Blaine L. Reininger – “Blaine Reininger Anima Noites De Lisboa, Coimbra E Porto – Programador De Excentricidades” (concerto

cultura >> sábado >> 29.10.1994


Blaine Reininger Anima Noites De Lisboa, Coimbra E Porto
Programador De Excentricidades



Se quisermos ser rigorosos teremos que definir a música de Blaine L. Reininger como anacrónica, primária e por vezes até aborrecida. Mas no concerto que o ex-Tuxedomoon deu em Lisboa, o bigode, as deixas, os esquecimentos, os desatinos e algumas boas canções fizeram cair por terra todas as reservas.

“Estou aqui para vos entreter!”. Estava dado o mote para uma noite de loucura e algum amadorismo no duplo sentido do termo: amante e artesanal. De casaco verde vivo, o tradicional bigode à macho latino e expressão aluada, Blaine L. Reininger presenteou o escasso público que na noite de quinta-feira acorreu ao teatro S. Luiz em Lisboa com um “show” onde o “kitsch”, o “nonsense”, as movimentações desajeitadas pelo palco e alguma desorientação foram compensadas pela personalidade, o humor e uma música simpaticamente anacrónica. A mesma receita usada ontem em Coimbra e prevista hoje para o Porto, no cinema do Terço Às 22 horas. Música que oscilou entre a “cold wave” e a “electropop” do início dos anos oitenta, a nostalgia elegante de uma Europa idealizada e romântica e a excentricidade pura e simples.
Blaine L. Reininger entrou a falar e a cantar em espanhol (ele é natural de S. Francisco mas tem ascendência mexicana), com “Gigolo grasciento”. Começou por arranhar o violino pra, à medida que se foi descontraindo, mostrar lá mais para a frente que afinal é um executante de grande talento. Esqueceu-se de meter uma disquete no computador de ritmos, deixou cair as pautas, tocou programações “Midi”, improvisou na guitarra eléctrica e nos teclados e cantou com a sua voz misto de Bowie, Pavarotti e taberneiro. Referiu o seu amor por Paris – “la cité de mon coeur” – que no “Autô (Outono) é muito “Spéciau”, recordou os Tuxedomoon, carregou em centenas de botões, e brincou com as palavras na criação de ambientes inusitados.
“The polar orbit”, tema novo para uma banda-sonora, “Café au lait de Mr. Mxzptlk”, uma “Paris” nostálgica e Satiana, “Letter from home”, “To the green door”, “Nocturne in seven”, “Metro”, “La tombée de la nuit” – sobre uma vidita ao cemitério parisiense do Père Lachaise (“porque é que as pessoas vão visitar Jim Morrisson quando estão enterradas lá pessoas bem mais importantes como Oscar Wilde e Guillaume Appolinaire?”, perguntou) e “Night air”.
Quando, após hora e picos de concerto, regressou ao palco para dois encores, preenchidos por temas dos Tuxedomoon, Blaine Reininger, simulando uma expressão atrevida, murmurou para uma assistência nessa altura já rendida à sua “verve”: “vocês já sabiam que eu vinha, de qualquer maneira”. E em seguida, erguendo no ar duas disquetes: “ainda tenho mais estas duas para tocar”. Foi sempre assim, ao longo de uma noite bem passada, num espectáculo feito de descontracção, ausência total de pretensiosismo e canções divertidas. Tudo o que faz de um artista um verdadeiro “entertainer”.

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