Arquivo mensal: Julho 2016

Dulce Pontes – “Caminhos”

POP ROCK

20 de Novembro de 1996
portugueses

Dulce Pontes
Caminhos

ED. E DISTRI. MOVIEPLAY


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Tantos caminhos para uma só voz. Dulce Pontes escolheu partir em direcção ao desconhecido, arriscando expor-se onde outros considerariam a hipótese de consolidação de um estilo. O estilo de Dulce Pontes é cantar, simplesmente. Se em “Lágrimas”, o álbum anterior, acolhia e traduzia os mundos antagónicos de José Afonso e Amália Rodrigues, neste seu novo trabalho as referências diversificaram-se num leque que pretende mostrar a essência de uma world music em português, na confluência do fado, do folclore e da música popular de autor. World music porque a produção aponta inequivocamente para um som internacional, não diremos a pensar só na exportação, mas com toda a probabilidade, atenta a ouvidos que a maior agressividade do mercado português além-fronteiras despertou.
“Caminhos” é essa vontade de explorar sonoridades e atitudes que vão da vocalização de “Verdes anos”, ao fado tradicional de “Fado português” e “Gaivota” e à Galiza, em “Lela”, o tal tema com produção “irlandesa” de Paddy Moloney e um dos que conta com o talento instrumental do prodigioso Carlos Nuñez. Que vão do enquadramento orquestral ao naturalismo “a capella” de “Senhora do Almortão” para encontrarem um novo equilíbrio na interpretação de duas canções saídas do universo pessoalíssimo do açoriano Zeca Medeiros, uma das quais, “Cantiga da terra”, temos como um dos expoentes, na matéria e no espírito, do que chamamos “nova tradição portuguesa”. Mas também há fado-tango, passagens pelo Alentejo e por Cabo Verde e José Afonso, de novo revisitado, em “Catedral de Lisboa”. Caminhos que, numa futura etapa, poderão levar Dulce Pontes a uma encruzilhada. (7)



Maria João – “Fábula”

POP ROCK

13 de Novembro de 1996
portugueses

Maria João
Fábula

VERVE, DISTRI. POLYGRAM


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Domesticaram Maria João. “Fábula” é a Maria João do canto deslizante, alinhado com as palavras, obediente à moral, não a Maria João alpinista nem a Maria João escafandrista. É a Mariazinha. A voz está sinalizada: não subir nem descer mais do que o necessário. Evitar os extremos. Não chocar. Assim, a voz faz de coisa fofinha, com caprichos e beicinho. A mesma vozinha que encantou a meninada no projecto “Bom Dia Benjamim” mas desilude quem já se habituou a ouvir e a sentir Maria João cantar debaixo do vulcão. Contam-se histórias sem se contar a raiz. “Fábula”, o tema de abertura, ainda a mostra vestida com a farda de exploradora, embora por selvas já desbravadas. Contado esse rosário, as contas passam a fazer-se de cabeça, com o coração deixando-se ir atrás, cheio de preguiça. Parece um doce ECM (entre os convidados estão Ralph Towner e Dino Saluzz) como parece o discurso brasileiro, de Egberto Gismonti, de “Água e Vinho”, em “Cor de rosa”, e de Marisa Monte, em “A bela e a fera”. É bonito, mas, para quem gosta de Maria João, a outra, e não a dispensa, são 78 minutos que por vezes custam a passar. (6)



Isabel Silvestre – “A Portuguesa”

POP ROCK

13 de Novembro de 1996
portugueses

Miraculosa Rainha dos Céus

ISABEL SILVESTRE
A Portuguesa (8)

Ed. EMI-VC


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A estreia a solo da solista do Grupo de Cantares de Manhouce vem colocar algumas questões engraçadas à música popular portuguesa. A começar pela própria “desvirtuação”, ou inversão do termo. Quando Isabel Silvestre canta autores urbanos como Rui Veloso, José Mário Branco ou João Gil, com a pronúncia carregada do Norte e a inocência de quem (ainda) vive longe do caos, o que estamos a ouvir é a génese de uma outra música tradicional ou o sortilégio de um encontro do acaso? Quando o hino republicano é cantado como se fosse uma oração, com os canhões trocados pela prece de uma oração e o gemer de uma sanfona, a que mutação assistimos? Como reagir quando “A Portuguesa”, de gritaria republicana, se transmuta em suave invocação monárquica?
Isabel Silvestre será provavelmente alheia a este género de teorizações, sendo suas “apenas” a voz e a pureza de alma que pôs em cada interpretação. Dirija-se então o questionário ao produtor João Gil, decerto consciente dos efeitos de perplexidade que “A Portuguesa” irá provocar. Tradicionais, dos genuínos, há apenas “Miraculosa Rainha dos Céus”, “E lá vem o Maio” (cantado “a capella”), “Santa Combinha” e “Muito lindo é o céu”. Os restantes temas pertencem a António Variações, João Gil, José Mário Branco, José Afonso, Rui Veloso, José Niza e ao brasileiro Luiz Gonzaga, com o clássico “Asa branca”. A todos eles Isabel Silvestre concedeu o dom da transmutação porque a todos eles se entregou sem qualquer tipo de reservas. E se as melodias ganham em singeleza e em diferença (veja-se o caso de “Asa branca”, tornada cadência transmontana, num arranjo que acaba dominada pela caixa e gaita-de-foles) – com a participação discreta da sanfona de Carlos Guerreiro, o violino de Manuel Rocha, a braguesa, bandolim e cavaquinho de José Barros, as percussões de João Nuno Represas, o acordeão e gaita-de-foles de Ricardo Dias e a guitarra acústica de João Gil -, é ainda no modo como as palavras se iluminam na voz da cantora beiroa que “A Portuguesa” se revela um objecto fascinante.
“A ronda do soldadinho”, de José Mário Branco, ou o “Cantar de emigração”, da poetisa galega Rosália de Castro, são dois dos exemplos maiores aos quais a voz confere uma mais-valia aos originais. E se a abertura, “Deolinda de Jesus”, de António Variações, é a única ocasião onde a ligação letra-voz ronda perigosamente o “kitsch”, logo a seguir, essa ligação é redimida em “A gente não lê”, momento verdadeiramente sublime de “A Portuguesa”. Aqui é o Portugal mais profundo, da grande solidão da ilha açoriana que se dá a ouvir. Aqui são a música de Rui Veloso e as palavras de Carlos Tê que tiveram o privilégio de encontrar a interpretação ideal. Aqui é a erupção de tudo o que já esquecêramos do que somos: “Ai Senhor das Furnas/ que escuro vai dentro de nós/ rezar o terço ao fim da tarde/ só para espantar a solidão/ e rogar a Deus que nos guarde/ confiar-lhe o destino na mão/ Que adianta saber as marés/ os frutos e as sementeiras/ tratar por tu os ofícios/ entender o suão e os animais/ falar o dialecto da terra/ conhecer-lhe o corpo pelos sinais/ E do resto entender mal/ soletrar, assinar em cruz/ não ver os vultos furtivos/ que nos tramam por trás da luz (…) Fica-se sentado à soleira/ a ouvir os ruídos do mundo/ e a entendê-los à nossa maneira (…) Carregar a superstição/ de ser pequeno, ser ninguém/ mas não quebrar a tradição.”
Perdoem-nos tão longa citação. Mas é porque poucas vezes um texto potenciou tanto a sua intensidade dramática. Um milagre. Para ouvir sempre. Com devoção.