Arquivo mensal: Setembro 2017

Pan Sonic – “A”

Sons

14 de Maio 1999
POP ROCK


Pan Sonic
A (8)
Blast First, distri. Symbiose


a

Depois de Matilde Santing ter perdido o “h” de Mathilde é a vez de os Panasonic deixarem cair o “A” e passarem a chamar-se Pan Sonic. Guardaram a letra para o título e lançaram já um maxi que carimbaram com um rotundo “B”. Um abecedário que promete. A dupla dos noruegueses Mika Vainio e Ilpo Väisänen, depois de no ano passado terem recriado em conjunto com Alan Vega o som dos Suicide, em “Endless”, voltaram a recolher-se ao quarto escuro dos primeiros tempos. Um quarto fechado e sem móveis, penetrado durante 24 horas por dia pelos ruídos da monotonia e da alienação. “A” tem a subtileza de uma esfera de chumbo e o apelo de uma sala de operações a funcionar no vazio. É a máquina de tortura inventada por uma das personagens de Kafka e uma cápsula de transcendência para tomar entre dois acesos de paranóia. A música dos Pan Sonic detesta o romantismo e as cores do arco-íris. Mas nutre toda a simpatia pelas linhas de montagem dos primeiros Cluster e Kraftwerk e pelas chagas de metal da música industrial. O metal de “A” não tem ferrugem, é metal vivo, como uma criatura saída da imaginação de um cientista louco. “A” é bom para meditar desde que seja sobre o nada. “A” é um afrodisíaco desde que o parceiro(a) seja um boneco(a) insuflável. “A” é música ambiente da cidade do futuro que todos desejamos que nunca venha a existir. “A” é a primeira letra do fim. “A” é “endless”, não tem fim. “The torture never stops” cantava Frank Zappa no álbum “Zoot Allures”. Mas o que provoca dor no humano dá prazer à máquina. Uma máquina programada para castigar o homem e para se masturbar até ao infinito.



Pierre Bastien – “Musiques Paralloïdres” + André Popp & His Orchestra – “Delirium in Hi-Fi”

Sons

14 de Maio 1999
POP ROCK


Pierre Bastien
Musiques Paralloïdres (7)
Lowlands, distri. Ananana
André Popp & his Orchestra
Delirium in Hi-Fi (8)
Basta, distri. Matéria Prima/Ananana


pb

Dois álbuns de colagem, “Musiques Parallöidres” e “Delirium in Hi-Fi”, estão separados entre si por 42 anos. Bastien, elemento habitual da orquestra de Gepetos de Pascal Comelade, já tinha inventado o Meccanium”, ainda uma orquestra, mas de dispositivos mecânicos articulados e sincronizados por meios artesanais. Um conceito de música robotizada que nos anos 70 já fora posto em prática pelo lunático Riger Ruskin Spear, dos Bonzo Dog Doo Dah Band, com a sua Giant Kinetic Wardrobe. “Musiques Parallöidres explora um conceito semelhante ao de Meccanium, desta feita utilizando um sistema de vários gira-discos modificados e igualmente postos em sincronização. “Loops” de espiras de vinilo atravessadas pela agulha do gira-discos nos dois sentidos e posteriormente coladas e montadas (nalguns casos adicionados a instrumentos executados em tempo real, embora Bastien não dê quaisquer indicações nesse sentido) criam um cabaré minimalista de marionetas que, por vezes, lembram algumas das experiências dos Severed Heads em “Since the Accident” e “City Slab Horror”. O caso de André Popp ilustra uma genial esquizofrenia. Em 1957, este senhor gravou em Paris o presente disco de easy-listening, a partir da manipulação de fitas previamente gravadas. O resultado é pura ilusão. Temas do imaginário comum como “La Paloma”, “Adiós muchachos” ou “La cumparsita” ganham uma consistência espectral, na estranha inflexão de uma voz ou em quase imperceptíveis metamorfoses dos timbres, transportando-nos para uma realidade alternativa. André Popp imitou o dr. Frankenstein.