Arquivo mensal: Março 2010

Marianne Faithfull – A Stranger on Earth – An Introduction To Marianne Faithfull

26.10.2001
Marianne Faithfull – O Rouxinol e o Abutre
Marianne Faithfull
A Stranger on Earth – An Introduction To Marianne Faithfull
Decca, distri. Universal
7/10

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Era um anjo. Transformou-se numa chaga. Marianne Faithfull protagonizou uma das mudanças mais radicais que a pop alguma vez conheceu (exceptuando, obviamente, aqueles que mudaram de dimensão, como Janis Joplin, Sandy Denny, Hendrix ou Morrison…).
De origem aristocrata, Marianne cedo se introduziu nos meandros da música pop. Optou por ser “groupie” do grupo de rock and roll mais maldito do mundo e por se tornar amante de Mick Jagger, o diabo em pessoa. Jagger deu-lhe cabo da vida mas, por outro lado, foi graças a ele que a loura adolescente pôde encetar uma carreira a solo. Em 1965 Marianne já cantava coisas como “I’m a loser”, do álbum “Marianne Faithfull”, incluída na presente colectânea, mas a sua voz cândida prestava-se mais a melodias inofensivas como as de “This little bird” ou do tradicional pindérico “House of the rising sun”. Mesmo “As tears goes by”, o seu primeiro single a ser lançado e, reza a história, a primeira canção escrita pela dupla Jagger/Richards, que poderia funcionar como profecia do que estava para vir, soa na sua voz como um madrigal. Talvez por esta razão “A Stranger on Earth” abra com a versão de 1987 desta mesma canção, incluída no genial “Strange Weather”, restituindo-lhe a sua carga dramática original.
Após a tentativa de suicídio que em 1969 a impossibilitou de concretizar a sua ascensão como actriz, impedindo-a de contracenar com Jagger no filme “Ned Kelly”, e de um consumo prolongado de heroína, tudo parecia apontar para a palavra “fim” na sua carreira. Não foi porém o que aconteceu. Influenciada por “Berlin”, de Lou Reed, James Brown e Hank Williams, Marianne reapareceu uma década mais tarde, em 1989, a voz já escurecida e marcada pelas cicatrizes, com o aclamado “Broken English”, protótipo, quanto a nós sobrevalorizado, da electrónica de tendência “disco” que alegadamente caracterizou alguma da vanguarda pop dos anos 80. “Guilt” e “The Ballad of Lucy Jordan” foram duas escolhas óbvias e acertadas, deslocadas para esta “introdução” a Marianne Faithfull que peca por demasiado difusa. “Dangerous Acquaintances” (1981), “A Secret Life” (1995) e “A Perfect Stranger” (1998) contribuíram aqui igualmente para ilustrarem a mutação do rouxinol em abutre, da donzela em cantora de cabaré, da adoração pelos Stones À apropriação de Brecht e Weill.
Socorrendo-se ainda, da fase mais antiga, de faixas da compilação “The Very Best of Marianne Faithfull”, “A Stranger on Earth” tira um dos retratos possíveis a esta mulher que a vida e a música transformaram em resistente. Diga-se em abono da verdade que a cinquentona enrugada de hoje é bem melhor que a “the baroness’e daughter, pop star angel, rock star’s girlfriend” (como a si própria se intitula na sua autobiografia) que nos anos 60 esvoaçava em volta das pedras do mal.

Fairport Convention – Full House (self conj.)

26.10.2001
Fairport Convention – Casa Cheia

Fairport Convention
Full House
9/10

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Fairport Convention
House Full
7/10
Island, distri. Universal

“Full House” e “House Full” são imagens espelhadas de uma mesma realidade, apesar da disparidade das datas originais das respectivas edições. “Full House”, um dos álbuns clássicos dos Fairport Convention, foi editado em 1970, enquanto “House Full”, gravado ao vivo no mesmo ano, no Troubadour, em Los Angeles, e com a participação dos mesmos músicos, teve que esperar até 1986 para ver a luz do dia. Coube a ambos a honra de serem os primeiros a ser objecto de remasterização, esperando-se que o mesmo aconteça com a extensíssima discografia desta banda emblemática do folk rock britânico dos anos 60 e 70 e que ainda hoje se mantém em actividade.
“Full House” é o 5º álbum dos Fairport, o primeiro depois da saída de Sandy Denny, que haveria de regressar esporadicamente anos mais tarde para participar em “Rising for the Moon”. Mas o que poderia constituir um grave “handicap”, até pelo sucesso artístico alcançado pelo disco anterior, “Liege and Lief”, considerado um marco, acabou por resultar numa reorientação bem sucedida da filosofia musical do grupo. Se “Liege and Lief” dependia da fantástica voz e da presença carismática da malograda Sandy Denny, é “Full House” que assume uma vocação rítmica e uma liberdade de acção no domínio dos arranjos e da execução instrumental que serviram de modelo à geração seguinte do folk rock, dos Horslips aos Woods Band.
O espaço deixado vago por Denny foi preenchido pelo protagonismo de dois instrumentistas fabulosos, o guitarrista Richard Thompson, hoje um singer-songwriter clássico, e o violinista Dave Swarbrick, este dando desde sempre provas de fidelidade à folk. “Dirty linen” e “Flatback caper” são dois dos melhores medleys alucinantes em que Swarbrick e Thompson rivalizam no balanço e no virtuosismo. “Walk awhile”, um dos temas emblemáticos do folkrock contrasta com “Sir Patrick Spens”, onde é posto em relevo o registo folky de Swarbrick, que colmatou de forma mais do que adequada a ausência da diva, enquanto “Sloth” é uma longa balada que Richerd Thompson preenche com uma lenta dissertação na guitarra.
Ponto fraco desta reedição é a alteração do alinhamento original, que já pecava pelo tema final, adaptação preguiçosa do “standard” “Flowers of the Forest”, o que é compensado com a inclusão dos extras “Now be thankful” (em versões mono e estereo), “Bonny Bunch of Roses” (mais tarde aproveitado para título de um álbum posterior dos Fairport) e “Sir B. McKenzie’s daughter’s lament for the 77th mounted lancers retreat from the straits of Locj Knombe, in the year of our Lord 1727, on the occasion of the announcement of her marriage to the laird of Kinleakie”, candidato ao Guiness como maior título de sempre para uma canção.
“House Full” pode ser encarado como complemento ao vivo de “Full House”. Além da prova dos nove no que concerne ao virtuosismo de Swarbrick e Thompson, e da comparação que permite fazer entre os temas comuns aos dois discos, destacam-se em “House Full” o “medley” “The lark in the morning”, retirado de “Liege and Lief”, e a incursão na música “morris” medieval de “Staines morris”, território que viria a ser explorado de forma exaustiva pelo ex-Fairport Ashley Hutchings com os Albion (Country) Band.

Robert Wyatt – Mercador de Sonhos

19.09.1997
Mercador de Sonhos
Seis anos de silêncio depois de “Dondestan”, cortados pela colecção de gravuras sonoras do mini-CD “A Short Break”, Robert Wyatt tem um novo álbum de originais, “Shleep”, gravado no estúdio de Phil Manzanera, com a participação, entre outros, de Brian Eno, Paul Weller, Evan Parker e Annie Whitehead. Um disco de “sonhos maus” por um sonhador que tem experimentado na carne a dor, a utopia e a revolução.

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“Shleep” é o melhor álbum de Robert Wyatt, desde “Rock Bottom”, a obra-prima gravada em 1974 a seguir ao acidente que o atirou para uma cadeira de rodas. O mesmo acidente que acelerou o processo de descoberta de uma “voz pessoal” que nos últimos 25 anos insite em se fazer ouvir com o poder de transfiguração de um guerrilheiro que faz da poesia a principal arma.
“Shleep” é uma mistura de “Sheep” com “Sleep”. De massificação com dormência. Wyatt explica que “começou por ser apenas o título de uma canção”, embora sejam lícitas outras conotações, como “The Little Sleep”, uma novela policial de Raymond Chandler.
O sono e o sonho. Robert Wyatt teve problemas com o primeiro, transformando em arma o segundo. “Há dois, três anos, tive uma fase em que, pura e simplesmente, não conseguia dormir.” “Shleep” resgata o onirismo, da mesma forma que “Rock Bottom” exorcizava os traumas deixados pelo acidente que o tornou paraplégico, e “Nothing Can Stop Us” era a reacção violenta contra uma situação política considerada “intolerável”.
Cada canção de “Shleep” é então como que o “polaroid de um sonho”. “Prefiro os sonhos maus aos sonhos bons. Quando acordo de um sonho bom, o choque com a realidade od dia-a-dia é maior.” Não se trata, diz, de um projecto iseológico – “Nunca injecto os meus discos com qualquer forma de ideologia, tento sempre que sejam totalmente independentes.” Mesmo “Nothing Can Stop Us” ou um tema como “East Timor” de “Old Rottenhat”? “Talvez nessa altura, nos anos 80, sim, a situação política em Inglaterra estava a tornar-se intolerável, com a emergência de movimentos racistas e nazis. Foi uma época em que passava mais tempo a participar em comícios do que a ouvir ou a preocupar-me com música.”
Trata-se, afinal, tão-só da projecção intuitiva de estados de alma que tanto exigem, para se fazerem ouvir, do canto panfletário da Internacional Socialista, como se encolhem num balbuciar triste e, por vezes, incoerente, de uma criança ferida. Ou de um louco encarcerado na certeza das suas próprias convicções. De um pouco como “Rock Bottom” não se sai igual ao que se entrou. Os álbuns seguintes, de “Ruth Is Stranger Than Richard” a “Dondestan”, demonstram essa mesma impossibilidade de fazer frente, com a constância dos iluminados ou dos masoquistas, ao reflexo do espelho. Mas aí está “Shleep” para nos fazer crer o contrário.
Gravado no estúdio de Phil Manzanera, companheiro de longa data de Wyatt, “Shleep” reúne memórias e fragmentos da anterior discografia, num “puzzle” que necessita de tempo para se fazer compreender na sua totalidade. Um tempo que o próprio músico reserva para si, de forma a tornar coerente “um processo de composição orgâncio, feito de intuições”. Processo que tem início em casa, num gravador de quatro pistas, em articulação estreita com a sua mulher, Alfreda Benge – autora dos textos e das capas de grande parte da discografia recente do músico -, com quem Wyatt tem partilhado inúmeras experiências e viagens pelo mundo.
Para “Shleep”, Robert Wyatt convidou velhos amigos, como Phil Manzanera e Brian Eno, este último “um aventureiro que lida com a música como uma criança”, cuja influência foi determinate no resultado final de um tema como “Heaps of Sheeps”, a fazer lembrar álbuns como “Taking Tiger Mountain (By Strategy)” ou “Another Green World”.
Mas é ainda no modo de articulação dos músicos convidados que “Shleep” se afasta de “Rock Bottom”, embora sejam evidentes traços comuns entre os dois discos (as “drones” de sintetizador, o piano sincopado a 16 rotações, inspirado em Cecil Taylor, as melodias de “nursery rhyme” em contraste com sequências instrumentais de “big band” espectral). Mas enquanto “Rock Bottom” era grande dor, redimida pelo génio, suportada pela companhia de amigos, “Shleep” é a partilha fraterna com esses mesmos amigos, numa assunção do colectivo como força impulsionadora do acto criativo.
Por vezes o jogo de memórias cruzadas está escondido, surgindo de forma indirecta. Como uma linha de sintetizador dos Cluster introduzida por Brian Eno. Ou a utilização de fitas magnéticas com fundo industrial em “Was a Friend”, nas quais Wyatt reconhece haver uma relação com a música de outro amigo seu, Charles Heyward, dos This Heat e Camberwell Now. Noutras, a fonte revela-se de maneira mais óbvia. Como a fabulosa apropriação das inflexões vocais de Bob Dylan de “Subterranean Homesick Blues” e dos blues em geral, em “Blues In Bob Minor”, sobre um ritmo binário decalcado de um tema de “Old Rottenhat”, na segunda das duas participações de Paul Weller, fundador dos The Jam, neste álbum.
Evan Parker e Annie Whitehead, representantes da “velha” escola do “new jazz” britânico, acrescentam a improvisação e a surpresa. Antes mesmo da aventura, iniciada nos anos 60 ao abrigo do movimento de Canterbury, com os Soft Machine, Wyatt era presença assídua em gravações de jazz, tocando bateria ao lado de músicos como Wolfgang Dauner. O acidente – uma queda de um quarto andar, no decorrer de uma festa mais animada – de que foi vítima terá inviabilizado uma carreira promissora como instrumentista de “jazz”? Wyatt recusa esta possibilidade. Prefere dizer que a bateria era um empecilho que o impedia de trabalhar em profundidade a música que verdadeiramente sentia.
De resto, basta lembrar que na altura em que, em 1970, os Soft Machine iniciavam a sua própria aventura pelo jazz, com outro dos álbuns que é um marco da música dessa década, o duplo “Third”, Robert Wyatt contrapunha às longas improvisações, em compassos esquisitos, dos seus companheiros, a sua própria “suite” pop vocalizada, “The Moon In June”, canção mágica mas que o votaria ao ostracismo pelos intelectuais do grupo, Hugh Hopper, Mike Ratledge e Elton Dean. “Adorava fazer esse tipo de música, mas era óbvio que os outros não queriam vocalizações. Acabei por ser marginalizado.” Wyatt viria ainda a reformular a eterna questão – pop contra vanguarda – no projecto Matching Mole (tradução em inglês da fonética, em francês, “machine mole”, Soft Machine, precisamente), de cujos dois únicos álbuns gravados, “Matching Mole” e “Little Red Record”, sairia um hit como “O Caroline” (repescado pelos Mynci Zygoti Mynci no seu disco de estreia), a par de instrumentais obscuros do mais puro experimentalismo.
Mas Robert Wyatt desdenhou sempre do jazz mainstream, preferindo a ala mais radical deste género musical e os cantores de soul que ouvia na juventude.
Regozija-se ao fazermos menção de duas obras, pouco conhecidas, que resolvem a questão de uma vez or todas, a velha guerra entre vanguarda e acessibilidade, nas quais a sua participação é decisiva: “The Hapless Child and Other Incrustable Stories”, de Michael Mantler, discípulo hermético de Don Cherry (outro dos heróis trompetistas de Wyatt, a par de Mongesi Feza), com a guitarra de Mike Oldfield, e “Fictious Sports”, com a chancela de Nick Mason, baterista dos Pink Floyd, e a alta inspiração das composições de Carla Bley, com quem o ex-Soft Machine viria a tocar em posteriores ocasiões.
Em “Fictious Sports”, Robert Wyatt cantava “I’m a Mineralist”. Hoje o compositor de uma banda sonora contra o abuso de animais em experiências científicas, “The Animals Film”, confessa o seu interesse por duas temáticas, na aparência, díspares: os insectos e as estrelas. O micro e o macrocosmo, segundo “uma tradição de simbolismo que sempre existiu, de forma quase subterrânea, em Inglaterra, em autores como William Blake”. E é de uma estrela que acaba a falar, Diana Spencer: “A minha reacção à sua morte foi semelhante à da maior parte das pessoas. Fiquei triste. É sempre bom as pessoas poderem viver um conto de fadas, ou participar numa ‘soap opera’. E, ao menos por uma vez, foi possível ver o povo inglês a exprimir uma emoção. “O sono e o sonho, uma vez mais. A comandarem o mundo, simultaneamente secreto e luminoso, esculpido em cicatrizes, de Robert Wyatt.