Arquivo mensal: Julho 2016

More República Masónica – “Equalizer”

POP ROCK

6 de Novembro de 1996
portugueses

More República Masónica
Equalizer

EXIT ESTUDIO, DISTRI. MÚSICA ALTERNATIVA


mrm

Um ano depois da edição de “Blow your Mind (with Supersonic Meditation)”, os More República Masónica apuraram o seu gosto de melómanos pelo rock’n’roll das últimas três décadas, recorrendo desta feita aos serviços do produtor Marsten Bailey, na procura de um som mais sofisticado. Ou mais “equalizado”… Agora, por trás da barreira das guitarras eléctricas, tão saturadas de adrenalina e de memórias como no álbum anterior, chegam à superfície da mistura outro tipo de sonoridades, ora acústicas, ora com proveniência exterior, como o violino de Mário Resende, dos Duplex Longa, a conferir a “Bloom” e “Roads” o mesmo tipo de tempero que John Cale adicionava, com a sua viola de arco, à metalomecânica dos Velvet Underground. Rock com cheiro a flores murchas e consistência de óleos pesados continua a ser o domínio preferencial dos More República Masónica, desta feita com abertura ao “reggae”, em “Grounded song”, a inclusão de uma “pastiche” de Frank Black ao volante dos Cars, em “Karaoke nightmare”, e o mesmo ouvido atento às sirenes do som de Detroit, de bandas como os Stooges e MC5. Ou ainda o registo alucinatório-mutante dos Chrome, num tema de violência terminal, como “Parasite”. O que significa que para os MRM psicadelismo é sinónimo de “bad trip”, na equalização psicótica de épocas e registos díspares em que o “speed” e o “riff” recortado a canivete são factores comuns de mais esta sessão de “meditação supersónica” a que a divagação sonambúlica, na versão de “Roads”, dos Portishead, vem pôr termo. (7)



Rodrigo Leão & Vox Ensemble – “Theatrum”

POP ROCK

16 de Outubro de 1996

RODRIGO LEÃO & VOX ENSEMBLE
Theatrum (8)

Columbia, distri. Sony Music


rl

O maior “pecado” da pop continua a ser o de querer deixar de o ser. Rodrigo Leão insiste na menção a referenciais pop, em relação ao seu trabalho, mas a evidência mostra que a sua alma deriva hoje por outras frequências do espectro musical. “Theatrum”, segundo álbum com os Vox Ensemble, depois de “Ave Mundi Luminar” e do EP “Mysterium”, é o típico objecto que é fácil denegrir, sob as acusações de “pretensiosismo” e de acomodação a uma leitura simplificada da música clássica.
Seria fácil classificar “Theatrum” como a mera procura do bonito e do politicamente correcto, com base em referências que vão de Michael Nyman a Mozart e Górecki. Ao invés, estamos perante algo mais do que simples teatro. Ao contrário de “Ave Mundi Luminar”, onde é por demais óbvia a sedução que a lógica das estruturas formais exerceu sobre Rodrigo Leão, em “Theatrum” percebe-se um arrebatamento e uma interiorização das formas “eruditas” que colocam a sua música acima, ou para além, da descodificação imediata das formas.
A teatralização aqui é da ordem do drama, ou da tragédia, no sentido clássico grego, e de pulsações cuidadosamente revertidas para uma linguagem que se assume como liturgia. Com o Voz Ensemble e a ajuda do coro Ricercare juntou Rodrigo Leão uma tapeçaria de tristeza onde as formas clássicas se fundem com a artilharia gótico-industrial de uns In The Nursery (“Locus secretus”) e a computação tecnológica, aspecto no qual o seu trabalho se revela particularmente notável, seja na sequenciação dos “samples” percussivos ou ambientais, seja na simulação de mil e um arcaísmos, de que são exemplos os excelentes “Dies irae”, “O corredor” e “Contra mundum”.
“Theatrum” despede-se e celebra o luto de uma música, a pop, em agonia. Ou de algo mais, na lamentação final, cantada em russo – “O novo mundo” – tal como no início, “In memoriam”, a bailar no som de sinos que sabemos serem os da loucura…



Nuno Rebelo – “M2”

POP ROCK

9 de Outubro de 1996

NUNO REBELO
M2
(8)
Ed. e Distri. Ananana


nr

Se estivéssemos noutro país qualquer que não Portugal, “M2”, mesmo endereçado a uma minoria educada nos chamados experimentalismos, venderia um número confortável de exemplares, permitindo ao seu autor a prossecução de uma via musical autónoma, independentemente de esta se revelar mais ou menos “difícil” aos ouvidos profanos. Mas vivemos nesta santa terrinha e, por cá, as coisas não se passam assim. Chris Cutler já ouviu “M2” e teceu sobre ele os maiores elogios. Até que ponto, porém, é que o mercado nacional está pronto para receber objectos deste género? Porque “M2” merece ir tão longe quanto o soubermos aceitar.
Dividido em duas partes distintas, a primeira, “Sábado 2”, executada em tempo real, é a resposta musical a uma coreografia de Paulo Ribeiro, em que a acção se reparte entre as desconstruções da guitarra de Rebelo, na melhor tradição dos “Guitar Solos” de Fred Frith, e as deambulações do saxofone de Paulo Curado. Cruzamentos “Recommended”, falsas partidas e chegadas, a descoberta constante do improviso estruturado, “Sábado 2” faz o elogio da liberdade e do gozo de tocar. Referência obrigatória: Paulo Curado, pelas coordenadas estéticas em que o seu discurso se insere e pela naturalidade com que as põe em prática, ocupa hoje um lugar ao lado dos maiores no panorama das novas músicas da Europa.
“Minimal Show”, por outro lado, desenvolve algumas das vias iniciadas em “Sagração do Mês de Maio”, explorando em profundidade os processos composicionais em computador. Sem pôr de lado a vertente lúdica que caracteriza a sua aproximação ao acto musical no seu todo, é aqui que Nuno Rebelo encontra os seus brinquedos preferidos. Há balizas e pontes de contacto. Em “Um, dois” e “Três”, a sobreposição das vozes que repetem números em várias línguas diferentes constitui referência óbvia a “Numbers”, dos Kraftwerk, do álbum “Computer World”. Noutras ocasiões, os circuitos de Rebelo ocupam momentaneamente os mesmos lugares sonoros de um Elliott Sharp (de “Virtual Stance”) ou de Holger Hiller (na sobreposição barroca das samplagens). Mas “M2” é algo mais do que a simples soma das partes, escapando à frigidez esquemática e aos automatismos da “system music”, jogando Nuno Rebelo, dentro da sua lógica pessoal, na recriação dos timbres e na montagem de pormenores (sereias, cucos, mecanismos de relojoaria, “trompe l’oeil” vários) que se encaixam uns nos outros como uma construção de Lego. A descobrir e decifrar muitas vezes.