Arquivo mensal: Março 2010

Sacerdotes de Alquimia – Polémica / Opinião –

11.07.1997
Polémica / Opinião
Na edição de 14 de Maio último, no suplemento PopRock, Fernando Magalhães fez a crítica (desancou) do álbum de estreia dos Sacerdotes da Alquimia. António Duarte Bento não gostou.

Sacerdotes de Alquimia
(Contra-Crítica a Fernando Magalhães)
O Sebastianismo cristalizou-se de tal modo nas mentes dos críticos de arte portugueses que, sempre que lhes escrevem poemas ou lhes cantam canções a falar de Portugal, ficam de cara crispada e alma sombria, e vá de zurzir sobre os pobres de espírito que ousam falar da mãe e do pai portugueses. Nunca falando estes críticos de D. Sebastião, o sofrimento que lhes é afligido quando deste alguém fala compara-se ao terror primário perante qualquer coisa tabu. Estes críticos são órfãos primitivos, daqueles que, perante o mediático deslumbramento dos pais dos outros, não toleram que lhes seja lembrada a paternidade. Com um “locus” de controlo externo anglófilo, só toleram palavras como “states”, “américa”, “england”, ou então, mimetizando simiamente os américas, qualquer arte exotêstica porque é “cool”.
Sinfonismos e palavras como Portugal, o mar, marinheiros, universalismo português e ingenuinismos lusos (estes, a base de um autêntico pensamento revolucionário planetário) são, para eles, coisas de almocreves e bardos nescientes. Curiosamente, se estes críticos emigrassem e se fixassem nos tais “States” ou noutro país gato-por-lebremente dito desenvolvido, fariam grandes festivais de música pátria, a ouvir bacalhau quer alho, pois é o melhor tempero para a sua saudade. Estes críticos são daqueles que, como diz o povo, confundem o cu com as calças. Nunca leram António Quadros e, se o folhearam, sofreram de náusea primitiva de saudade. Só leram Fernando Pessoa depois de os américas o terem autorizado, e assim lhes terem prescrito os comprimidos antieméticos. Compreende-se.
O sacristão Fernando Magalhães, apesar de pertencer à mesma igreja, não tem nada que ver com o sacerdote Fernão de Magalhães, que deu nome ao estreito. E porque esta banda não é do Norte, o primeiro não seria sequer capaz de ajudar à missa do segundo. Ficaria a carpir “esta banda não é do Norte”, no Restelo. Assim, os Sacerdotes de Alquimia seriam uma banda pentagonal (perfeitamente sintonizada com o Pentágono ou com a “Penthouse” – o que agradaria muito mais, ora bem), ou hexagonal (perfeitamente sintonizada com o 6 da estrela judaica ou embrulhada num qualquer código de barras europeu). Não, os Sacerdotes de Alquimia são uma banda quadrada, e assim seja. Sintonizada com os quatro lados do quadrado, que são também os quatro pontos cardeais, que são também os quatro caminhos do vento, fotógrafos do vento que enfuna (enfuna é bonito, não é?) os cabelos dos quatro cavaleiros do Delírio Final. Sim, é verdade, cheira a PIGS do Sul. Decididamente, este Magalhães é do Norte.
António Duarte Bento
Poeta-cavaleiro da Ordem Lilás da Triste Figura
autor de vários arremessos a moinhos e outros monstros (arremessando por conta própria)
Buarcos-Figueira da Foz

Contra-contra-crítica a António Duarte Bento
Enfunemos então. Como todo o aspirante e adepto da verdadeira Tradição sabe, a Ordem Lilás da Triste Figura é uma farsa, uma sitazita sem dimensão proscrita pela Ordem-Mãe, a Yrmandade dos Mestres Comedores de Abóbora, invocada em surdina nos meios iniciáticos, como Y.M.C.A O que retira, de imediato, qualquer autoridade ao cavaleiro Bento para mencionar, sequer, o baluarte da espiritualidade lusa que é a P.I.G.S. (Pátria Imaculada dos Grandes Sábios) que o Bento Lilás lamentavelmente confunde com o PIGS (Portugal infestado de gente suja). Por estas e por outras é que muitos perdem o norte, na defesa daqueles que, arvorando-se em alquimistas, não passam de vulgares sopradores.
Fernando Magalhães (monstro)

Kubik – Oblique Musique

19.10.2001
Kubik
Oblique Musique
Zounds, distri. Sabotage
8/10

Kubik é Victor Afonso, de quem já se conhecia a maqueta “Radio Mutation”. “Oblique Musique” assinala em simultâneo a estreia oficial deste músico da Guarda e da editora Zounds. Adepto da manipulação de fontes sonoras díspares, que reorganiza através do sampler, Victor Afonso revela-se herdeiro do experimentalismo e do industrialismo (mas não desestruturalismo…) dos anos 80 que justapõe a algumas das tendências da “nova dança inteligente”, ficando o resto a cargo da sua delirante imaginação. Em “Exploding trip inevitable” e “Dj grozny” a música traça paralelismos curiosos com a dos dois geniais Holgers alemães, respectivamente Holger Hiller ( a sua coreografia de máquinas e Wagner) e Holger Czukay, na combinação groove, dub e marionetas étnicas. “Fangoria”, um dos temas recuperados de “Radio Mutation”, insere-se na linha de colagens dos Negativland e dos Popular Mechanics, mas este rol de referências, que não dispensa o humor (“Who Am I?”, “Ordet”, e a sua colagem zorniana para mil filmes num segundo, retomado na remistura final pelos Stealing Orchestra, a galope no carrocel dos Nova Huta) revela afinal a cultura musical do seu autor sem que isso manche a originalidade do projecto e, acima de tudo, a gama de recursos e a força das composições evidenciados em “Oblique Musique”.

Einstuerzende Neubauten – Strategies Against Architecture III – A Comedy of Errors

19.10.2001
Einstuerzende Neubauten
Strategies Against Architecture III – A Comedy of Errors
2xCD Mute, Zona Música
8/10

LINK

Dados os recentes e catastróficos acontecimentos ocorridos em Nova Iorque, os papas da música industrial não devem estar à vontade com o nome que escolheram para si próprios. Einstuerzende Neubauten significa “edifícios novos em colapso”. Chamar a um disco “Estratégias Contra a Arquitectura” também não ajuda. Apesar de no anterior “Silence is Sexy” o grupo de Blixa Bargeld ter despoletado a carga de dinamite que no passado contribuiu para derrubar alguns dos alicerces da pop, este novo conjunto de “estratégias” sónicas é mais um manual de instruções para o candidato a terrorista musical. Com inéditos, “temas obscuros”, peças compostas para a companhia de bailado La La La Human Steps e versões ao vivo (incluindo o excepcional “Redukt”), cantada em alemão, francês ou simplesmente na linguagem secreta do inconsciente, esta comédia de erros é também uma comédia de horrores e a comédia da arte, onde o ruído, o choque, a canção e a ópera do medo formam o painel assustador do tempo em que vivemos.