Arquivo mensal: Setembro 2020

Mary Coughlan – “Sentimental Killer”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 15.07.1992


O BAR DA ÚLTIMA ESPERANÇA

MARY COUGHLAN
Sentimental Killer
LP / CD East West, distri. Warner Music



Sete anos e quatro álbuns bastaram a Mary Coughlan para se afirmar como uma das maiores intérpretes actuais da música popular. E é sobretudo isso que esta irlandesa, herdeira da tradição de Billie Holiday, é: uma intérprete, aquela que dá voz aos sentimentos e desvenda os mistérios que uma canção pode encerrar. Depois de “Tired and Emotional”, “Under the Influence” e o magistral “Uncertain Pleasures”, “Sentimental Killer” volta a dar todo o sentido à máxima perfilhada pela cantora: “A qualidade intrínseca das canções tem mais importância do que qualquer estilo particular.”
Cantar é, neste caso, ser actriz de uma peça multifacetada e de múltiplos enredos, moldar-se e enlear-se em cada canção. Interiorizá-la. Dar-lhe uma forma diferente, específica, sem trair a intenção do compositor (não é regra), mas que se adeque à sensibilidade do intérprete. Potenciá-la ao máximo. Eis onde reside a diferença entre o artista e o mero tradutor. Mary Coughlan sente uma particular atracção pelos temas melancólicos. Pelo lado sombreado de uma melodia. Pela noite, em todos os seus matizes, dos calores tórridos aos grandes terrores. É sempre, ou quase sempre, essa atracção que determina a escolha das canções. E em todas elas, o jogo resulta luminoso. E também nós nos acolhemos ao conforto das sombras, embalados pela voz, transportados não se sabe por nem para onde, até ao limite da noite. Ou da manhã. Como acontece quando escutamos Marianne Faithfull, Mathilde Santing, Billie Holiday. Do cabaré brechtiano à “country” crepuscular, do “gospel” de um Francisco de Assis sublimado ao regresso às origens irlandesas de “Love in the shadows” e “Sentimental Killer”; dos amores proibidos de Marc Almond (“There’s a bed”); das brumas interiores de Jacques Brel (“Hearts”) até ao bar da última esperança de “Just a friend of mine”, entre um piano, uma garrafa e uma cortina de fumo, em todas as vezes Mary Coughlan se transfigura e transfigura, no modo como coloca a voz ao serviço das dores e da inspiração alheias que, no fim, acabam por ser as suas. Em síntese derradeira que a cantora define como a sua “biografia musical”. Diferentemente de “Under the Influence” e “Uncertain Pleasures”, que permanecem como as suas duas obras maiores, “Sentimental Killer” desenrola-se num conjunto de interpretações em que prevalece se não a uniformidade de registos, pelo menos a unidade de ambiente. Como se a cantora quisesse condensar o delírio amoroso, no fim sempre traduzido em ganhos e perdas, num imenso golpe de asa, numa vastidão que só a melancolia permite habitar. Essa habitação onde cada um de nós foi ou será alguma vez morador único. A curar-se das feridas para mais adiante se voltar a ferir nos espinhos da mesma rosa. (8)

Jennifer Warnes – “The Hunter”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 15.07.1992


Jennifer Warnes
The Hunter
LP / CD Private Music, distri. BMG


Disco simpático. De caça, sem que se saiba bem quem é o caçador e o caçado. Jennifer Warnes, admiradora de longa data de Leonard Cohen, faceta expressa de forma exemplar na colectânea de canções deste compositor canadiano, “Famous Blue Raincoat”, rubrica aqui nova colecção de temas – da sua autoria ou de autores variados como Todd Rundgren, Max Carl, Donal Fagen e Mike Scott (Waterboys). Desde o registo vocal à selecção de ambientes, esta série de canções recorda alguns momentos mais descontraídos de Joni Mitchell.
Álbum equilibrado entre o “som de Memphis”, as toadas “cool” ou o exotismo de percussões polinésias ou de um violino dos Apalaches, “The Hunter” fala de amor, morte, luxúria e abandono. Ou das luzes cruas de Louisiana, num tema iluminado pelo mítico Van Dyke Parks. Profundamente feminina, feito de intuição e outras fulgurâncias, esta caçada de Jennifer Warnes, sem atingir o brilho supremo das grandes obras, deixa contudo espaço suficiente para o fascínio. (7)

Liam O’Flynn + Donnal Lunny + Nollaigh Casey + Neal Martin + “III Encontros Musicais Da Tradição Europeia Abrem A Frio E Tudo O Vento Levou” (festivais / concertos)

Cultura >> Segunda-Feira, 13.07.1992


III Encontros Musicais Da Tradição Europeia Abrem A Frio
E Tudo O Vento Levou


Com o som mais lato e menos vento do que esteve na sexta-feira à noite, o Parque dos Anjos, em Algés, é um bom local para se ouvir música folk. De outro modo custa um bocado. A actuação do irlandês Liam O’Flynn, exímio tocador de “uillean pipes”, e dos seus companheiros Donnal Lunny, Nollaigh Casey e Neal Martin, que abriram os III Encontros Musicais da Tradição Europeia, ressentiu-se da forte ventania que se fez sentir. Quando seria de esperar uma noite esfuziante de “reels”, “jigs” e outras cadências populares irlandesas de puxar ao pé, aconteceu, em vez disso, uma prestação morna que nunca chegou a aquecer as muitas pessoas que se deslocaram ao local desejosas talvez de reviver ao vivo o fantasma dos Planxty.
Além dos elementos, também a amplificação, pouco potente, não ajudou. A cinco metros dos músicos, dispostos sob uma árvore iluminada, ao fundo do pequeno anfiteatro do parque, ainda se ouvia qualquer coisa, por entre as rajadas de vento. Cá mais para trás, só a intempérie e uns sons fracos vindos de longe, a uns 20 metros de distãncia. A dez centímetros, deve ter sido fabuloso.
Liam O’Flynn, o lendário gaiteiro dos Planxty, lá foi apresentando os temas, entre o “show” das “pipes” que ele maneja tão à vontade como se de um copo do bom velho (12 anos já não está mal) “Jameson” “whisky” se tratasse, mas via-se que também ele tremia de frio. Sobressaíram as cadências mais lentas, aquelas em que era possível distinguir com maior nitidez o som dos instrumentos, um “air” interpretado a solo no violoncelo por Neal Martin e as intervenções de Liam O’Flynn no “tin whistle”, no meio de uma versão, que não fez esquecer a dos Chieftains, de “Tabhair dom do lámh” e “Music for a found harmónium”, dos Penguin Café Orchestra, que decididamente está muito “in” entre os grupos de música tradicional.
Donnal Lunny (militou nos Planxty, passou pelos Bothy Band e acabou na produção, com destaque para a colectânea “Bringing it all back home”), na guitarra, “bouzouki” e teclados, Neal Martin, no violoncelo e Nolaigh Casey (a rapariga que debutou nos Oisin), no violino, mostraram o que valem nos respectivos instrumentos. Mostraram, é como quem diz, sugeriram, nos momentos em que a audição se tornava em puro exercício de adivinhação. Mas valeu a pena, até porque a sua reputação não é pequena.
Os concertos prosseguem no mesmo local, amanhã, com Elena Ledda & Suonofficina, da Sardenha, e Muxicas, da Galiza e quarta-feira, com os escoceses Capercaillie. Na sexta, actuam Amélia Muge e o trovador da Occitânia Jean Marie Carlotti. Depois, pelo mês fora até à primeira semana de Agosto, os Encontros repartem-se por Évora, Guarda e Guimarães. Que S. Pedro esteja com eles é o que se deseja – um Verão tradicional.