante das formas.
Mas Tina não é só suor, é também classe – a prová-lo, o convite que lhe foi endereçado pelos “dandies”, ex-Human League, Ian Marsh e Martyn Ware, convidam-na para interpretar “Ball of Confusion”, em “Music of Quality and Distinction”. Tina Turner no papel de grande senhora, diva de ébano reinando entre “babies” oxigenadas de 15 minutos de Top. São 34 anos de carreira recheados de êxitos, culminando no sucesso mundial de “Private dancer” e do “hit” “What’s love got to do with it”. Será que o amor tem alguma coisa a ver com os galardões que então lhe foram atribuídos – Grammies pelo melhor disco do ano (1984), melhor canção, melhor “performance” e melhor vocalista rock feminina? Questão à qual só a própria Tina poderá responder…
Quem não se preocupou muito com isso foi Mick Jagger que, logo no ano seguinte, a convidou para dançar (ou foi ao contrário?) em pleno Live Aid. Tina Turner a todos seduz, de uma maneira ou de outra. Mark Knopfler (produtor de algumas transgressões em “Break Every Rule”) e Eric Clapton não resistiram aos seus encantos. Amanhã à noite vai ser a mesma coisa: poder ver, ao vivo, a energia em carne viva – no corpo e na alma de uma mulher endiabrada que persiste em querer vencer o tempo. E tem-no conseguido.
LISBOA Estádio José de Alvalade, Sáb, 29, às 21h00

Larry McCray – “Ambition”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 1 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Pop


LARRY MCCRAY
Ambition
LP e CD, Virgin, Distri. Edisom



Na origem do rock estão os blues. De quando em quando alguém nos recorda esta verdade, recuperando a sonoridade e o estilo, através de reatualizações mais ou menos conseguidas ou de um mergulho direto na fonte primordial. Larry McCray opta pela primeira via, misturando em doses comedidas os blues, a soul e a pop. Nos anos 60, chamavam à mistura “rhythm ‘n’ blues”, e é neste terreno que frutificam as raízes do cantor e guitarrista, herdeiro de “bluesmen” famosos como Albert King, Muddy Waters, Freddy King, Albert Collins e B. B. King. Originário de Detroit, Cray cedo escolheu os blues como o único género capaz de transmitir a violência e a dureza típicas daquela cidade americana, sublimando, ao mesmo tempo, essa agressividade através de um tom conciliador feito de cedências a outros géneros, digamos que menos rudes. Ao longo de todo o disco, prevalece a matriz “bluesy”, embora permeável a desempenhos mais próximos da balada “soul”, como em “Me and my Baby”, ou do tom ligeiro da pop, em “Sally’s Got a Friend in New York City”. Os genuínos blues revelam toda a sua força e alma nos dois temas que encerram cada um dos lados: “Frustrated Baby” e, sobretudo, “Country Girl”, no qual o músico deixa perceber até que ponto os seus dotes guitarrísticos são devedores de Albert King. “Ambition” é uma alternativa a considerar, por oposição à atual inflação “rap”.

Rolling Stones – “A Década Ao Contrário” (artigo de opinião | história do rock)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 8 JUNHO 1990 >> Cultura


A década ao contrário

NO INÍCIO eram apenas uma entre muitas bandas brancas a brincar ao “rhythm‘n’blues”. Depois foram crescendo até se tornarem na maior banda de “rock and roll” do mundo. Hoje são um fantasma sorvedor de divisas e recordações de rebeldia.
Mick Jagger e Keith Richards andaram juntos na mesma escola primária. Perderam-se de vista. Anos mais tarde encontraram-se num comboio. Dois rapazinhos ansiosos por dar nas vistas, ambos apreciadores do “rhythm‘n’blues”. Corria o ano de 1960, primeiro de uma década que viria a dar que falar. Brian Jones conhece Jagger numa das suas visitas a Londres. No “Korner’s Club”, onde este atuava com Long John Baldry. O destino juntava o trio mágico Jagger/Richards/Jones, mal sabendo a confusão que iria causar. Em 63, Charlie Watts e Bill Wyman completam a lendária formação. Escolhido o nome (baseado na canção “Rollin’ Stones”, de Muddy Waters) só faltava dar o sinal de partida.

Os blues

As primeiras gravações de estúdio são “Soon Forgotten”, “Close Together” e “You Can’t Judge A Book (By Looking At The Cover)”. Nenhuma editora lhes pega. Tornava-se necessário criar urgentemente uma imagem. Sobretudo que vendesse. Andrew Oldham (que já trabalhara com os Beatles), na altura com apenas 19 anos, encontrou-a. Se os “fabulous four” eram os meninos bonitos da pop, havia que lhes arranjar adversário à altura. Os Stones eram o ideal para representar o papel de maus.
Finalmente, em junho de 63 a Decca edita o single “Come On”, versão do tema original de Chuck Berry, com um dos versos alterado não fosse ferir a sensibilidade dos homens da rádio. Perversão ou não, os Stones agarram num original dos rivais Lennon/McCartney e editam-no sob a forma de um “R&B”. É o clássico “I Wanna Be Your Man” e torna-se o primeiro hit da banda. Graças aos Beatles…

A imagem

Enquanto os de Liverpool provocam gritinhos histéricos e desmaios, Jagger e os outros desencadeiam súbitas e assustadoras descargas de adrenalina e agressividade. Fans para o hospital, destruições várias e um cheirinho a droga, faziam então parte da imagem de marca do grupo. Pior ainda, usavam cabelos ainda mais compridos do que os Beatles. Às vezes chegavam mesmo ao ponto de não usar gravata. Eram provocações a mais. Brian Jones, esse então, abusava, sobretudo da droga. Mas perdoavam-lhe facilmente – era fino, engraçado e além do mais inofensivo – Jones era um dandy, um aristocrata mais preocupado em destruir-se do modo mais elegante possível. Conseguiu-o, sem muito esforço, em apenas cinco anos. Com Brian Jones os Stones gravaram sete álbuns. Após a sua morte, Mick Jagger tinha o caminho livre à sua frente.
“The Rolling Stones” (64) e “The Rolling Stones no.2” (65, o mesmo de “Satisfaction”) são inspiradas rendições do som negro dos blues, acrescentado do frenesim típico do “rock‘n’roll”. O som vai progressivamente endurecendo à mesma velocidade que a violência suscitada nos fans. Aumentam as histórias e os escândalos. Os adultos tremem enquanto os jovens deliram. “(I Can’t Get No) Satisfaction” é número um em ambos os lados do Atlântico e torna-se hino de uma geração frustrada e à beira da grande explosão. “Out Of Our Hands” (65, com temas “soul”) e “Aftermath” (66, o 1º álbum exclusivamente assinado pela dupla Jagger/Richards) fecham a fase inicial da banda.
A explosão eclode afinal pacificamente. Com flores no cabelo, flores na camisa, flores no cérebro acionado a LSD. Os Stones são apanhados de surpresa mas recompõem-se depressa. Ao mesmo tempo que hippies anestesiados atingem o nirvana lisérgico e a contemplação das grandes verdades cósmicas, o quinteto terrível lança “19th Nervous Breakdown” e “Paint It Black”. A compilação “Flowers” e o single “We Love You” são, pelo menos no título, cedências provisórias ao “Flower Power”. O golpe de misericórdia (depois do álbum pop “Between The Buttons”, de 67) dá-se com “Their Satanic Majesties Request”.
Em plena época de propagação de valores positivos, como a paz e o amor, os Stones invertem o processo, utilizando as mesmas armas. Por detrás das imagens coloridas e em 3D da capa e de canções psicadélicas como “She’s A Rainbow” ou “2000 Light Years From Home”, revela-se o lado negro e diabólico oculto na sombra das alucinações. “Their Satanic Majesties Request” é a genial inversão, o negativo de “Sgt. Peppers” e do espírito da época. Símbolo da raiz demoníaca subjacente a toda a música rock, por mais que a queiram disfarçar com os trajos grotescos da boa consciência e das boas intenções.
Anos mais tarde, dezembro de 69, último de uma era, em Altamont, durante a atuação dos Stones, uma jovem negra, Meredith Hunter, é assassinada pelos Hell’s Angels. A década dos sonhos terminava, com os Rolling Stones em pesadelo.