Arquivo mensal: Abril 2015

Heróis do Mar – Levantai Hoje De Novo O Esplendor De Portugal

Pop Rock

8 JULHO 1992

LEVANTAI HOJE DE NOVO O ESPLENDOR DE PORTUGAL

Cerraram fileiras à volta de um sonho. Defendiam e defendem a ideia – e o acto – de um Portugal maior que se confunda com o mundo inteiro. Os três, no tempo e fora dele, foram, cada um à sua maneira, heróis do mar. Paulo Borges, Miguel Esteves Cardoso e António Emiliano recordam os tempos da conspiração. Saudade do Futuro.

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Qual a importância que tiveram os Heróis do Mar, enquanto ideia e enquanto grupo musical, na música popular portuguesa? Que mania era essa de transformar a tradição em revolução? Que mensagens se escondiam em canções como “Saudade”, “Amor” e “Paixão”? Paulo Borges, filósofo, poeta e professor, Miguel Esteves Cardoso, cronista e director-adjunto do semanário “O Independente”, e António Emiliano, músico, são unânimes: Os Heróis foram percursores de qualquer coisa de grande e de novo na música portuguesa. O mar, esse continua expectante e por navegar. Com uma ilha a centro onde Portugal inteiro há-de aportar.

Pop à portuguesa

Enquanto banda pop, para António Emiliano, autor de “Gavoreth” e de várias bandas sonoras, actualmente envolvido na composição de música ambiental, “os Heróis do Mar surgiram num momento-chave da música e da cultura portuguesa”, numa altura em que “na pop pontificava uma deslumbrada e mal digerida subserviência a modelos anglo-saxónicos”.
“Deram expressão, com uma estética moderna, dirigida às gerações mais novas, ao espírito épico-cavaleiresco e lírico da portugalidade, numa altura, em 1981, em que invocar os valores da nossa tradição cultural era arriscar, como aconteceu, a ser-se confundido com um nacionalismo reaccionário” – corrobora Paulo Borges, cujo último livro de poesia, “Ronda da Folia Adamantina”, acaba de ser publicado e para quem “os Heróis do Mar foram uma lufada de ar fresco, precursora não só do mais superficial estar na moda mas também da redescoberta do Portugal profundo que em muitos domínios culturais desde então se vem procurando”. Miguel Esteves Cardoso faz a síntese numa “história instantânea”: “Os Heróis do Mar não podiam ter tido importância. Juntaram a música portuguesa à música pop e a Portugal”, algo que, na opinião do autor de “A Causa das Coisas”, nunca tinha sido feito. Nem ao mesmo tempo nem com tanto talento”.

Cúmplices

Como aconteceu o envolvimento de cada um deles com o projecto? Uma questão de amizade. Ou de ideologia. Talvez por simpatia. “O Pedro Ayres é, cada vez mais, um grande amigo meu” – assegura o director da “K” – “conheci-o como fã dos Heróis do Mar. mais tarde tornei-me colega, sócio e correligionário”. Mais activo foi o papel desempenhado por Paulo Borges na génese dos Heróis do Mar. A sua amizade com Pedro Ayres e Paulo Gonçalves remonta a 1978, quando eram “cúmplices num projecto de desinquietação geral e antitudo que teve expressão musical na banda de rock’n’roll punk Faíscas, e expressão literária no fanzine “Estado de Sítio”. Impulsionados pela “energia niilista da descida aos infernos”, a mesma que animava a banda “Minas & Armadilhas”, de que Paulo Borges fez parte antes de leccionar Filosofia em Portugal na Universidade Clássica de Lisboa, e da “visão iniciática do que é eterno”. Visão que o levou, juntamente com Pedro Ayres, a conceber um grupo musical “que exprimisse o sonho português de infinito e de universalidade, fundindo o rock’n’roll com sonoridades mais arcaicas e assumindo os espectáculos como celebrações mágico-rituais”.
Paulo Borges escreveu com Pedro Ayres, parte das letras para as primeiras canções dos Heróis do Mar, letras que, “na sua pureza e radicalidade, viriam a ser contestadas pelos restantes músicos”. Ficou a cumplicidade com o Pedro, na aspiração comum a um Portugal e a um mundo mais autênticos”, e alguns versos do tema “Amantes furiosos”.
Já com António Emiliano, em período de pausa após a composição de música para os bailados “Treze Gestos de um Corpo” e “Cavaleiros da Noite”, de Olga Roriz, o filme “Ao Fim da Noite”, de Joaquim Leitão, e a ópera “Amor de Perdição”, a aproximação aos Heróis do Mar processou-se pelo lado das ideias, numa “relação de cumplicidade táctica e tácita, de partilha muda de valores, a que não foi alheio o surgimento do ‘AXO’ e da ‘Liga do Encoberto’.”

Novos descobridores

Consumada a queda e “a total descaracterização” da banda, provocada, segundo Paulo Borges, pela “cedência aos gostos do grande público e às exigência do mercado discográfico, patente sobretudo depois dos dois primeiros álbuns [“Heróis do Mar”, “Mãe”]”, resta procurar os novos heróis, continuadores da saga, prosseguida em novos mares.
Não tem dúvidas António Emiliano: “a música portuguesa tem ainda que dobrar o seu Cabo das Tormentas e inventar os seus heróis – os que, pela música, se integram numa cadeia ininterrupta de seres que garantam a sobrevivência de Portugal, apesar do advento de catástrofes modernas como o constitucionalismo, o parlamentarismo, a república, a democracia e a CE”. É que há uma estirpe de “homens e mulheres que lutam, sobrevivem e até morrem para que Portugal não pereça (…) o “Plus Ultra” perene e permanente que faz de Portugal uma nação virada para fora de si própria. Uma nação espiritualmente imperial”. Bom, mas como tal não deve ser possível para já, fiquemo-nos com os Madredeus e a Sétima Legião, “excepções” musicais num “deserto total”.
Miguel Esteves Cardoso é um tradicionalista ferrenho: “Os novos Heróis do Mar são os antigos, seja o génio de Pedro Ayres Magalhães, actualmente incorporado nos grupos Madredeus e Resistência, sejam Paulo Pedro Gonçalves e Rui Cunha no grupo LX-90, seja Carlos Maria Trindade no grupo Polygram”
Acaba-se a filosofar com Paulo Borges, que, citando Pessoa, defende que heróis do mar é “todo aquele que, ‘bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas voltadas para a Europa, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando… (o Infinito)’, saiba dizer com o poeta: “Merda.” E o orgulho: “Eu, da raça dos descobridores, desprezo que seja menos que descobrir um Novo Mundo.” Apesar de ser preciso, avisa Paulo Borges, nessa descoberta, esquecer o “eu” e a “raça”. Heróis, são-no “porque possuídos pelo ‘eros’, de modo a eternamente bailar com as ninfas na Ilha dos Amores, libertos de todos os Adamastores e mares da ilusão de haver finito.” Com tamanha responsabilidade sobre os ombros, não admira que a banda acabasse. Que fazer então? O melhor é seguir o exemplo de Miguel Esteves Cardoso e voltar a ouvir os discos dos Heróis do Mar.

discografia



Ficções – “Aqua”

Pop Rock

25 MARÇO 1992

FICÇÕES MARÍTIMAS

Formaram-se há quatro anos, mas só agora se vai ouvir falar neles com mais força. São os Ficções, uma banda de “fusão” que alia a denominada “estética ECM” às influências étnicas e a uma visão particular do universalismo português. O álbum de estreia sai a 16 de Abril. Chama-se “Aqua” e tem o subtítulo de “No meio do lago da Lua”. Em homenagem aos índios e aos oceanos, de água e pensamento.

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“Aqua” tem nove temas: “Rua da paz”, “Tágide”, “Finisterra”, “Atlântico”, “Aqua”, “Mil e uma noites”, “Kalimba I”, “Quetzalcoatl” e “Gonguê”. O CD tem mais um: “Ondulações”. A primeira coisa em que se repara é no virtuosismo dos músicos. Não admira, se nos fixarmos na sua lista: Rui Luís Pereira (Dudas), nas guitarras e kalimba, Yuri Daniel, no baixo, Alexandre Frazão, na bateria. Os três fazem parte dos Resistência, mas, nota-se à distância, é nestes Ficções que o gozo de tocar é maior. Jorge Reis, que substitui Paulo Curado no saxofone soprano, completa a formação da banda, por enquanto, a este nível, ainda em fase de definição.
Os convidados também ajudam ao som de “alta definição”: Quico e Alexandre Manaia, sintetizadores, Mário Laginha, piano, José Carrapa, guitarra eléctrica, Tomás Pimentel, fliscorne, João Nuno Represas e José Salgueiro, percussão, são mestres dos respectivos instrumentos e contribuam para que “Aqua” ombreie ao lado dos discos de José Peixoto (“El Fad” e “Cal Viva”) como representantes da melhor música instrumental de tendência “fusionista” que se faz hoje em Portugal.
O álbum sairá com o selo Polygram e o dedo de Carlos Maria Trindade, “a única pessoa que se mostrou realmente interessada”, nas palavras do guitarrista Dudas, para quem a reacção das outras editoras deixou bastante a desejar: “Ouviam a maqueta, diziam que era muito bom, muito giro, muito interessante, mas recusaram sempre o projecto.” Mesmo assim, a maior parte das despesas de produção foi custeada pelos próprios membros da banda e por João Pereira Nunes, irmão de Dudas, produtor executivo e grande impulsionador destes Ficções, porque “a editora teve medo de investir”.

O jazz às voltas pelo mundo

Em termos formais, “Aqua” dificilmente esconde a aproximação ao estilo de produções da ECM, a célebre editora da era pós-jazz, chamemos-lhe assim, dirigida por Manfred Eischer. Para Dudas não é assim tão claro: “O que está em causa é o facto de a ECM ser especialista num som de fusão, numa estética que, vinda do jazz ou da música improvisada, integra autores e grupos que praticam uma música mais contemporânea aberta às influências étnicas. O que de certo modo se passa connosco, se bem que o nosso som se integre até talvez mais na chamada ‘world music’.”
Temas como “Mil e uma noites”, “Kalimba I”, “Quetzalcoatl” ou “Gonguê”, os quatro que integram o segundo lado do disco, confirmam esta ideia. O lado A mantém-se mais fiel à linguagem tradicional do jazz, com exposição introdutória, desenvolvimento e solos intermédios, antes de retomar o final de cada tema. O estilo guitarrístico de Steve Tibbetts assoma por vezes em “Aqua”. Dudas, que, entre outros, já tocou com António Variações, Fausto, Rão Kyao, Sérgio Godinho e Mafalda Veiga e que actualmente divide o seu tempo entre os Ficções, os Resistência e o grupo de música antiga La Batalla, não concorda: “Não o ouvi com ouvidos de ouvir, como se costuma dizer.” Prefere citar como referências os nomes de Paco de Lucia, Egberto Gismonti ou John McLaughlin.
Mas mais importante do que todas as referências, é, para o guitarrista dos Ficções, a “coerência” do projecto e uma “estética que tem a ver com a procura de uma linguagem própria, com base nas raízes ibéricas”. Dudas fala, como não podia deixar de ser, em ano de comemorações, nas “descobertas” e num “universo musical que faz de nós, portugueses, um pouco africanos, brasileiros, etc.” No fundo, “um imaginário que ilustra o sincretismo lusíada no mundo”, como se diz no folheto promocional.

Outras águas

Dudas explica e dá exemplos: “Gonguê” parte de um ritmo brasileiro que é o “maracatu”, as “Mil e uma noites” são uma “referência à componente árabe da nossa cultura”, “Finisterra” (“dedicado à Galiza”) tem a ver com a cultura celta, “Kalimba” é uma homenagem a Moçambique, “Tágide” recria o flamenco. Em síntese, trata-se de “viagens musicais que dizem respeito ao nosso universo cultural”, mas “abertos à modernidade”, já que “vivemos, como dizia McLuhan, numa aldeia global”.
“Quetzalcoatl” é outra coisa, a “serpente emplumada” que “faz parte de um outro imaginário, o mexicano”. O mesmo imaginário citado no subtítulo “No meio do lago da lua”, que é a “tradução literal da cidade do México, como os espanhóis a encontraram, situada num lago, uma espécie de Veneza americana”. O tema é uma homenagem aos índios e aborda “o desencontro cultural que houve entre nós, europeus, e as outras culturas”. Diálogos sempre “com o mar presente”, afinal a “mensagem escondida ou, pelo menos, presente de forma não explícita em cada uma das músicas”.
Mensagem à parte, não faltam em “Aqua” bons momentos musicais: as deambulações pianísticas de Mário Laginha pela “Rua da paz”, o fervilhar das cordas de guitarra de Dudas em “Tágide”, numa homenagem às ninfas do Tejo; as percussões portuguesas e um sintetizador mascarado de gaita-de-foles na recriação mais ou menos celta de “Finisterra”; o belíssimo desenvolvimento de Tomás Pimentel no fliscorne, em “Atlântico”; os arabescos orientais do sintetizador de Alexandre Manaia em “Mil e uma noites” ou o jogo cruzado da guitarra eléctrica e da kalimba (o “piano de mão” africano) em “Kalimba I” são apenas alguns exemplos da mestria instrumental evidenciada por todos os participantes ao longo do disco.
O futuro dirá da disponibilidade das gentes consumidoras para embarcar nestas viagens de ficção.

a partir daqui



Milladoiro – “O Berro Seco” + “Galicia De Maeloc”; + The Chieftains – “Celebration”

Pop Rock

13 NOVEMBRO 1991
REEDIÇÕES

MILLADOIRO
O Berro Seco (10)
Galicia de Maeloc (10)

CD, Dial, import. Mundo da Canção

berroseco

galiciamaeloc

THE CHIEFTAINS
Celebration
(10)
CD, RCA, distri. BMG

chieftainsCel

Galiza e Irlanda, fontes inesgotáveis de tradição e de músicas que sobem pelo tempo. Os Milladoiro (termo que designa pequenos amontoados de pedras dispostos ao longo dos caminhos, em dia de romaria, a dar sorte aos caminhantes), núcleo de executantes oriundos da região de Pontevedra e de áreas tão diferentes como a música medieval, o jazz ou as músicas de fusão, dedicam-se ao estudo e à interpretação do folclore galego, “fundindo ritmos e dinâmicas instrumentais e vocais, num processo nunca terminado pois a tradição continua viva e em evolução”. “Foliadas” e “muiñeiras” alternam com danças e canções da Irlanda e da Escócia, centrando a unidade galega na unidade maior do mundo celta.
“O Berro Seco” (gritado em uníssono pelos homens da aldeia, por ordem de Saturnino Cuiñas, lenda viva da Galiza, à saída da missa na capela de San Ciz, paróquia de Cesullas) e “Galicia de Maeloc” ) no séc. V, os celtas bretões arribaram à Galiza, trazendo consigo os seus mitos e costumes, sob o comandado do bispo Maeloc) mostram os Milladoiro na sua melhor forma, correspondente à primeira fase, ancorados às ressonâncias mágicas das gaitas e das sanfonas e a uma sonoridade “medieval” que, anos mais tarde, viria a perder muita da sua força na estilização e nas orquestrações sofisticadas de “Castellum Honesti”.
Dos Chieftains – embaixadores reconhecidos da música tradicional irlandesa –, basta referir que nunca gravaram maus discos (com excepção, talvez, das músicas compostas para documentários televisivos…). “Celebration” constitui, ao lado dos volumes 5, 7 e 10 da série “The Chieftains” e da inspirada homenagem à música bretã, “Celtic Wedding”, um dos melhores trabalhos de sempre da banda mítica formada por Paddy Moloney (gaita-de-foles), Derek Bell (harpa), Seán Keane (violino), o eterno vagabundo Matt Molloy (flauta, que tocou com os Bothy Band, Planxty e De Dannan…) e os mais recentes Martin Fay (violino) e Kevin Conneff (percussão).
“Celebration”, como o nome indica, é uma festa de jigas e “airs”, a que não falta sequer uma “drinking song” e a presença de ilustres convidados: Nancy Griffith – que, em “The Wexford Carol”, troca a country “yankee” pela pureza de um hino de Natal –, Van Morrison (o irlandês de alma negra) e a sua banda, à desgarrada com os Chieftains em “Boffyflow and Spike” e os Milladoiro, precisamente, na celebração final dos 1000 anos da cidade de Dublin – “Millenium celtic suite”, composta por Paddy Moloney, na qual colaboram ainda músicos da Bretanha e tocadores de gaitas-de-foles escocesa e da Northumbria. Só temos que erguer o copo e brindar.

celebration

milladoiros – torrent