Arquivo da Categoria: Avant-Rock

The Residents – Icky Flix

28.09.2001
The Residents
Icky Flix
Euro Ralph, distri. Ananana
8/10

LINK (Disc 1)
LINK (Disc 2)

Demente, belo e hollywoodesco, na sua dimensão de fábula da aliança entre o anjo e a Besta, “Icky Flix”, o mais recente trabalho dos “Fabulous eyeballs” (em CD e na versão integral, de três horas, em DVD) recupera o tom épico de “Not Available”. Um excerto de “The Third Reich ‘n’ Roll”, “Songs for swinging larvae” (adoptada pelos Renaldo and the Loaf) e a “suite” audiovisual “Vileness Fats”, genialmente transformada numa descida aos infernos filmada por um Spielberg zombie, a par dos mais recentes “Bad day on the midway” e “Gingerbread man”, ganham nova acutilância enquanto peças de um vasto jogo cujo alcance está ainda por decifrar. “Just for you (disfigured night, part 7)” segue pela estrada dos tijolos amarelos até ao palácio de um bruxo bem mais terrível que o feiticeiro de Oz. Assombradas pelas vozes de crianças perdidas, solto na vertigem de um carrocel montado pelo diabo, as canções de “Icky Flix”, trazem de novo o perigo para o coração da música pop. Esse mesmo coração que os Residents andam há anos a mastigar.

The Residents – Wormwood

16.10.1998
The Residents
Wormwood (6)
Euro Ralph, distri. Symbiose

LINK (Parte 1)
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A originalidade dos Residents residiu desde sempre na ambiguidade da sua relação com o mito e com o tabu. Mantendo o anonimato desde o início da sua formação, em meados dos anos 70, a banda de São Francisco criou o seu próprio mito, ao impor o mistério como imagem e forma de projecção mediática. Por outro lado, toda a sua obra tem evoluído em torno da sabotagem de alguns mitos e tabus, musicais e civilazacionais, do nosso tempo. Assim, os ícones musicais – os Beatles (em “meet the Residents”), Elvis Presley (em “Elvis and Eye”) ou alguns compositortes americanos, como Gershwin e James Brown (na série, inacabada, de “American Composers”) – juntam-se os temas do nazismo (“The Third Reich’n’Roll”), da morte (“Eskimo”) e, agora, de deus e da religião cristã, sistematicamente virados do avesso e esvaziados de sentido. O mesmo trabalho de sapa das toupeiras que escavam e minam as fundações da civilização humana na trilogia iniciada com “Mark of the Mole”. Mas a diferença que conservava os Residents na corrida pelo troféu de “banda mais bizarra”, contra os seus compatriotas Negativland e Biota, cessou a partir do momento em que o grupo cristalizou numa estética que, nos últimos anos, de álbum para álbum, se fixou numa série de lugares-comuns, do desenho das capas a uma utilização da electrónica cada vez mais comercial e imediatista. “Wormwood”, ao pretender ironizar, a partir de textos da Bíblia, sobre os pilares do cristianismo, desmontando-os através da racionalização pelo absurdo, se representa, sem dúvida, uma continuação coerente de toda a obra passada, acaba, no entanto, por falhar, e a estratégia arrasta consigo os próprios Residents, que aqui se reduzem à dimensão de um desenho animado.

Faust – Live In Edinburgh, 1997

30.01.1998
Faust
Live In Edinburgh, 1997 (6)
Klangbad, import. Ananana

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Pouco tempo após o lançamento de outro álbum ao vivo, a banda sonora, mais uma, para o clássico do expressionismo alemão, “Nosferatu”, os Faust voltam à carga, com uma nova sessão de palco, desta feita no Flux New Music Festival, que decorreu em edimburgo no ano passado e cujo resultado mais visível é o de ter dado mais uma machadada no mito, que tanto trabalho deu a criar nos anos 70. Se Jim O’Rourke transfromou um amontoado de resíduos abandonados pelo grupo germânico numa falsa resurreição em “Rien” e se “You Know FaUSt” era um decalque convincente dos feitos de outrora, “Nosferatu” tratou de deitar por terra a ilusão. “Live In Edinburgh” é um pouco melhor. Por uma razão simples e passando por cima do facto de o som ser bastante melhor do que o da lamentável captação do álbum anterior: continua a ser, basicamente, uma sucessão de ruído, com a diferença de que Werner Diermaier, Joachim Irmler e os seus novos discípulos dão uma maior organização ao que, de outro modo, pouco mais seria do que o discurso directo do caos. Esquecendo o passado, todo ele feito de provocações e inovação, poderíamos dizer que os Faust são hoje uma formação de música industrial de peso, cujas apresentações ao vivo – baseadas no excesso de distorção, percussões de metal e betão e lança-chamas – chegam a emular o tom de perigo antes remoído pelos Einstuerzende Neubauten, Laibach e La Fura Dels Baus. Nos anos 70 os Faust assustavam por outras razões. Mas isso, como o demonstra a actual evidência, faz parte de outra história.