Pere Ubu – Pennsylvania

17.04.1998
Pop Rock
Um Grupo Mainstream
Pere Ubu
Pennsylvania (8)
Cooking Vinyl, distri. Megamúsica

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Os Pere Ubu, e em particular o seu gordo vocalista, David Thomas, são pessoas normais? Eis uma pergunta que tem apoquentado o mundo ao longo das últimas décadas. Se levarmos em conta o álbum de estreia do grupo, “The Modern Dance”, que eclodiu em 1977, fazendo passar todas as bandas punk da época por meninos de coro, a resposta é óbvia: Não, os Pere Ubu não eram pessoas normais. E agora, 20 anos depois, já podemos aproximarmo-nos do homem que canta como se fosse um porco a ser linchado, sem receio de sermos mordidos? Bem, na “Invisible Jukebox” da Wire deste mês (onde, entre outras considerações interessantes, afirma preferir John Cougar Mellencamp aos Smiths com o argumento de que os ingleses pura e simplesmente nunca poderão fazer música rock, porque não faz parte da sua natureza), é o próprio David Thomas que afirma que em 1978, como em 1998, os Pere Ubu sempre foram um grupo rock inserido no mainstream. “Pennsylvania”, o mais recente capítulo da saga do rei Ubu, permite compreender a dilaceração, desde sempre manifestada por Thomas, entre o amor pela harmonia perfeita dos Beach Boys e uma sensibilidade de “garage band” que lhe corre nas veias e o prende à herança estética de grupos como os Stooges e os MC5. Os Pere Ubu são um grupo de rock porque, ainda na óptica do seu líder, são um grupo americano, como se estes dois conceitos formassem uma evidência na irredutabilidade da sua simbiose, a qual, no caso em questão, se revela tão atraente como fatal.
A diferença que perturba, seja por causa da voz de maníaco de Thomas ou pelo modo como os Pere Ubu sempre introduziram o ruído e a deslocação na sua música, são manifestações de um desejo central, sem dúvida obsessivo, de comunicar (ver caixa). David Thomas é uma criança que fala com as moscas, um agitador de megafone, um palhaço que pisa o risco para poder tocar-nos mais deperto. “Pennsylvania” corta de certa forma com o passado recente de “Ray Gun Suitcase”. Onde este era brutalmente experimental, levando aos limites o histrionismo do seu cantor, o novo álbum mergulha as raízes no seminal “Dub Housing” ou no mais recente “Cloudland”, sem contudo deixar de for amomentos de pura suspensão – ou será melhor dizer “suspense”? – em que David Thomas pára no escuro para nos falar da sua solidão, como em “Perfume”.
O actual teclista (os Pere Ubu mudam de formação como quem muda de casaco), como fazia Allen Ravenstine nos primeiros álbuns do grupo, toca sintetizadores como se estivesse a ler pelo manual, as baladas resvalam a cada momento perigosamente para a cacofonia, mas são discos como estes que nos abanam o esqueleto e nos fazem sentir vivos, mesmo que o contacto provoque alguma dor. Para ter acesso Às letras de “Pennsylvania” basta entrar em http://projex.demon.co.uk. Já agora, descubram por que razão o último tema vem assinalado na capa com a duração de 5m04s quando no visor do leitor de CD aparece com 23m25s…

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