Arquivo mensal: Setembro 2011

Beggars Opera – “Waters of Change”

18.07.1997

Beggars Opera
Waters of Change (8)
Repertoire, import. Torpedo

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Editado pela primeira vez em 1971, com capa de abrir, na mítica série do rótulo em espiral da Vertigo, “Waters of Change” é o segundo álbum desta banda escocesa, que chegou a actuar em Portugal, no cinema Monimental, num dos primeiros concertos rock realizados no nosso país. O primeiro, “Acto One”, também com selo Vertigo, apresentava versões “progressivas” de temas clássicos, numa linha idêntica à de grupos como os The Vice, Emerson, Lake & Palmer, Ekseption e os primeiros Egg. Esta opção viria, porém, a ser substituída por um som mais original, embora ainda receptivo aos tiques então conotados com o progressivo (vocalizações teatrais, virtuosismo “sinfónico” dos teclados, longas derivações em torno de uma única frase musical, invenção temática o mais distante possível da realidade do dia-a-dia).
Mas os Beggars Opera, cujo apogeu criativo cessaria após este álbum, tinha a enorme vantagem de terem no vocalista Martin Griffith e no guitarrista Ricky Gardiner dois bons e versáteis compositores, cujos talentos se estendiam desde o tom vagamente medieval de “Lament” e a fuga classizante de “Silver peacock” (entre os Amazing Blondel e os ELP), ao épico genesiano “The fox”, passando por melodias directas e memoráveis como “time machine” e “Festival”, ou ainda derivando para o ambientalismo misterioso de “Nimbus”, marcado pelo “mellotron” de Virginia Scott. “The times theya are a-changin…” cantava Dylan. Os Beggars Opera mudaram cedo demais, deixando pelo caminho um dos álbuns mais sugestivos da Vertigo.

Bowery Electric – “Beat”

28.05.1997

Bowery Electric
Beat (8)
Kranky, distri. MVM

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Relâmpagos no Nevoeiro

Não é por acaso que existe uma relação estreita entre dois movimentos separados quase trinta anos no tempo, o Krautrock, que eclodiu na Alemanha no final dos anos 60, e a actual vaga pós-rock, localizada principalmente em Chicago, mas também em Inglaterra e na Alemanha.
Qualquer dos termos começa por ser uma designação geral que pouco esclarece quanto ao conteúdo. O pós-rock, como o Krautrock, não se podem confundir com estilos musicais, mas antes designam concepções estéticas gerais e uma atitude global relativa ao som e a uma ideologização da sua prática. Em 1970, os grupos alemães renegavam o rock ‘n’ roll e os blues, raízes comuns ao rock nas suas formas mais ou menos convencionais, para recuperarem a herança romântica, a tecnologia electrónica e a música contemporânea, do serialismo ao minimalismo. Trinta anos depois, no seio do pós-rock, assiste-se a id~entica recusa, mas agora em relação aos referenciais new wave e grunge.
É então ao Krautrock que bandas como os Trans AM, Tortoise, Füxa, Rome, Kreidler ou To Rococo Rot (para mencionar apenas algumas das mais radicais e que mais se afastam dos parâmetros vulgares do rock) vão buscar o cimento e os alicerces, partindo para novas (re)construções. Não se trata, pois, de partir da estaca zero ou de relegar o rock para o baú das inutilidades, mas de voltar a contextualizá-lo, fora das suas balizas tradicionais, abrindo-o às novas realidades musicais e sociais que permeiam o final do século. Neste leque ficaram de fora várias modalidades de dance music, entrando para o seu lugar a ambient, a música industrial e, em geral, o género de experimentalismo abstracto que caracterizava as bandas germânicas dos anos 70.
Claro que, neste processo, há uns mais avançados do que outros. Grupos há que romperam em definitivo com a estrutura “normal” da canção, a favor de concepções que visam em primeiro lugar a entidade sonora em si, tomando como material de base quer as guitarras (Doldrums, Satisfact ou estes Bowery Electric), quer os sintetizadores, preferencialmente analógicos, aqueles de sonoridade mais orgânica e de manuseamento mais físico (Kreidler, To Rococo Rot, Rome), quer ainda uma solução mista (Tortoise, Trans AM, Gastr del Sol). Outros não cortaram com o passado da mesma maneira, ainda que a postura seja, do mesmo modo, a de conferir ao rock uma dinâmica de reconversão. Estão neste caso grupos como os Eleventh Dream Day (com “Eight”) ou Red Krayola (com “Hazel”), os quais, pela sua maior antiguidade, estão a fazer a transição com mais lentidão, enfeitando estruturas que são ainda as típicas do rock com efeitos electrónicos de toda a espécie. John McEntire (dos Tortoise, produtor, baterista, manipulador de electrónica e eminência parda de todo o movimento) está atento e a trabalhar para que as coisas acelerem.
Tudo isto se prende com a edição de “Beat”, segundo álbum dos Bowery Electric, mais uma investida (outras estão em fila de espera, como Modest Mouse, Fridge, Satisfact, The Ladybug Transistor, Portastatic, com distribuição nacional para breve) do pós-rock. Começa por ser um desvio e uma transgressão, nos temas “Beat” e “Fear of Flying”, em que os Bowery Electric se concentram na sabotagem de batidas e linhas de baixo que simulam o “beat” do hip-hop, esvaziando-o progressivamente até chegar a uma paisagem desolada, atravessada por relâmpagos de electricidade estática. Digamos que o hip hop passou a “R.I.P. hop” (R.I.P.: “Rest in Peace”, “descanse em paz”).
Consumado o “crime”, os Bowery Electric envolvem-se no seu nevoeiro de guitarras saturadas e vozes perdidas entre a bruma, onde o sinal mais forte de orientação nasce da pulsação metronómica do baixo de Martha Schwendener. Sente-se colar-se à pele a humidade de uma noite marítima, varada pela luz mortiça de um farol fantasma, em “Looped”. Os espectros arrastam-se em “Black light”, com guitarras e bateria alucinadas pelo enjoo, tentando equilibrar-se na escuridão. “Inside out” é pura suspensão dos pratos de bateria e cordas em “continuum”. No auge da trovoada, nos dois derradeiros temas de “Beat”, os Bowery Electric libertam, enfim, a electrónica (ainda guitarras “infinitas”, processadas e posteriormente sampladas) nos 17 minutos ambientais de “Postscript” e em “Low Density”, largas ondulações de mercúrio onde o próprio Brian Eno naufragaria.

The Rolling Stones – “Their Satanic Majesties Request”

27.09.2002

The Rolling Stones
Their Satanic Majesties Request
ABKCO, distri. Universal
10/10

A Jóia dos Malditos

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“Their Satanic Majesties Request”, registo ímpar na discografia dos Stones dos anos 60, faz parte do pacote “the Rolling Stones Remastered”, composto por 19 álbuns (22, se considerarmos que “Out of our Heads”, “Afternath” e “Between the Buttons” sairão em dose dupla, correspondentes aos diferentes alinhamentos das edições inglesa e americana), que serão postos à venda a 21 de Outubro. Da embalagem em formato digipak a um processo de prensagem “dois em um” que reúne os registos super áudio CD e CD áudio normal, tudo foi pensado em termos de “edição definitiva”. Editado originalmente me 1967 com uma capa dom uma foto em 3D (na presente reedição substituída por um holograma), “Their Satanic Majesties Request” é o álbum psicadélico dos Stones. O disco maldito que poucos ousam incluir na sua lista de preferências mas sem dúvida aquele que mais longe levou o lado inexplorado do grupo e é digno de ombrear com os grandes clássicos do psicadelismo., como “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, “Odesse and Oracle”, dos The Zombies ou “Begin”, dos The Millenium. Muito do seu exotismo é fruto do impulso das drogas alucinogénicas que então integravam o “input” inspiracional da maioria dos grupos da época, matéria em que Brian Jones (falecido dois anos mais tarde, vítima de “overdose”) era especialista. Foi ele o primeiro feiticeiro a render-se a Lúcifer, dele recebendo os seus tesouros amaldiçoados, pelos quais pagou com a própria vida. Cravos, mellotrons, “sitars” indianos, ritmos africanos encantatórios, tudo encaixa como os fragmentos simétricos de um caleidoscópio, criando uma fantasmagoria suspensa no abismo da qual emerge uma das mais belas canções de sempre do grupo: “She’s a rainbow”, emblemática da “weirdness” psicadélica, como é Lucy, no céu com diamantes.
Em “Their Satanic Majesties Request” os Stones quiseram ser poetas e, como os Beatles, trazerem para a pop uma beleza sobrenatural. Conseguiram-no, roubando ao mais belo e terrível dos anjos a sua jóia dilecta: uma esmeralda. Brian Jones morreu. Mas suspeita-se que a pedra verde continue, oculta, a cintilar no coração de Mick Jagger.