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Lou Reed – “United States Of Lou Reed” (artigo de opinião)

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4 Julho 2003

capa


United States of Lou Reed

Traz a Coimbra “NYC Man” e “The Raven”, peças do “puzzle” da vida de um homem do tamanho de Nova Iorque.



“Duas guitarras, baixo, bateria. Qualquer banda os pode tocar. É disto que gosto nas minhas canções: Pode-se ter o QI de uma tartaruga e tocar-se uma canção de Lou Reed. É também o que aprecio no rock ‘n’ roll. Qualquer um consegue tocar rock‘n’roll, incluindo eu. Três acordes chegam-me perfeitamente. Não me interessa aprender mais nenhum. Prefiro dominar estes três. Se são suficientemente bons para John Lee Hooker, também são bons para mim”.
É deste modo que Lou Reed comenta “Heroin”, uma das canções emblemáticas da sua carreira, incluída na antologia “NYC Man”, que serve de base ao alinhamento do duplo concerto em Coimbra, hoje e amanhã, pelas 22h, no Jardim da Sereia. Atitude de modéstia que, de certa forma, é contrariada pela grandiloquência de “The Raven”, o seu mais recente álbum, com as suas orquestrações e uma complexidade, musical e poética, que desmente a teoria dos três acordes. Já nos estávamos a esquecer: Lou Reed também é capaz de contar uma boa anedota.
Claro que a voz é monocórdica e que a estrutura das canções permanece, regra geral, fiel aos mandamentos do rock‘n’roll, o que não obsta a que a obra gravada de Lou Reed possa ser considerada um dos blocos de apontamentos – onde este nova-iorquino de 59 anos anotou de tudo um pouco – mais ricos da música popular dos nossos dias. Entre as exceções, contam-se a descarga de ruído elétrico em bruto de “Metal Machine Music” (cuidadosamente remasterizado numa edição recente, Lou Reed dá muita importância à qualidade de som), “The Bells”, que o próprio define como uma “mini sinfonia rock” (cuidado, António Manuel Ribeiro!), com a participação do trompetista oriundo do “free jazz” Don Cherry, e o novo “The Raven”, obra conceptual inspirada na literatura fantástica de Edgar Allan Poe.
É igualmente claro, ou escuro, que discos como “Berlin”, uma daquelas obras que nos faz provar o sangue e a noite por um cálice do mais puro cristal, “Transformer”, que alguns arrumaram rapidamente na gaveta do “glam rock”, ou “Magic and Loss”, requiem, de uma beleza dolorosa, por um amigo morto, estão longe de se confinar à constelação do rock‘n’roll e que aquela asserção de Reed deverá ser entendida à luz da ironia. Ou, melhor dizendo, do sarcasmo.

auto-retrato. O que Lou Reed apresentará ao vivo em Coimbra, depois do concerto semifalhado que constituiu a sua anterior apresentação em Portugal, no encerramento da Expo-98, foge às regras de funcionamento habituais dos concertos “antológicos”. À semelhança de “NYC Man”, não se trata tanto de um “best of” de propaganda dos “maiores êxitos”, mas de uma espécie de filme (ou documentário, Reed chama-lhe um auto-retrato) em que cada canção se relaciona com as que lhe estão próximas, segundo um encadeamento onde prevalecem as conotações subterrâneas, as afinidades psicológicas ou geográficas (em que Nova Iorque aparece, obviamente, como uma das personagens em destaque) ou inusitadas coincidências da matéria sonora propriamente dita (o “riff” de guitarra de “Ecstasy”, de 2000, remete e é o prolongamento natural de um outro “riff” de guitarra, de “Sweet Jane”, dos VU de 1970).
Funcionar de acordo com estes parâmetros até às suas últimas consequências, no disco e em concerto, requer a consciência de um vigilante e um pulso de ferro. Assim se compreende que tenha sido o próprio Lou Reed a determinar um alinhamento onde as evidências são passagens através de buracos negros, ligando mundos que a olho nu parecem tão afastados entre si como o sonho da rotina do quotidiano.
De que outra forma se poderá explicar que, na compilação, “Who am I?”, de “The Raven” (2002), desemboque em “Sweet Jane”, dos Velvet, ou que “Kill your sons” (gravação ao vivo de 1984) se interponha entre “Walk on the wild side” e “Vicious”, ambas de “Transformer”, embora neste caso, a própria sequência de títulos atire já a imaginação para um enredo perturbante? Ou que a evocação termine nos recônditos, mas tão atuais, sons de “Pale blue eyes”, dos Velvet do álbum homónimo de 1969 (ao vivo será “Candy says”)?
Ainda o comentário mordaz: “Quando se faz uma compilação, a última pessoa com quem se fala é o artista. Geralmente até se espera que ele já esteja morto de maneira a não incomodar com as suas sugestões.” Em “NYC Man”, pelo contrário, Lou Reed foi contactado e foi ele quem selecionou e sequenciou esta história de 25 anos na qual se interligam e justapõem – numa imagem de aparente caos que será, afinal, uma ordem, a mesma ordem babilónica sobre a qual se constroem os múltiplos ritmos e existências de Nova Iorque –, como se diz no disco, o melodrama e a tragicomédia, rock visceral e música ambiental austera. Tudo isto que nos concertos de Coimbra estará representado através do mítico “The Velvet Underground & Nico” – com a inclusão no alinhamento de “Sunday morning”, “Venus in furs” e “All tomorrow parties” (Laurie Anderson suportará a presença do fantasma de Nico?) – e da obra-prima de 1973, com “Men of good fortune” e a desolação de “The bed”.

o artista está “alto”. Há quem diga que o estranho da história é o facto de Lou Reed ainda estar vivo. Que o “anjo do bizarro”, parafraseando o título de um conto de Edgar Allan Poe, sorria ainda ao explicar que o “lado negro” e o “lado claro” não são mais do que os dois lados de uma mesma moeda a que chama a “vida real” e que é impossível sermos sempre infelizes ou felizes (embora uma canção como “Perfect day” mostre que é possível ser-se ambas as coisas ao mesmo tempo), ou que canções que nos habituámos a associar a um estado de depressão crónica do artista sejam afinal, como “Vicious”, o resultado de bons momentos e de “great fun” vividos no estúdio na companhia de amigos como Mick Ronson ou Bowie.
Sobrevivente dos tempos em que a sua única amiga era a heroína ou diletante hedonista, cronista pop da fauna da “Big Apple” ou poeta iluminado que ousa comparar as palavras de “Street hassle” a um monólogo de Tennesse Williams, Lou Reed é o puto sem grande voz que queria ser o artista que matou a arte, no circo dada antipsicadélico com o cartaz Velvet Underground, mas que acabaria por se tornar o grande edifício urbano, tão “alto” como o “empire state human” de que falavam os Human League. Lou Reed, o escarro, e Lou Reed, o esteta. Lou Reed, que se atrapalhou quando, em 1972, na gravação do álbum de estreia, “Lou Reed”, lhe puseram pela frente dois dinossauros do rock progressivo, Rick Wakeman e Steve Howe (ambos dos Yes!), e, anos mais tarde, viria a casar-se com a avatar da arte de vanguarda chamada Laurie Anderson. Um corpo, dois rostos. Laurie Anderson, a autora do megadocumento multimédia “United States of America”, Lou Reed, capaz de injetar na veia de uma canção de três minutos o reservatório completo de ADN (ácido desoxirribonucleico, embora o autor de “Heroin” tivesse especial predileção pelo pó branco) do rock & roll. Cada um deles alter-ego do outro. Ambos representantes dos estados unidos da música popular. Mais especificamente: estados alterados.

metal e magia. Lou Reed, que se pode gabar de, por sugestão da heroína, ter gravado o álbum mais inaudível da música popular, o atrás citado “Metal Machine Music”, cuja audição, na íntegra (coisa que, diz-se à laia de anedota, até ao presente ninguém logrou aguentar), equivalente a uma radiografia sonora do cérebro de um condenado à cadeira eléctrica no momento da execução. Lou Reed, o contador de histórias ternas, das tardes que assassinam o tempo, a ver “the animals in the zoo”. Lou Reed das fantasmagorias, nas asas do corvo alimentado com os poemas putrefactos, o álcool e o ópio de Poe, em “The Raven”. Lou Reed, sem receio de empunhar o escalpelo de Édipo em “Rock minuet”. Lou Reed, a fazer soar os sinos subliminares da loucura, em “The Bells”. Lou Reed, a dançar nos mais datados “nightclubs” de “disco sound” de NYC, em “Sally Can´t Dance”. Lou Reed da grande perda, que em vez de se abandonar ao abraço uterino da morte, e correr para a porta de saída, optou por seguir a seta a indicar a (re)entrada na vida, em “Magic and Loss”. E, no entanto, a sua voz continua a ser monocórdica. Quantas histórias cabem numa só corda da garganta?
Lou Reed virá a Coimbra acompanhado por Fernando Saunders (baixo), Mike Rathke (guitarra), Jane Scarpantoni (violoncelo) e Antony (o “crooner” do momento, com voz de “castratto”, que atuou recentemente em Portugal ao lado dos Current 93). Sentado algures no palco estará o mestre Guang Yi Ren, professor de artes marciais e terapeuta. Terapia por terapia, antes ouvir “Metal Machine Music” de ponta a ponta.


os discos do concerto

Na atual digressão, o “NYC Man” recuou aos primórdios da sua obra, dela tirando a percentagem maior de canções para o alinhamento dos concertos. Com o corvo a sobrevoar.

VELVET UNDERGROUND & NICO (1967)

O álbum da banana é o álbum que jamais teria existido sem o patrocínio de Andy Warhol, o homem-banana. Geralmente considerado como um marco e das obras mais seminais do rock contemporâneo (seria fastidioso enumerar as bandas para quem os VU são a fundação), “The Velvet Underground & Nico” desvia-se apenas por esse pequeno senão de não ser um álbum rock. O tribalismo rítmico deriva antes dos mantras minimalistas de La Monte Young e do monolitismo hipnótico de Tony Conrad, outro frequentador do “Teatro da Música Eterna”, do qual John Cale fizera parte, aliada ao dadaísmo do circo Exploding Plastic Inevitable (Warhol, hidra de muitas cabeças). Só que “VU&N” desce à praça pública da música popular, servida com uma violência inaudita. E uma voz sem fundo refletida nas águas do poço. Sem Nico, a música deste disco teria sido raiva e pedregulhos. Com ela, a passagem do veludo pela pele deixa a sensação da cobra. Fria. Porém, tão pura como a noite.

TRANSFORMER (1972)

A ideia era fazer de Lou Reed uma estrela de rock. Missão cumprida. “Transformer” entrou nos tops rodeado de uma aura de vício e “glamour”, tudo o que Warhol lhe ensinara mas que só a produção e os arranjos da dupla David Bowie (também ele fascinado por Warhol) e Mick Ronson conseguiram transformar num objeto apelativamente pop. O inesquecível solo de guitarra de Ronson em “Vicious”, os coros de “Andy’s chest”, de construção ostensivamente bowieana, a inexorabilidade melódica de “Perfect Day” e “Walk on the wild side”, clássicos eternos, polos apenas aparentemente contrários de uma única vivência no fio da navalha, não fazem esquece ro “vaudeville” ressacado de “Goodnight ladies”, o martelo-pilão dos Velvets, “Hangin’ round”, ou o “flash” que daria capa de revista, “New York telephone conversation”. “Transformer” poderia ter sido um disco de Bowie. Elegância e teatro. Reed imprimiu-lhe algo mais: a crueldade.

BERLIN (1973)

Não é um disco para se ouvir muitas vezes. Faz-nos sentir como neve. Quando o gravou, Lou Reed nunca tinha estado nesta cidade. Que importa, se o resultado é fiel? Álbum da solidão e decadência, começa com a recordação impossível de uma última valsa do pós-guerra dançada num cabaré de espectros, mas logo um eco isola a voz numa cápsula de vazio e ausência. Eis a Berlim onde cada um desce quando nada resta, pátria dos isolados, seringa de sonhos sem cor. Desprende-se de “Berlin” uma atmosfera de desolação grandiosa, de perda da inocência. “Man of good fortune” é um estalo desferido por quem diz “I don’t care at all”. E quando o corpo se deixa cair em “The bed”, sentimo-nos deslizar para o interior de um caixão. Escutando-se ainda a voz de uma mulher que já lá não está. “This is the place where we used to live…”. Adeus. “What a feeling”. O que sobra desta obra-prima intemporal é dito como se não pudese ser de outra forma: “Sad song”. Com orquestra, bandeiras e foguetes a disfarçar a dor.

THE RAVEN (2002)

Em Poe viu Lou Reed uma alma gémea. Às mesmas perguntas: “Quem sou eu?”, “Porque é que amamos aquilo que não podemos ter?”, “Porque nos apaixonamos pelas coisas erradas?” responderam ambos com o excesso. “The Raven” reúne material composto por Reed para um projeto mais vasto, “POE-Try”, com encenação de Robert Wilson. Duas edições distintas divergem no conteúdo. Versão simples composta maioritariamente por canções. Versão dupla com texto declamado, passagens instrumentais e uma visão mais lata do universo de Poe onde cabem o sexo e as drogas. Duas canções antigas, “Perfect day” e “The bed”, foram objeto de novos arranjos e a lista de músicos inclui Laurie Anderson, David Bowie, Kate & Anna McGarrigle e a lenda do “free jazz”, Ornette Coleman.

O corvo ou a pop nas asas do horror

Reed não foi o único, na pop, a perder-se nos horrores de Poe. Também Peter Hammill e Diamanda Galas traduziram a decadência e a morte que ensombram os seus contos.

“The Raven”, o corvo que Lou Reed arrancou do túmulo de Edgar Allan Poe para sobre ele construir uma sinfonia lúgrube que é como um manto de sombras tombado sobre uma Nova Iorque crepuscular, de símbolos e entes decaídos, inscreve-se numa linha de “rock fantástico”, que deve a sua inspiração sobretudo, aos escritores simbolistas do séc. XIX. Entre estes, o novelista e poeta norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849) exerce um poderoso fascínio sobre a cultura pop, enquanto transdutor de mitologias em que o medo, o mistério e o sobrenatural assumem papel de relevo.
Poe (como H. P. Lovecraft, outro construtor de horrores, no limite da racionalidade mais alucinada, que poucos se atreveram a assumir como brasão da pop, ainda que um grupo psicadélico americano, dos anos 60 se tenha apropriado do seu nome), fornece, através da sua obra, maioritariamente composta por narrativas curtas, todo um imaginário em que o sobrenatural surge não tanto como uma emanação da transcendência, mas como uma deformação do real – o monstro da irracionalidade que se infiltra por uma brecha no cérebro e provoca a alteração das perceções. O corvo que traz as más novas do Inferno e amaldiçoa a normalidade. A apropriação deste imaginário por Lou Reed seria então mais do que uma fuga para mundos idealizados ou a queda nos abismos infernais, a fixação/sublimação do hiper-realismo que desde sempre pautou a sua produção discográfica. As alucinações de ópio do autor de “O anjo do bizarro”, “Berenice”, “O poço e o pêndulo” e “O barril de amontillado” vivem em paralelo com as mutações e aberrações da Nova Iorque das mil e uma taras, da heroína e da paranóia, das criaturas marginais, “freaks” perdidos nessa outra alucinação que advém da alienação, da separação e, em última instância, da esquizofrenia que corta em absoluto as amarras que ligam o indivíduo ao tecido social.
Outros exemplos se podem apontar da relação entre o universo literário fantástico de Poe e a pop. O músico e poeta Peter Hammill, ex-líder dos Van Der Graaf Generator, preparou durante mais de 20 anos aquele que poderia ter sido – mas não foi – o seu “opus” máximo, uma ópera inteiramente baseada em “A Queda da Casa de Usher”, escrita pelo escritor natural de Baltimore em 1839. Duas versões diferentes deste trabalho comprovam a inadequação entre duas personalidades demasiado próximas ou mesmo irmãs. Hammill, considerado por alguns um dos grandes poetas ingleses vivos, quebrou a sua imagem contra a reflexão que o espelho de Poe lhe devolveu. O seu “In Camera”, álbum de 1974, é uma obra tão aterradora como os piores pesadelos do escritor simbolista e, de igual forma, uma prova de génio. Deste álbum, a passagem dos demónios “Gog” e “Magog” pelo espírito deixa marcas difíceis de apagar. Hammill é o Poe dos tempos atuais. Igualmente capaz de gelar não o espírito, mas o sangue é a maneira como a cantora e compositora Diamanda Galas ajustou uma das metáforas de Poe sobre a peste, a morte e a punição divina, “A Máscara da Morte Vermelha”, à sua própria trilogia sobre a maldição e a sida, “Mask of the Red Death”, obra sanguinolenta, no sentido infetado, tanto literal como metafísico do termo.
Considere-se ainda, como “fait-divers”, o álbum “Tales of Mystery and Imagination”, de Alan Parsons Project, inspirado em contos sortidos de Poe, que, apesar de provocar tantos arrepios como uma viagem de comboio-fantasma na feira popular, consegue, mesmo assim, ser o melhor álbum entre a fraca discografia do engenheiro de som de “Dark Side of the Moon”, dos Pink Floyd.
E se, no campo do minimalismo, Philip Galss baseou uma das suas óperas-a-vapor também em “A Queda da Casa de Usher”, registe-se, como final tenebroso, que os Dark Runner aspiraram os miasmas da obra de Poe para regurgitar a sua eletro-tecno-industrial nos álbuns “Master Save Us” e “Gentle Sin…”. O corvo exulta com a putrefação.

“O Circo De Feras Passou Por Alvalade” (artigo de opinião / concertos / festivais)

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sábado, 31 Maio 2003


O CIRCO DE FERAS PASSOU POR ALVALADE
Primitive Reason, Disturbed, Audioslave, Deftones e Marilyn Manson inauguraram, quinta-feira, em Alvalade, a temporada dos festivais rock. “Mosh”, urros, relva arrancada e cerveja. Quem precisa de música em ocasiões como esta?




20 mil pessoas passaram quinta-feira pelo Estádio José de Alvalade, a maioria para ouvir Marilyn Manson

Vendo as coisas objetivamente, a generalidade da música que se ouviu no Festival Super Rock in Lisbon, quinta-feira, no Estádio de Alvalade, na era pós-futebol, foi má. E quando não foi má, foi muito má. Mas as 20 mil pessoas que estiveram longe de esgotar o recinto (as bancadas estavam pouco mais que vazias e, no relvado, a mole humana apenas se estendia até pouco mais de metade) aderiram e gostaram.
A prova disso residiu no espetáculo que, praticamente durante as oito horas que durou o festival, foi oferecido pela parte da assistência que se comprimia em frente ao palco e se entregou com entusiasmo a uma sessão permanente de “mosh”, na sua nova modalidade: a ecológica.
Parecia uma daquelas imagens típicas da banda-desenhada, um torvelinho de poeira com braços, cabeças e pernas a saírem pelos lados. Mas com uma novidade relativamente ao “mosh” tradicional: à confusão da carne em combate do costume juntou-se o arremesso em todas as direções (preferencialmente as cabeças) de nacos de relva – com dimensões que variavam entre o simples torrão e a placa tectónica – arrancados ao vetusto tapete verde de Alvalade. Bonito de se ver.
Nas bancadas, pelo contrário, o ambiente era de maior contenção, até porque, à distância que se fica do palco, não dá para a excitação se propagar com a mesma intensidade.
As bandas em cartaz cumpriram todas o que lhes era pedido, ou seja, que baixassem o nível de qualidade formal da música o mais possível até perto do zero (o que, regra geral, conseguiram) e, em compensação, forçassem, também o mais possível, o nível decibélico.
Outra das características comuns entre as cinco bandas – Primitive Reason, Disturbed, Audioslave, Deftones e Marilyn Manson – foi o facto dos respetivos vocalistas passarem mais tempo a urrar do que a cantar. O efeito, esteticamente lícito, embora passível de levantar algumas objeções, teve o condão de nivelar músicos e multidão numa sessão de “gestalt” libertador. Ou, noutra perspetiva, de aproximar a pessoa humana de uma certa animalidade primordial, com a multidão a comunicar, por sua vez, entre si, através de uivos e urros. Ou, dito de uma maneira mais simples: parecia o jardim zoológico.

Volta, Alice Cooper, estás perdoado!
O rock dos Primitive Reason, que na ocasião apresentaram o novo álbum, “Firescroll”, soou duro, com citações ao ska, metálico e vociferante qb. O público aplaudiu com moderação, atarefado em ensaiar as primeiras coreografias de “mosh”. Intervalo para recarregar baterias, leia-se, para atestar o depósito de cerveja, mesmo com a imperial a um euro e meio.
Seguiram-se os Disturbed. Puseram o povo a gritar “we are… we are…”, que sim, que somos todos “disturbed”. O vocalista urrou, pediu para a assistência pôr os “motherfuckin’ fists” no ar (no que foi prontamente obedecido), a relva começou a ser metodicamente arrancada do seu lugar natural e a ser arremessada como projétil balístico. Tudo nos conformes. Intervalo para atestar o depósito de cerveja.
Os Audioslave, de Chris Cornell, ex-Soundgarden, acompanhado de três ex-Rage Against the Machine, sem descurarem os urros da praxe, tocaram a melhor música da noite. Riffs poderosos, metal fundido que não dispensou alguns desvarios electrónicos nem a melodia, a par de uma sensibilidade sem vergonha de pedir conselhos à pop, obtiveram, contudo, da multidão, a mesma reacção. “Mosh”, escalpes de relva, murros e pontapés desferidos com um misto de amor e selvajaria. Yeeeaaaahhhh! – por assim dizer. Foi muito ou foi pouco, mas foi o suficiente para os colocar acima da concorrência. Afinal de contas, os Audioslave mostraram ter algo que, provavelmente, o rock atual tende cada vez mais a desprezar: ideias. Outra boa ideia, para o intervalo: atestar – hic! – o depósito de cerveja.
Aguardados com enorme expectativa, os Deftones rastejaram (metaforicamente) pelo chão, com uma torrente de sons em estado bruto e o vocalista a urrar mais alto do que todos os outros, intercalando o berreiro com uma espécie de mini-manifestos ideológicos. O público interiorizou a mensagem e redobrou a fúria do “mosh”. Interv-hic-alo para, hic-ates-hic-tar o depósito-hic de cerveja.
E, finalmente, o monstro por que todos ansiavam. Marilyn Manson, com o álbum “The Golden Age of Grotesque” para mostrar. Grotesco foi, surgindo em Alvalade com o seu “look” habitual de Bela Lugosi acabado de sair do caixão. Mas, para além da maquilhagem, mostrou pouco ou quase nada. Rock de metal, rock sinfónico, baladas bimbas, uma versão, pretensamente perversa, de “Sweet dreams (are made of this)”, dos Eurythmics, “showbusiness” de pacotilha que meteu umas donzelas a fingir de nuas, luzes relampejantes, tudo a despachar, tudo a soar a falso (regressa, Alice Cooper, estás perdoado!), gritos de “Portogalo” e “fight!” (ou seria “bite”?) e o omnipresente “grroaaaarrrrhhh” que acabou por se tornar o “slogan” mais entoado da noite.
Terminada a função, do lado do público, a refrega abrandou, por fim. Com os corpos e as cabeças bem massacradas, saiu toda a gente do estádio feliz. E isso é bom. Ou, como suspirava no final uma rapariga, arrasada mas em êxtase, estendida no relvado: “Foi lindo!”

Pink Floyd – “De Ambos Os Lados Da Lua” (artigo de opinião)

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28 Março 2003

O melhor ou o mais irritante álbum dos Pink Floyd, hoje, como há 30 anos, continua a dividir as opiniões.

de ambos os lados da lua



É a obra-prima dos Pink Floyd. Dizem uns. É uma desilusão, o álbum dos efeitos gratuitos, dizem outros. Poucos discos terão causado tanta discórdia no seio dos apreciadores do Rock Progressivo como esta “monstruosidade” de efeitos especiais e produção “over the top”, que ainda hoje divide as opiniões.
Eduardo Mota, 45 anos, professor, “melómano militante”, sócio fundador da Associação Cultural “Portugal Progressivo”, criador dos portais das bandas Amazing Blondel e Gryphon, e de outros como os de Maddy Prior e Van der Graaf Generator, e ainda o generalista Portugal Progressivo, e Álvaro Silveira, 38 anos, economista, “maluco por música, especialmente progressiva” estão de acordo que os Pink Floyd foram uma das bandas mais importantes do Progressivo. Mas, quando toca a “Dark Side of the Moon”, posicionam-se em lados contrários da barricada.
Álvaro chegou ao Progressivo quando já se agitavam as bandeiras negras do “punk”. “Quem iniciava a sua adolescência na segunda metade dos anos 70 tinha duas alternativas. Ou alinhava com o processo revolucionário em curso que chegava de Londres e pendurava alfinetes na roupa e na face, gritando ‘no future’, ou assumia a nostalgia de um passado imediato e embarcava no mundo do progressivo e do sinfónico.” Optou pela segunda hipótese, juntando-se a uma tertúlia de amigos para quem os Yes, os Led Zeppelin ou os Genesis representavam o “crème de la crème” do Progressivo. “Havia uma coisa que nos unia, o ‘The Dark Side of the Moon’. Era o disco que tinha mais audições. Individuais e coletivas. Só para ouvir ou também para dançar. Para confirmar um detalhe ou como evento conceptual. Com ou sem apoio de substâncias proibidas. Com namoradas ou sem elas. Em casa ou no liceu. Qual ‘The Lamb Lies Down on Broadway’, qual ‘Close to the Edge’, qual ‘Houses of the Holly’, ‘The Dark Side’ era o denominador comum.”
Já Eduardo Mota, dez anos mais velho, contextualiza de outra forma o seu contacto com o pomo da discórdia. “Chegado de véspera ao admirável universo sonoro do Rock Progressivo, num momento em que procurava consolidar os meus valores musicais, o disco dos Pink Floyd, para além de desiludir, veio confundir a seleção em curso. Para um lado ficavam Beatles, Stones, Deep Purple, Grand Funk, Black Sabbath e quejandos, os rejeitados. Para o outro, os fascinantes Gentle Giant, Van der Graaf Generator, Genesis, Yes, Tangerine Dream, Renaissance, Soft Machine, Caravan e os… Pink Floyd.” “Dark Side of the Moon”, contudo, provocou-lhe uma profunda deceção. Os Pink Floyd, que antes “surpreendiam com álbuns arrojados como ‘Atom Heart Mother’, ‘Meddle’ ou ‘Ummagumma’”, os mesmos “que meia dúzia de anos antes, em pleno psicadelismo, ousavam assinar ‘Astronomy Domine’, uma peça premonitória do próprio Progressivo”, eram agora os Pink Floyd que “não ousavam nada, apenas alindavam”. “Não aprofundavam, preferiam simplificar. Não surpreendiam, preocupavam-se em agradar. Não experimentavam, optavam por investir com retorno mais que garantido.” Eduardo não lhes perdoou. “Não comprei o disco. Nem desejei que alguém mo oferecesse numa ocasião festiva. Irritei-me até, sempre que o ouvia passar na telefonia, na discoteca, no intervalo de uma sessão cinematográfica, ou ao ser ‘tocado’ num baile provinciano pelo ‘jazz’ de serviço.”
Álvaro Silveira não poderia estar mais em desacordo: “Dark Side of the Moon”, na altura, “era o supra-sumo da música”. “Cada faixa tinha o seu detalhe que nos fazia delirar, permitindo que o classificássemos como algo que naquela idade nos parecia altamente de vanguarda. Eram os relógios de ‘Time’, a caixa registadora de ‘Money’, o riso louco de ‘Brain Damage’, o solo vocal de ‘The great gig in the sky’…”. Recorda ainda que “esses eram os tempos em que as danças se faziam ao som do ‘Money’ e os slows ao som de ‘The great gig in the sky’ (e de ‘Carpet crawl’ dos Genesis e ‘Child in time’ dos Deep Purple)”.
“Depois havia aquela capa com a luz a multiplicar-se nas cores do arco-íris e que era a embalagem perfeita do psicadelismo cósmico”, acrescenta. A mesma capa a que, quase 30 anos depois, nem mesmo Eduardo Mota conseguiu resistir, acabando por adquirir “um LP miniatura japonês que reproduzia fielmente a capa, ‘poster’ e autocolantes da edição original, tudo na escala reduzida de um CD”. “Um encantador objeto de coleção. Mais para guardar que para ouvir.”
Hoje, Álvaro Silveira, apesar de manter intacto o seu fascínio pelo disco, reflete de outro modo: “Há quem associe o ‘Dark Side…’ ao fim do período de ouro dos Pink Floyd. Penso que há um exagero. ‘Dark Side’ é o disco mais importante de toda a obra dos Pink Floyd, por inúmeras razões. É a síntese na modernidade dos vários caminhos experimentados na primeira metade da sua discografia. É o abrir para a nova sonoridade que irá estender-se pela grande produção que é ‘Wish you Were Here’. Em termos musicais foi a catarse da herança Syd Barrett e a passagem de testemunho a Roger Waters como o novo timoneiro. Sem ceder ao facilitismo comercial, trouxe os Pink Floyd para o grande palco universal. Ao fim de tantos anos continua a ser referência histórica e estética.” E personaliza: “’Dark Side of the Moon’ já me acompanhou nas descidas aceleradas das pistas de esqui da serra Nevada. Nas estradas poeirentas e desérticas de Marrocos. No calor das praias das Caraíbas. Nas tempestades tropicais africanas.” Porque, explica: “Dark Side of the Moon” é “uma das poucas obras que, ao fim de 30 anos, continuam a exigir uma meia dúzia anual de audições e que fazem parte da nossa lista de discos para levar para a tal ilha deserta.” Eduardo Mota encolhe os ombros. Afinal, será apenas o álbum que “ostenta o título de ‘o mais vendido de todo o Progressivo’”.