Arquivo mensal: Abril 2015

Paco De Lucia – “Zyryab”

Pop Rock

 

17 ABRIL 1991

 

Paco de Lucia

Zyryab

LP/MC e CD, Philips, distri. Polygram

PdL

Ao lado de Manitas de Plata, Paco de Lucia faz papel de grande embaixador do flamenco no mundo. Ao contrário de Manitas ou do menos conhecido (mas não menos importante) Pepe Habichuela, conservadores na atitude e no estilo, Paco de Lucia investe em áreas que só indirectamente têm a ver com a música cigana, como o jazz ou a canção de tons ligeiros (quem nunca trauteou “solo quiero caminar”?. Com John McLaughlin (com quem partilha um estilo particular de fraseado) e Al Di Meola, gravou um álbum exclusivamente dedicado às possibilidades da guitarra. “Zyryab” revela-se eclético no modo como aborda as típicas bulerias, tarantas, rumbas ou fandangos ciganos, através de uma liberdade formal que não receia juntar o discurso ortodoxo do flamenco às divagações jazz-rock ou a incursões mais marcadamente arabizantes, como acontece no título-tema “Zyryab”, valorizado ainda mais pela participação pianística de Chick Corea. ****

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Vários – “Brazil Classics 3” + Margareth De Menezes – “Elegibo”

Pop Rock

 

3 ABRIL 1991

LP’S

 

O NORDESTE EM CHAMAS

 

VÁRIOS

Brazil Classics 3

LP / CD, Sire, distri. Warner port.

 

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MARGARETH DE MENEZES

Elegibo

LP / CD, Polydor, distri. Polygram

 
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Pontes entre a terra-mãe e o céu. Passado e futuro. Ponto de encontro da África, Brasil e o resto de mundo. Duas gerações que se olham e se cruzam, no canto maravilhoso do Baião, no frenesim incendiado do forró, do acordeão e das festas Juninas de Luís Gonzaga, Dominguinhos, Gonzaguinha e Jackson do Pandeiro ao universalismo e sensualidade baiana de Margareth de Menezes, a mesma que “roubou” o “show” a David Byrne durante a “tournée” de “Rei Momo”.

Em Margareth de Menezes, David Byrne uma das grandes e mais promissoras vozes da música popular brasileira. “Brazil Classics 3” recupera e homenageia a música dos mestres. Byrne, vem nos compêndios, perdeu-se de amores pelo Brasil. Por lá ficaram a sua música e a sua alma. Se “Rei Momo” juntava a visão nova-iorquina heterodoxa do vocalista dos Talking Heads ao universo imenso e luxuriante dos ritmos sul-americanos, a colectânea “Brazil Classics” mergulha nas raízes e na essência do Brasil negro e mágico, do afoxé e do samba, das favelas e da selva, do Nordeste e do Candomblé, do sofrimento e alegria das gentes do sertão, na voz e canções encantadas de alguns dos seus expoentes.

“Brazil Classics” é música de festa, de ritmos e melodias nordestinos, sintetizados no forró, termo que se diz ter origem, por volta de 1900, nas danças populares organizadas por engenheiros ingleses encarregados de construir o sistema ferroviário daquela região e destinadas a todos os trabalhadores (“forró” seria assim um equivalente fonético de “for all”…). David Byrne chama-lhe “mistura de ska e polca em velocidade acelerada”. Acordeão, triângulo e “zabumba” (tambor baixo) formam a necessária e tradicional combinação instrumental a que formas híbridas posteriores (nomeadamente as infusões funk ou a fusão com o rock, ou fo-rock) acrescentaram os metais, violinos e electricidade.

Luís Gonzaga, falecido há dois anos, o homem dos chapéus enormes e fatos espampanantes (só isso já lhe valeria a admiração de Byrne…), abre magistralmente o disco com “O fole roncou”, forró/xaxado inebriante que canta o amor em volta do fogo, naquele registo único que casa as vertentes pagã e cristã da alma brasileira. Gal Costa, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Anastácia, Nando Cordel e Amelinha, Gonzaguinha, Clemilda, Jorge do Altinho, Genival Lacerda, o Trio Nordestino e Elba Ramalho completam a lista de nomes presentes. Qualquer tema chega para para se compreender e, sobretudo, sentir onde se encontra o Brasil autêntico, do fundo, muito longe, séculos antes e depois, do vazio das telenovelas e do romantismo serôdio do ídolo de pés de barro, Roberto Carlos.

Frevos, arrasta-pés, sambas, aboio-toadas – danças que duram toda a noite até de madrugada. Vozes que cantam até a morte da depor, com um beijo, diante dos anjos. Impossível conter um frémito de emoção quando se ouve o “Querubim” de Dominguinhos ou Luís Gonzaga cantar em dueto com Elba Ramalho “Sanfoninha choradiera”. Cantares de centro que queimam de prazer. Alegria que, de tão triste, faz doer.

Com Margareth de Menezes, o Brasil muda de figura. Tornada mundialmente conhecida graças às actuações com que abriu o recente “show” de David Byrne, a cantora junta numa mistura explosiva o reggae, o forró, o funk-samba, a lambada e o afoxé eléctrico com a electrónica, uma voz e corpo de uma sensualidade que enlouqueceu a Europa e uma espiritualidade entroncada na genuína tradição religiosa da Baía.

Evidente a influência africana no modo como a música se exterioriza através das pulsões corporais e da dança (conta quem viu que Margareth a dançar é como um vulcão em actividade). Tropicalismo apoteótico. Energia em estado puro. Diz que, quando canta, “tudo se transforma em energia”. Como um sol.

“Negra melodia”, reggae inspirado directamente em Bob Marley (a quem o compositor Jards Macalé ensinou por sua vez o samba), já anteriormente recuperado por Gilberto Gil; o delírio funky de “Tudo à toa”; a lambada sensual de “Abra a boca e feche os olhos” (atenção arcebispo!); a balada em tons “bluesy” “Maravilha morena” (cuja letra evoca, na musicalidade e jogos que entre si disputam as palavras, os feitiços de Caetano Veloso) ou os ascéticos “Ifá, um canto para subir”, baseado nos rituais do Candomblé (juntamente com “Abra a boca”, os dois temas recuperados da “tournée” “Rei Momo”), e “Hino das águas” são alguns bons exemplos da arte maior de Margareth de Menezes, de resto unanimemente reconhecida pelos consagrados. “Ellegibo” vem de novo, e de forma brilhante, recordar que o mundo existe também para além do Atlântico, em redor do Equador. Muita da música do planeta nasceu e nasce aí.

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Obradoiro, ou Grupo Didáctico-Musical do Obradoiro, Escola de Instrumentos Populares Galegos da Universidade Popular de Vigo – “Instrumentos Musicais Populares Galegos”

Pop Rock

 

13 NOVEMBRO 1991

 

O OIRO DOS ALQUIMISTAS

 

Caiu do céu. Do alto, do Norte. Da Galiza verde de oceano e sol onde aportam os peregrinos do sonho: Obradoiro obra de oiro. Obra de amor. À terra, à música e aos seus instrumentos. Ao povo galego, à sua cultura e tradições, aos seus gestos e modos de ser. Na forma de uma caixa com discos, imagens e lições: “Instrumentos Musicais Populares Galegos”, obra fascinante que traça o perfil global da música e dos instrumentos tradicionais galegos. Um exemplo a seguir.

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A obra em questão é fruto do trabalho e da dedicação do Grupo Didáctico-Musical do Obradoiro, Escola de Instrumentos Populares Galegos da Universidade Popular de Vigo. Especialistas na construção de “gaitas” e sanfonas, os diversos membros do Obradoiro são, para além disso, excelentes executantes, o que lhes permite desenvolver, a vários níveis, um notável trabalho de divulgação da música galega, sem paralelo no resto da Europa. Da caixa em questão fazem parte três discos, um livro de 32 páginas reunindo informação preciosa, apresentada de forma atraente e acessível (por exemplo, o desenho e a localização de todos os tipos de gaita-de-foles actualmente existentes na Europa), e uma colecção de 20 “slides” alusivos ao fabrico dos diversos instrumentos.

Para além da importância musical propriamente dita, “Instrumentos Musicais Populares Galegos” constitui material áudio-visual didáctico de excepção. Ao prazer da audição junta-se assim o da aprendizagem. Considerando que em Portugal pouco se cuida da música e da cultura popular genuínas, sugere-se aos conselhos directivos das nossas escolas (não falamos sequer já das entidades oficiais que se deveriam preocupar e estar atentas a estas questões…) a aquisição de um exemplar.

O grupo/escola Obradoiro funciona na Universidade Popular de Vigo, instituição gratuita, de carácter aberto, dependente do sector de cultura do concelho daquela cidade. Entre os seus objectivos contam-se a formação de novos artesãos, visando um constante aperfeiçoamento das técnicas de fabrico dos instrumentos tradicionais, bem como a investigação, recuperação e conservação dos mesmos, de modo a conseguir a permanente revitalização do património tradicional popular.

 

“Alborada” das gaitas

 

De acordo com os Obradoiro, o fenómeno cultural passa pela compreensão e actualização das raízes culturais. (Deveria ser sempre assim e em toda a parte. Infelizmente há quem pense de maneira contrária e prefira apostar nas técnicas de mumificação…) “A evolução da cultura popular, do folclore, dependem, em grande medida, das experiências actuais que, baseadas na tradição, deverão ser rejeitadas ou aceites e posteriormente incorporadas à bagagem cultural do país.”

Assim se constrói o tempo e o templo. Assim se acorda em espiral infinita o sangue e o oiro da fraternidade celta. Parte-se da terra para se chegar ao céu. Via láctea, estrela e bordão dos caminhantes, que em si próprios e no mundo demandam a obra e a coroação. Obradoiro – Obra de oiro. Centro solar da cruz, etapa derradeira e primeira do percurso alquímico. Núpcias do espírito e da alma. O cavaleiro doma a montada. Vencido o dragão, com um beijo se liberta a princesa cativa. Rosa catedral.

A banda de gaiteiros Xarabal (uma das ramificações dos Obradoiro, dirigida por um dos seus membros, Antón Corral), que integra Ricardo Portela (gaiteiro da velha geração), Wenceslau Cabezas “Polo”, Blanca Nieves Lorenzo, Xosé V. Ferreiros e Fernando Aguiar, constitui o lote de intérpretes convidados que, juntamente com os nove elementos do Obradoiro, fazem desta obra uma quase bíblia da música galega e das suas técnicas instrumentais.

No disco um, o aspecto didáctico é reforçado pelas introduções explicativas em que são referidas e exemplificadas a gama, a escala e, no caso da sanfona e da gaita-de-foles, o próprio modo de afinação dos instrumentos: o “pito” (flauta de bisel pastoril), a requinta (flauta transversal em osso ou madeira de sabugueiro) e as já citadas “gaita” e sanfona.

Da lista total de instrumentos utilizados constam ainda as percussões (tamboril, pandeiro, terranholas, bombo, conchas, charrasco), a cromorna, o “organistrum” (espécie de sanfona “gigante”, tocada por dois executantes, cuja origem se perde nas brumas da lenda e que aparece esculpida num dos pórticos da Catedral de Santiago de Compostela), o acordeão, o violoncelo, a espineta, o piano e, num par de temas, o sintetizador.

Destaque neste primeiro disco, que funciona um pouco como introdução às várias especificidades da música galega, para a grande vaga apolínea das gaitas-de-foles na “Alborada da lanzada”, apelo uníssono à alegria do corpo e ao despertar dos sentidos.

 

Das muiñeiras a Vivaldi

 

Passando ao disco dois, o neófito, já suficientemente familiarizado com as toadas e profundezas da alma musical galega, pode deliciar-se com as “muiñeiras” de Coia e Pontesampaio, com o “Fandango muradán”, ou com os originais de Xosé Romero Suaréz e Antón Corral – “A camponesa” e “Romance de Herveira”. Maravilhosa a longa “suite” “Fantasia para ‘gaita’ e piano”, manifestação mágica das imensas potencialidades deste instrumento ancestral (na Galiza, sujeito a um trabalho de constante pesquisa, na procura de novas possibilidades e afinações), mesmo, como é o caso, quando transportado para um contexto próximo da música de câmara.

Sobressaltos anímicos alternam com momentos de pacificação interior no terceiro e último disco. Aos instrumentos populares, e ao seu especial modo de fazer vibrar em nós impressões de longe e tão perto, acrescenta-se a emancipação erudita da requinta, numa gavota retirada da sonata para flauta e baixo contínuo de J. B. Loeillet, da sanfona e do “pito”, respectivamente no “affectuoso” e “allegro ma non presto” incluídas nas sonatas nº 1 e 6, de “Il Pastor Fido”, de Antonio Vivaldi.

Dança apropriada pelo diabo na vertigem rodopiante dos salões palacianos, a valsa surge, em “Lembrando” e “Carmela”, telúrica e ventosa, levando-nos consigo, nas últimas faixas de cada lado do disco, até à dignidade aprumada da banda de “gaitas” Xarabal no “Himno galego”, de Pascual Veiga, e à “Muiñeira de Freixido”, que nos agarra o espírito para nos mostrar o segredo, simples e esquecido: o abraço fraterno entre Deus, o homem e a terra. O indivíduo ligado por elos naturais ao cosmos e ao seu semelhante. Numa roda de dança, à noite, sob as estrelas, por entre espigas e cantares. Os corações num tumulto sossegado em volta da fogueira. Bailando juntos. Os pés na terra. A cabeça no céu.