Arquivo mensal: Setembro 2011

Faust – “Ravvivando”

16.04.1999

Faust
Ravvivando (7)
Klangbad, distri. Ananana

LINK

Como Julian Cope tão bem fez notar na sua pequena bíblia apologética do “krautrock”, o livro “Krautrocksampler”, uma das virtudes dos Faust foi a percepção exacta que tiveram do momento. Praticantes de uma estética de provocação com raízes no rock repetitivo dos Velvet Underground e no humor explosivo dos Mothers of Invention, ou ainda na corrente da música concreta, os Faust abriram uma cratera no som dos progressivos ingleses dos anos 70, introduzindo-lhe no ventre uma granada. Fizeram história. Uma história curta, intensa e recheada de mistério. Nos anos 90 os Faust regressaram das cinzas para desfazerem o mito. Primeiro através de uma montagem genialmente conduzida por Jim O’Rourke (“Rien”), depois com uma inspirada operação de mímica operada pelos próprios a rasgar a memória (“You Know FaUSt”), os Faust apostaram em deitar abaixo o castelo construído nos anos 70. “Ravvivando” é um bom álbum, mas um álbum em que os Faust se meostram demasiado empenhados em soar da maneira que deles esperam os velhos apreciadores do grupo. O som tem a sua marca inconfundível, com a diferença de que entretanto já passaram 25 anos. Em 1999 a banda germânica é uma banda tardia de música industrial que destrói os palcos por onde passa (como fizeram os Einstürzende Neubauten na década anterior) e à qual faz falta a subtileza melódica de Jean-Hervé Péron, que já abandonou o grupo. Werner Diermaier e Joachim Irmler sabem, melhor do que ninguém, como transformar o ruído em música. Mas não há nada de novo na floresta queimada dos Faust. O que é um pouco triste num grupo que há um quarto de século atrás fez da novidade a sua bandeira.

Jessamine – “Another Fictionalized History”

29.05.1998

Jessamine
Another Fictionalized History
Histrionic, import. FNAC, (7)

LINK (self-titled, 1994)

“Another Fictionalized History” reúne “singles”, lados B e alguns EP dos Jessamine, uma das bandas de pós-rock da primeira geração. Música de extraordinária densidade tímbrica, resultante da mastigação de sonoridades ultra-analógicas algures entre os delírios de um amplificador a válvulas e um avião de carga em queda livre. As guitarras, amassadas no meio do conglomerado de lataria, contrastam com a suavidade da voz de Dawn Smithson. Os Jessamine têm, além disso, padrinhos de peso: os Suicide, de quem, a abrir o disco, repescam “Cheree”, e os Silver Apples (grupo que, em 1968, antecipava precisamente os Suicide, com Simeon Coxe a fazer literalmente explodir o seu sistema de osciladores acoplados), numa versão de “Oscillations”. Também disponível está o álbum de estreia dos Jessamine – mais do tipo vai ou racha, cúmplice da brutalidade pós-punk -, “The Long Arm of Coincidence”.

Kreidler – “Resport”

27.06.1997

Kreidler
Resport (8)
Stewardess Düsseldorf, import. Symbiose

LINK (Mort Aux Vaches, 1999)

Com “Weekend”, o álbum anterior desta banda alemã liderada por Stefan Schneider, os Kreidler impuseram-se, naturalmente, dada a sua proveniência geográfica (Düsseldorf), como um dos representantes do pós-rock que assumiram, sem reservas, o legado teutónico do “krautrock” do início dos anos 70, em particular dos dois principais ócones do movimento, Neu! e Cluster. Mas não nos iludamos. Neste caso, como no do outro projecto de Stefan Schneider, os To Rococo Rot, esta assunção não partiu do nada, mas transitou da assimilação de tudo o que se foi desenrolando na Alemanha ao longo da década de 80, do industrialismo dos Einstürzende Neubauten ao pioneiro da samplagem, Hoger Hiller, passando pela electrónica minimalista dos Pyrolator, aliás, Kurt Dahlke. Em “Resport”, as composições originais dos Kreidler são remisturadas por Pyrolator, precisamente, Robert Lippock, Lan e Erik MMM, num trabalho de escavação e ampliação que de todo levou ao abandono definitivo do rock. O som espacializou-se, distendendo-se para dimensões que abarcam os automatismos cósmicos dos Kraftwerk de “The Men Machine” e um novo “dub” escavado nos confins da galáxia electrónica. Com “Resport”, a fábrica passou a ter as janelas abertas.