Arquivo mensal: Abril 2015

Talk Talk – “Laughing Stock”

Pop Rock

 

20 NOVEMBRO 1991

 

CONVERSA FIADA

 

TALK TALK

Laughing Stock

LP/CD, Verve, ed. Polygram

talktalk

Eles esforçam-se, mas não conseguem. Os Talk Talk dão tudo por tudo para ganhar a credibilidade de “banda adulta” que deixou para trás as preocupações comerciais. Na época das preocupações comerciais, a banda de Mark Hollis assinou êxitos razoáveis, como “Talk Talk” e “It’s A Shame”. Já nessa altura os Talk Talk provocavam vómitos e desejos inconfessáveis de destruição vinílica. Por exemplo: a voz. Uma voz capaz de levar qualquer cidadão de bem ao desespero e à camisa de forças. Uma monstruosidade tímbrica que procura com toda a força do desespero e da impotência soar como a de Bryan Ferry.

Tudo isto seria subjectivo e de pouca importância, não fora o descabido pretensiosismo do senhor, levado em “Laughing Stock” ao limite da insuportabilidade.

A noção que os Talk Talk têm de parecer (diferente de ser…) “vanguardistas” é aumentar o tempo de duração das faixas, pôr os instrumentos cada um a tocar para seu lado (o que noutros até pode ser uma virtude…) e criar um ambiente de desolação e melancolia, de maneira a granjear ao vocalista a auréola de “coitado, mais uma vítima da engrenagem rock” ou “génio incompreendido com a cabeça a abarrotar de melodias inspiradas, embora um bocado estranhas”.

De facto, as melodias são estranhas, tão estranhas, de tal forma subtis que nem chegamos a dar por elas.

A audição de “Laughing Stock” pode constituir, contudo, um saudável exercício de autocontrolo. É um disco oriental, na medida em que apela com toda a força para a nossa paciência. A cada faixa esperamos que a introdução instrumental dissonante acabe, para dar lugar à canção. E assim por diante, sempre à espera, sempre acreditando. O disco chega ao fim e continua-se à espera, agora já num estado próximo do estupor. Talvez faltasse a concentração. Cheios de boa vontade recomeçamos. Agora, com a repetição, a audição torna-se penosa, na busca desesperada de um pormenor que tivesse passado despercebido, merecedor de um elogio. Por fim, conclui-se de que não chega a haver um único pormenor que justificasse sequer a gravação do disco.

Mark Hollis arrasta-se (é o termo exacto) nas vocalizações à espera do arranjo salvador que nunca acontece. As guitarras e o órgão são anémicos. Procuram abrigo numa pseudo-serenidade classicista, na pose distante de “artistas” que tentam “dar dignidade” à pop. Não faltam então os naipes de cordas (há coisa mais digna em música do que um naipe de cordas?), uma trompete (há coisa mais digna que uma trompete?) e um clarinete contrabaixo (contrabaixo! Há coisa mais digna que um clarinete contrabaixo?).

“Laughing Stock” mostra os Talk Talk perdidos num beco sem saída. Seguem por uma estrada que não vai dar a lado nenhum. O que até não seria tão grave se demonstrassem uma pontinha de humor ou, no mínimo, de bom-gosto. Duas coisas que nunca foram o seu forte. Mas nós temos de aturar as suas manias. Nunca será de mais repeti-lo: “E não se pode exterminá-los?” (3)

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Enya – “Shepherds Moon”

Pop Rock

 

20 NOVEMBRO 1991

 

ENYA

Shepherds Moon

LP/MC/CD, WEA, distri. Warner port.

enya

Como é bom viver num mundo assim! O mundo de Enya é um mundo de fadas (ela própria deve ter asinhas) oculto entre as brumas de Avalon. Enya canta com voz de anjo, coros celestiais, arco-íris de bons sentimentos, algodão-doce para saborear nos momentos agradáveis da vida. O dia é cinzento, Enya é azul e dourado. “Shepherds Moon” não é muito diferente de “Watermark”, o seu antecessor: melodias etéreas, a mesma linguagem inspirada na mitologia celta, onde não falta sequer desta vez um título como “Lothlorien” e, em “Smaointe”, cantado em gaélico, um solo de gaita-de-foles de Lyam O’Flynn, dos Planxty.

Faz pena ver uma voz como a de Enya, plena de potencialidades para o canto tradicional, perder-se entre tanta futilidade. “Shepherds Moon” é um disco bonitinho, não conseguindo nunca ultrapassar a beleza de superfície, desinteressado das raízes profundas que, afinal, lhe servem de inspiração. Enya, como a fada Sininho, sobrevoa a “Terra do Nunca”, sem mácula de dor nem de pecado. É bom viver num mundo assim! (5)



Genesis – “We Can’t Dance”

Pop Rock

 

13 NOVEMBRO 1991

LP’S

 

A FORÇA DA INÉRCIA

 

GENESIS

We Can’t Dance

2xLP/MC/CD, Virgin, ed. Edisom

genesis

“Trabalhamos tão bem uns com os outros que quando nos voltamos a juntar parece que não se passou assim tanto tempo.” As palavras são de Phil Collins e servem na perfeição para definir uma atitude. Com efeito, para os Genesis – Phil Collins, Mike Rutherford e Tony Banks – não deve ter passado mesmo tempo nenhum. Para nós é que passou um bocado. Mais precisamente cinco anos, desde que gravaram o último disco de originais, “Invisible Touch”. “Desta vez estávamos um bocado enferrujados, mas não foi preciso muito tempo para voltarmos ao normal”, é normal que o digam. A “normalidade” em causa já os leitores a adivinham, caso se tenham dado ao trabalho de ouvir a obra anterior do grupo. Só para os outros o som será surpresa.

As canções são longas, chegando aos dez minutos, em média três por lado, de maneira a dar tempo ao tempo, a ver se acontece alguma coisa. Geralmente não acontece. A estrutura de cada tema surgiu a partir de improvisações em estúdio. O que significa que, na prática, foram tocando até aparecer um esboço qualquer parecido com uma canção. Ou, como diz Rutherford: “Começa-se a tocar e do caos acaba por surgir uma estrutura forte.” É uma força de expressão. Ou a força da inércia. Lá que a estrutura surgiu, surgiu. Digamos que com a força das grandes inutilidades, das que, na forma de disco, servem para atafulhar as prateleiras dos supermercados e fazem as delícias das nossas estações de rádio, tão apreciadoras de música a metro. Então este, pródigo em temas com a duração de “vou ali e já volto” que até dão tempo para lanchar.

Pois é, os Genesis já deram o que tinham a dar. Para sermos precisos, desde que Peter Gabriel resolveu abandonar o barco. Claro que as massas têm opinião diferente. “We Can’t Dance” até não é uma má opção para estrear o leitor de CD novo. Está bem gravado, as canções são agradáveis, sobretudo os primeiros cinco segundos de cada uma, e a capa é um mimo de cor e de bom gosto. Para falar com franqueza é mesmo o melhor: uma aguarela em tons pastel sobre um fundo creme repescado de “Selling England by the Pound” (bons gtempos…), e os dois sacos interiores cheios de figurinhas ilustrativas de cada tema, de novo a puxar a memória até aos tempos áureos em que o arcanjo ainda era militante da causa.

De resto, para além do título-tema que, vá lá, com um bocado de boa vontade não repugna chamar um “blues à Genesis”, como sugere a promoção, é curioso que o melhor momento de “We Can’t Dance” seja precisamente aquele em que Phil Collins não tem qualquer pejo em imitar de forma descarada o estilo vocalista, em “Dreaming while you sleep”. Escute-se a maneira como acentua as sílabas do verso “I never saw her step into the street” e compare-se. Até a base rítmica é parecida. E Phil Collins que tanto trabalho tivera para se livrar do estigma… Não faz mal, os mais novos, o público que hoje dá de comer à banda decerto já não se lembra… os Genesis, quando querem, até sabem ser “esquisitos” e “originais”. “Ó Isilda, põe pá frente questa é da treta!” – será o comentário ouvido em muitos lares.

Pese embora esta pequena traição ao consumismo, “We Can’t Dance” destina-se a fazer a felicidade de muitas famílias portuguesas. Para tal não lhe falta nada: a voz bem curtida e ginasticada por anos de “aerábica” “live aid” de Phil Collins (que em “Tell me why” não se esquece de inventariar um pacote sortido de injustiças sociais, nem de soltar, muito a propósito, um “porquê” angustiado), as cordas airosas de Rutherford, bem atiradas para a frente pelo produtor de serviço, sem esquecer as teclas por norma discretas, nalguns casos mesmo distraídas, de Tony Banks.

Passando em revista tudo o que foi dito, resta acrescentar que “We Can’t Dance” tem todas as condições para chegar ao topo dos tops. O resto é conversa. (5)

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