Arquivo mensal: Setembro 2011

Ganger – “Fore”

11.07.1997

Ganger
Fore (7)
Domino, import. Música Alternativa

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Na grande corrida do pós-rock, os Ganger utilizaram para a capa uma espécie de ampliação do ciclista que ilustra “Tour de France”, dos Kraftwerk. Compilação de temas contidos em três EP anteriormente editados por esta banda escocesa “Half Nelson”, “The Cat’s in the Bag… The Bag’s in the River” e “Series 500”, aos quais se juntou o original que dá o título ao álbum, “fore” é música atlética, instrumental, simétrica, uma sequência de “riffs” de heometria rigorosa onde a disciplina substitui a surpresa.
Guitarras de basalto colidem e aceleram ao lado de uma bateria metronómica, em corridas minimais sublimadas por sopros “punk” e electrónica pneumática, num aglomerado de influências, bem destiladas, dos Neu!, Guru Guru, Faust (compare-se a batida de “Missile that back-fired” com a de “It’s a rainy day, sunshine girl”, do álbum “So Far”), Tony Conrad, James Black, Swans e os primeiros Tuxedomoon (de “Half-Mute”). Nada de novo na galáxia do pós-rock, embora “Fore” seja, sem dúvida, uma das suas alíneas com uma dose de poder capaz de provocar razoáveis descargas de adrenalina. A ouvir e arrumar ao lado de “Ceefax”, dos Fridge, o álbum branco e mais “Neuiano” do pós-rock, entretanto já esgotado nas lojas VC.

Harmonia 76 – “Tracks & Traces”

28.02.1998

Harmonia 76
Tracks & Traces (9)
S3, distri. Sony Música

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Michael Rother, elemento dos Neu!, após a edição do segundo álbum do grupo, “Neu!2”, juntou-se a Dieter Moebius e Hans-Joachim Roedelius, os Cluster. O trio foi baptizado como “Harmonia” e, durante a sua curta existência, gravou dois clássicos do “krautrock”, “Muzik Von Harmonia” e “DeLuxe”. Os Cluster, ultrapassada a fase do industrialismo, abriam a paleta electrónica ao ambientalismo, chegando aos ouvidos de Brian Eno, que num ápice se juntou ao duo, colaboração da qual resultaram os álbuns “Cluster & Eno” e “After the Heat”. O que permanecia, até agora, inédito eram as gravações de Eno com Moebius, Roedelius e… Rother, ou seja, com os Harmonia. “Tracks & Traces”, gravado em 1976 – daí a nova designação de “Harmonia 76” escolhida para o colectivo -, é a peça que faltava numa boa colecção de “Krautrock” dos anos 70. A pura “Kozsmische muzik” do longo tema “Sometimes in Autumn” alterna com a faceta mais rítmica dos Neu!, o experimentalismo abstracto de Moebius e o romantismo de Roedelius, com Eno a garantir a coesão estética do projecto, acrescentando-lhe uma das suas típicas canções vocalizadas (“Luneburg heath”), uma das vértebras fulcarias de “After the Heat”. Com som radioso e electrónica analógica em todo o seu esplendor, “Tracks & Traces” constitui desde já um novo manual de consulta obrigatória para os actuais “pós-rockers”.

Gong – “Live 2 Infinitea”

10.11.2000

Gong
Live 2 Infinitea
Snapper Music, distri. Música Alternativa
7/10

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É COM UM FERVOR quase religioso que os adeptos dos Gong saudaram a música dos seus ídolos na digressão mundial realizada pelo grupo na Primavera deste ano. Trinta anos depois de terem engolido a poção original, Daevid Allen está com o aspecto de um ancião feiticeiro e Gilli Smyth com o de uma velha gaiteira de mini-saia, mas a música dos Gong soa com a frescura dos velhos tempos, parecendo almejar a imortalidade. “Live 2 Infinitea” recupera a música do recente álbum ao vivo “Zero to Infinity” – deixando as divagações jazz rock deste último, para se concentrar nas viagens psico, em que são mestres – e ressuscita a velha mística das sessões dos anos 70, com os glissandos cósmicos da guitarra e as fábulas lunares de Allen, os vagidos astrais de Smyth e o saxofone estrábico de Didier Malherbe. A “trip” dos Gong é, de facto, infinita. LSD em excesso no bule de chá.