Arquivo mensal: Outubro 2018

Steve Fisk & Robert Beerman / Cut-Out – “Interlude With The Fun Machine”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
14 Novembro 2003


STEVE FISK & ROBERT BEERMAN
Cut-Out, Interlude with the Fun Machine
Starlight Furniture Co., distri. Sabotage
7|10



Autor de um dos clássicos da pop alternativa dos anos 80, “448 Deathless Days”, Steve Fisk regressou há dois anos com novo trabalho inspirado na numerologia, “999 Levels of Undo”. Desses dias sem morte para cá, a música de Fisk, membro dos Pigeonhead e Pell Mell, produtor dos Screaming Trees, Nirvana, Beat Happening, Low e Soul Coughing, entrou em normalização. Só que “normal” é ainda sinónimo de margens do “mainstream”. “Cut-Out” vai ao encontro dos parâmetros do pós-rock de bandas como Tortoise ou Tarwater com tendência para o exagero na repetição e fragmentação dos “grooves”. Porém, o que em “448…” era colagem inteligente de eletrónica com lugares-comuns de géneros como a “soul” ou o “disco”, derivou para uma linguagem cuja originalidade ficou substancialmente reduzida. Entre assomos de drum & bass e pisadelas tecno, esta “máquina de diversão” consegue, ainda assim, surpreender, seja com o falso bloqueio de um leitor de CD avariado (“Under the lamp”), seja com a música de câmara digital de “Fin”. A vida está difícil para excêntricos como Fisk, por mais que procurem métodos de “não fazer”.

Animal Collective – “Spirit…/Danse…”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
14 Novembro 2003


ANIMAL COLLECTIVE
Spirit…/Danse…
2xCD Fatcat, distri. Ananana
9|10



Avey Tare e Panda Bear viajaram de Baltimore para Nova Iorque para se dedicarem ao malabarismo musical. Inventam melodias em forma de serpente, atiram-nas ao ar, umas vezes apanham-nas, outras deixam-nas cair para ficarem mais deformadas. Depois furam-nas e retorcem-nas até os olhos saltarem das órbitas. Nesta junção de “Spirit they’re Gone/Spirit they’ve Vanished” e “Danse Manatee”, respetivamente em 1999 e 2001, cabem os maiores desvarios. Eles falam em psicadelismo e a voz de Panda, a par de certas estruturas melódicas, sugere, de facto, os Legendary Pink Dots, mas nada nos prepara para a alucinação: eletrónica animalesca, pianos ora clássicos ora em dissonâncias jazzísticas, “easy listening” para psicopatas, “noise” mutante e pop – sempre a pop… – a trocar-nos as voltas. “Danse…”, mais abstrato, tem a densidade da música contemporânea e a originalidade de um futuro ainda por desembrulhar. Tudo o que pode ser experimentado entre uma visão de Syd Barrett e a cacofonia está aqui. O apocalipse da pop.



Rickie Lee Jones – “Evening Of My Best Day”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
7 Novembro 2003


rickie lee jones
just a perfect day

RICKIE LEE JONES
Evening of my Best Day
V 2, distri. Edel
8|10





Há vozes às quais acenamos de longe. Vozes que cumprimentamos com um aperto de mão. Vozes que nos abraçam e nos beijam apaixonadamente. Vozes pelas quais nos apaixonamos. Umas fazem-nos sonhar. Outras fazem-nos sofrer. A querer-nos mal. A querer-nos bem.
As piores vozes são as vozes que nos deixam indiferentes. A voz de Rickie Lee Jones, mais que não fosse, dá vontade de espirrar. Mas não em “The Evening of my Best Day”. Não, porque a respiração está mais solta e tudo parece fluir como o movimento da lua entre os eucaliptos, a envolver a silhueta de uma mulher que dança.
A tarde do melhor dia dela tem tudo para ser uma ocasião inesquecível para nós. “Just a perfect day”, como diria Lou Reed… A autora de “Pop Pop”, o disco de jazz mais pop do mundo, e do fantasmagórico e experimental “Ghosty Head” (um dos nossos preferidos), regressou com um novo álbum só de originais, pondo fim a um interregno de seis anos. Está melhor da constipação. Ou são as canções que se pegam, nos contagiam, nos infetam com uma doença parecida com os sintomas da luxúria.
“The Evening of my Best day” começa por deslumbrar pela riqueza e diversidade dos arranjos. Como palco de cada registo interior encontram-se paisagens pop, jazz, country, rhythm & blues, “americana”, gospel…Ecos de Joni Mitchell (“A second chance”) e certidões de apadrinhamento a Suzanne Vega. E, em “Bitchennostrophy”, o Brasil, cantado em francês, “Jane Birkin meets Astrud Gilbert” naquele areal que os Stereolab e os High Llamas tentam desesperadamente tornar num local quente.
Órgãos “lounge”, vibrafones marinhos , flautas de pássaros, violinos de outras épocas vestidas de fraque, trombones de bigode, guitarras a escorrer sucos do espírito. E a tais grandes canções, em alguns casos enormes, como “Sailor song”, trágica como um naufrágio. Ou a “A tree on Allenford”, com a beleza intricada de um enigma oculto no nevoeiro da infância (a capa do disco mostra uma criança), desenhados nas margens por um acordeão e um clarinete baixo. Passam acusações a George W. Bush, em “Tell somebody (repeal the patriot act)” e melodias leves como “It takes you there”, de fazer inveja aos The Sea and Cake, e o “blues” carnívoro mas depois doce e torta de angústia de “Mink coat at the bus stop”, com uma das mais legíveis e fortes assinaturas vocais de todo o disco.
“Evening of my Best day” faz-nos querer mais, levando-nos, a cada audição, a penetrar profundamente neste dia com a duração da eternidade mas que finalmente se apaga no crepúsculo até nada ficar senão a noite. Tal qual o tempo da infância. E da paixão. Iluminado por fora, escuro como um poço por dentro.
Rickie Lee Jones não pretendeu mais nada senão partilhar connosco este seu mundo. Sem no-lo atirar à cara, antes com o calor e o toque sensual de uma carícia. E, ao contrário de outras “singer songwriters”, sem confundir simplicidade e sinceridade com penúria de meios e pose de pobrezinha sofredora. Mulher e esteta, oferece-nos sentimentos como se fossem iguarias. Entre a extensa lista de músicos convidados encontram-se Syd Straw, Rob Wasserman, Alejandro Acuna, Bill Frisell, Nels Cline, Grant Lee Philips e Ben Harper com os Innocent Criminals. Todos contribuem de maneira tão discreta como eficaz, acrescentando recortes de outras músicas a um fluxo inesgotável de ideias e emoções que conseguem soar ao mesmo tempo complexas e naturais. Saúde-se a saúde deste dia.