Arquivo da Categoria: Avant-Rock

Jim O’Rourke – Bad Timing (conj.)

21.11.1997
O Princípio Da Contradição

LINK

Jim O’Rourke
Bad Timing (8)
Drag City, import. Ananana
Windsor For The Derby
Minnie Greuzfeldt (7)
Trance Syndicate, distri. MVM

Membro fundador dos industrialistas Illusion of Safety, actual elemento dos Gastr Del Sol, produtor e autor das misturas de “Rien”, álbum que assinalou o regresso, nos anos 90, dos Faust, mentor da banda sonora “Dutch Harbor” 8com colaborações, entre outros, de Will Oldham), remisturador dos The Sea And The Cake, Merzbow, Microstoria e Tortoise, detentor de uma já vasta discografia a solo, Jim O’Rourke tornou-se numa das figuras de proa da cena de Chicago e, em particular, do pós-rock. Numa altura em que as coordenadas musicais deste movimento ameaçam bloquear, assistindo-se ao aparecimento de uma quantidade de bandas novas que se limitam a propagar clichés em torno do “krautrock” e das guitarras minimalistas, descurando o espírito de descoberta cultivado por grupos como os Tortoise, Trans AM e Ui, o mais recente álbum de O’Rourke faz um ponto de ordem e lança novas pistas de trabalho.
Ao contra´rio do álbuma anterior, “Terminal Pharmacy”, essencialmente ocupado por manipulações de fitas magnéticas, “Bad Timing” dá a conhecer o Jim O’Rourke “unplugged” em quatro longas composições que aliam a devoção por dois dos seus heróis, John Fahey, mago obscuro da guitarra “fingerpicking”, e Tony Cnrad, associado dos Faust, para quem o minimalismo é sinónimo de massacre, com as suas particulares idiossincracias musicais.
Para Jim O’Rourke – desestruturalista, “gangster” e terror do “mainstream”, “semiótico do som”, como é apelidado no longo artigo que lhe dedica a revista “Wire” deste mês – interessa acima de tudo o conhecimento da natureza dos significados musicais e das suas implicações sociais, na procura de novas relações e diferentes contextos de sonoridades ou músicas historicamente determinados. Para tal é necessário recuar a uma essência, à origem do som, e é essa viagem de retorno que o músico aqui empreende, projectando, de regresso, no futuro, a sua obra redentora.
Os quatro temas têm um início semelhante. Surge em primeiro lugar uma guitarra acústica (inspirada em John Fahey) em fraseados “fingerpicking” que começam por fazer sentido dentro de um discurso tradicional para, em longos períodos de notas simples (por vezes uma só) repetidas até aos limites da monotonia (influência de Tony Conrad). Instala-se o transe, o silêncio, a tensão da escuta. Logo no primeiro tema, percebemos que esse é o mesmo lugar frequentado por Brian Eno.
A partir deste ponto a “música” nasce, constroem-se arquitecturas, sobrepõem-se materiais: piano, trompete, trombone, electrónica. Límpidos, estremunhados, do parto. No quarto e último tema (ou quarta parte de um longo exercício de depuração quase religiosa) a guitarra acústica inicia o seu percurso acompanhado à nascença por uma “drone” (electrónica, sanfona traficada?) cheia de rugosidades. Depois, a pele sintética cai e a música sofre uma metamorfose surpreendente, iluminando-se numa marcha de “big band”, antes da guitarra ressurgir, ainda mais limpa e solitária, numa balada que lava a alma inteira do pós-rock.

O projecto dos Windsor for the Derby é menos ambicioso. Neste caso o impulsionador do grupo é Adam Wiltzie, dos Stars of the Lid, também produtor dos Furry Things, que deste modo se assume como terceiro vértice do triângulo “maldito” de Chicago, juntando-se a Jim O’Rourke e John McEntire, dos Tortoise.
“Minnie Greutzfeldt” é um daqueles álbuns que não cativa à primeira. Aparentemente, estamos uma vez mais no domínio das guitarras descarnadas, tacteando a melodia sem lógica e a textura perdida. Mas a música dos Windsor for the Derby cedo se começa a desdobrar em diversas camadas de profundidade. Vozes muito, muito distantes invadem o metal das guitarras, instalam-se batidas repetitivas à maneira dos franceses Tone Rec, um baixo no limite das baixas frequências varre “No Techno w/drums”. “When I See Scissors” é um apontamento mimético do Brian Eno de “Another Green World” e “Music For Films”.
No último e mais longo tema de “Minnie Greutzfeldt”, “Skimming”, a influência de Wiltzie torna-se mais forte do que nunca, numa espécie de condensado do extensíssimo e obscuro mantra dos Stars of the Lid, “The Ballasted Orchestra”, onde é explorado o espaço sónico situado entre o nada e o vazio.

Pascal Comelade, Pierre Bastien, Jac Berrocal, Jaki Liebzeit – Obliques Sessions

07.11.1997
Pascal Comelade, Pierre Bastien, Jac Berrocal, Jaki Liebzeit
Obliques Sessions (6)
Les Disques du Soleil et de L’Acier, import. Ananana

LINK

Brinquedos e mais brinquedos. A princípio pareceu original, mesmo encantador. Depois, pouco a pouco, o universo falsamente infantil de Pascal Comelade foi perdendo a magia e os brinquedos as peças. Era preciso mudar. Comelade chamou o seu discípulo Pierre Bastien, também ele inventor de um dispositivo musical artesanal, o “meccanium”, Jac Berrocal, homem conhecido das músicas mais “free” que se fazem em França, e Jaki Liebzeit, antigo baterista dos Can. Para potenciar ainda mais o efeito de mudança foi utilizada a mesma mesa de misturas das “Estratégias Oblíquas”, inventada e usada pela primeira vez por Brian Eno e pelo pintor Peter Schmidt no álbum “Taking Tiger Mountain (By Strategy)”. Desgraça! Nada mudou. Em vez de largarem os brinquedos, o quea conteceu foi Berrocal e Bastien ficarem, também eles, fascinados pelos pianos, guitarra e flautas de plástico, cabendo a Jaki Liebzeit pôr ordem no caos com as suas percussões metronómicas. Temos então mais uma sessão de valsas, tangos e pequena “varieté” de corda, afixados com títulos evocativos como “Jours tranquiles a Rodez”, “Morceau en forme de pinces” ou “Souviens-toi de ces douces soirées”, tão do agrado de Comelade, ao lado de uma versão cambaleante de “Prime of life”, de Neil Young, e outra, desengonçada, de “Shikaku maru ten”, dos Can. Os dois únicos temas vocalizados, por Jac Berrocal, fazem a vénia a Eno e a Robert Wyatt (por via de Ivor Cutler, em “Rock Bottom”). Ao menos podia mudar para brinquedos a pilhas.

Steven Brown (Tuxedomoon) – Entrevista – : Ser Ou Não Ser Tuxedomoon, Eis A Questão

20.03.1998
Ser Ou Não Ser Tuxedomoon, Eis A Questão
Vestir Ou Não Vestir O “Smoking”

LINK

“Joeboy in Mexico”, afinal, não é um disco novo dos Tuxedomoon, embora um rótulo colado na capa proclame “o regresso dos Tuxedomoon”. Mas Steven Brown, com quem o PÚBLICO falou, diz que não. O México, com o seu “magnetismo” e as suas “forças espirituais”, determinou a diferença. E – sim – os Tuxedomoon, a lua de “smoking”, foram a primeira banda pós-rock da História.

Gravado em casa no México, retocado num estúdio comercial, “Joeboy in Mexico”, apresenta o lado mais obscuro e interessante da música da lendária banda de São Francisco, aqui explorado por Steven Brown com Peter Principle, com o convidado muito especial Blaine L. Reininger, o terceiro vértice dos Tuxedomoon.

FM – “Joeboy in Mexico” afinal não é um álbum dos Tuxedomoon…

STEVEN BROWN – Não é, de facto, e sublinho este “não”. Se fosse um álbum do grupo, teria essa indicação [Steven Brown deve ignorar a existência do tal rótulo]. Na realidade, a editora Opción Sónica pediu-me para fazer um novo álbum na sequência de “Ninerain”. Queriam uma coisa diferente, mais personalizada. Decidi trabalhar com Peter Principle, a companhia aceitou e ele veio ter ao México, para trabalhar durante um mês comigo, com Nikolas Klau, Alejandro Herrera e Juan Carlos Lopez. “keredwin’s reel” foi escrito por Blaine Reininger, a quem eu pedi que participasse no projecto. Depois disso, Peter partiu para Roma e Nova Iorque. Eu e os outros acabámos as gravações. Em 1981, peter e eu já tínhamos gravado “Joeboy in Rotterdam”, daí o nome do álbum. Qualquer destes dois álbuns aparece com pseudónimo na ficha técnica. É um segredo.

FM – Há alguma possibilidade de você, Peter Principle e Blaine Reininger voltarem a tocar juntos ao vivo?

STEVEN BROWN – Tocámos os três juntos, pela primeira vez em oito anos, no ano passado, em Telavive, Atenas, Salonica e Polverigi, na Itália. Além de que estamos a planear um novo disco e uma digressão pela Europa no próximo ano.

FM – Como é que se processaram as gravações? Foi ou não um trabalho colectivo?

STEVEN BROWN – No início a ideia era gravarmos no meu estúdio em casa. Com todo o tempo disponível para compor e gravar sem quaisquer preocupações monetárias. Mas uma avaria no equipamento obrigou-nos a mudar para um estúdio comercial vulgar. a maior parte dos temas foram compostos por mim com Nikolas. Alguns são peças inteiramente feitas e tocadas por mim, como “Bitter bark” e “Shipwreck”. “Brad’s loop” e “El Popo” incluem Alejandro Herrera como autor. Nesta medida, pode considerar-se um projecto colectivo.

FM – Há algum elo de ligação entre este disco e o anterior, “Ninerain”?

STEVEN BROWN – A presença, em ambos, de Alejandro e de Juan Carlos. A editora também é a mesma.

FM – “Joeboy in Mexico” recupera o lado instrumental e mais experimental dos Tuxedomoon, de álbuns como “Suite en Sous-Sol” e “The Ghost Sonata”, já para não falar dos dois primeiros álbuns, “Half-Mute” e “Desire”. Os Tuxedomoon serão um grupo “maldito” para sempre?

STEVEN BROWN – Tenho orgulho em fazer parte do “underground”, embora reconheça que é um estilo de vida que exige a existência de “senhorios” compreensivos…

FM – O espírito e a atitude musical dos Tuxedomoon está bastante próxima do actual pós-rock, de bandas como os Tortoise e Trans AM. Consideram-se pioneiros do rock mais radical?

STEVEN BROWN – Não conheço nenhuma dessas duas bandas (mande-me uma cassete, por favor!9. De qualquer forma, suponho que os Tuxedomoon foram, desde o início, uma espécie de banda pós-rock, ou pós-moderna. Quando começámos, nos anos 70, não havia muitos grupos como nós, a usarem violino, saxofone, caixas de ritmos, guitarra, órgão e fitas magnéticas.

FM – A capa do álbum faz lembrar o grafismo usado por um músico mexicano, Jorge Reyes…

STEVEN BROWN – Acho a capa fantástica! É um trabalho de Jaime Keller, um velho amigo meu e um grande artista. Quanto a Jorge Reyes, conheço-o. Gravamos para a mesma editora.

FM – O facto de o isco ter sido feito no México teve alguma importância no proceso criativo? Estamos a lembrar-nos dos fragmentos de manifesto revolucionário que foram usados no tema de abertura…

STEVEN BROWN – Salvador Dali afirmou um dia que teria pintado exactamente da mesma maneira mesmo se tivesse vivido no Pólo Norte, querendo com isto dizer que a localização geográfica não desempenha qualquer papel na produção artística. Já Peter Principle me disse exactamente o contrário, que o local tem muito que ver com os resultados. Para ele, o México determinou e conduziu todo o proceso de gravação, devido a um magnetismo ou a quaisquer forças místicas presentes neste país. A minha opinião está algures entre estas duas.

FM – Tem planos para gravar em breve um novo álbum?

STEVEN BROWN – Há um plano, que tenho em mente há mais de cinco anos, de gravar com Harold Budd.

FM – Ainda ouve música rock? Que discos é que tem andado a ouvir ultimamente?

STEVEN BROWN – O mais próximo do rock que tenho ouvido é Olivier Messiaen e Conlon Nancarrow, um compositor americano que viveu no México há 40 anos e compunha para executantes de pianola!…
Agora a sério, ouvi o novo de Todd Rundgren, com canções novas feitas ao estilo bossa-nova. Recentemente, eu e Peter Principle temos andado a trabalhar uma versão de Isaac Hayes de “Walk on by”, de Burt Bacharach.

FM – Atendendo à importância histórica dos Tuxedomoon, não está prevista nenhuma reedição remasterizada da sua discografia, como aconteceu, por exemplo, ainda há pouco tempo, com os Residents?

STEVEN BROWN – É uma boa ideia. Apesar de estar tudo disponível, em edições normais, através da Crammed, de Bruxelas, e ter sido lançada, em 92, a colectânea “Solve et Coagula”.

FM – Devemos considerar “Joeboy in Mexico” uma escultura sonora, um manifesto artístico ou uma boa anedota?

STEVEN BROWN – Folgo em saber que tem sentido de humor!

Nota:
Outros Discos Brilhantes E Obscuros Por Elementos Dos Tuxedomoon:
Steven Brown: “Searching For Contact”, “Zoo Story”;
Steven Brown & Benjamin Lew: “Douzième Journée: Le Verbe, La Parure, L’Amour”, “A Prpopos D’Un Paysage”;
Peter Principle: “Sedimental Journey”, “Tone Poems”;
Blaine L. Reininger: “Instrumentals, 1982-1986”;
Blaine L. Reininger & Mikel Rouse: “Colorado Suite”.