Arquivo mensal: Março 2010

Ceolbeg – Ceolbeg 5 (conj.)

16.01.1998
WORLD/CELTA
Remissão Dos Pecados
Se nalguns casos a passagem do tempo pode descaracterizar a música, noutros tem como efeito o apuro de qualidade e de um estilo. Foi o que aconteceu a três nomes conceituados da folk céltica, cujas gravações nem sempre têm estado à altura dos seus pergaminhos: Dan Ar Braz, Na lúa e Ceolberg. Os respectivos novos álbuns são, qualquer deles, agradáveis surpresas. O som das harpas continua a ser de luz, a julgar pelos novos trabalhos de Wendy Stewart e das Sileas.

Bem-vindo, senhor Dan Ar Braz, ao grupo dos que recusam o supérfluo e a mistificação. Para este antigo guitarrista de Alan Stivell abriram-se de novo portas que pareciam estar em definitivo encerradas pela fase inicial do seu percurso a solo – marcado por exercícios de estilo em torno de um certo “celtic jazz” com tradições na Bretanha, mas envolto numa aura de “easy listening” pouco exigente. Mas Dan Ar Braz emendou a mão, oferecendo-nos em “Finisterres” uma lição sobre como fazer uma música endereçada às maiorias, sem ceder a fórmulas de massificação gratuita.
Mais ainda que “L´Héritage des Celtes”, que passou a servir de designação ao colectivo de participantes, “Finisterres” começa por ser uma agremiação arrepiante de nomes sonates da música de raiz celta europeia: Donal Lunny, Noel Bridgeman, Nollaig Casey, Jacques Pellen, Donald Shaw, Gilles LeBigot, Carlos Nunez, Sharon Shannon, Karen Matheson, Maíre Ní Chatasaigh, Gilles Servat, Mairtin O’Connor, Liam O’Flynn e a Bagad Kemper, entre outros de menor nomeada.
Poderia ser um catálogo de venda a retalho, mas não é. Com alguma surpresa, dados os antecedentes, “Finisterres” demonstra um propósito e uma unidade fora do comum. Evidentemente, tudo funciona na mesma escala de proporção de peso dos nomes presentes, mas sem que alguma vez se sinta esse outro peso, bem menos dignificante, do excesso.
Sabe bem escutar Carlos Nunez, por uma vez liberto da tentação do protagonismo fácil, retomando o gosto pela singeleza, no tradicional “La Costa De Galicia”, com arranjo seu e de Donal Lunny a quem coube a produção geral do projecto. Também é preciso dizer que tem a seu lado, neste tema, Sharon shannon, para o pôr no lugar.
Há aqui de tudo para todos, pop e tradição enlaçados, vozes antigas e modernas, pormenores de excelência técnica inseridos no sítio certo, confeccionados como um bolo, no qual, desta feita, Dan Ar Braz se preocupou menos com a cobertura de açucar do que com a qualidade da massa.
Fusão? Sem dúvida, da tradição mais antiga com a linguagem da electricidade e da actualidade, como exemplarmente é ilustrado por “Labroella”, tema onde a ancestralidade do canto de Manu Lanhuel se enquadra de forma natural no estilo, quase progressivo, das guitarras, eléctricas e de 12 cordas acústicas de Dan Ar Braz e Jacques Pellen. Outro apontamento digno de registo desta aliança entre dois tempos diferentes encontra-se, logo a seguir, no magnífico diálogo a três mantido entre as “uillean pipes” de Ronan Le Bars, o violino de Nollaig Casey e o acordeão diatónico de Donald Shaw, num “irish breton folk rock” cheio de vitalidade e frescura (Saint George, distri, Sony Música, 7).

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Com 18 anos de existência os escoceses Ceolbeg têm tido uma carreira atribulada, marcada quer pela troca de músicos quer pela escassa, e nem sempre exemplar, produção discográfica. “Ceolbeg 5”, como o nome indica, o quinto álbum desta banda – que já actuou ao vivo entre nós, num concerto na Amadora -, merece rasgados elogios. Se num passado recente, em álbuns como “Seeds To The Wind” e “An Unfair Dance”, a dinâmica musical funcionava com base na alternância entre baladas vocais, nem sempre interpretadas de forma imaculada (os Ceolbeg nunca brilharam por ter bons vocalistas…) e instrumentais construídos sobre uma rítmica declaradamente rock, em “Ceolbeg 5”, verifica-se uma inflexão de 180 graus.
desapareceu o rock e apareceu em seu lugar uma subtileza instrumental (antes a tónica era posta na energia) que há muito não se via no grupo. Os Ceolbeg são, pelo menos por agora, um grupo clássico, capaz de viajar com a mesma segurança pelo “drive” poderoso das “Highland pipes”, em todos os “sets” a que é chamado a participar o novo elemento Mike Katz, e a poesia da voz, da “clarsach” (harpa escocesa), ou da harpa electrificada de Wendy Stewart, que neste álbum alarga os seus dotes de executante à concertina.
Como que não querendo cortar de forma abrupta com um passado feito de algumas cedências, os Ceolbeg ficaram-se desta vez, felizmente, em termos de “fusão”, apenas pela escrita. Assim, o “jazz funk” mencionado no tema inicial é sobretudo um estado de espírito que anima a incandescência das “pipes”, bem como o “reggae” (que ainda há bem pouco fez naufragar os Ceolbeg nas águas de algum mau gosto…) não passa de nota de rodapé numa composição de Robert Burns (“Willie Wastle”), onde se projecta uma hipotética passagem deste noma mítico da música e da poesia escocesas pela Jamaica.
Mesmo em “The Nodding Song”, outra composição de Robert Burns, o compasso de ressonâncias jamaicanas dilui-se no fraseado da harpa e na fluência e acentos, absolutamente célticos, da gaita-de-foles de Mike Katz. O último tema, “The Gaberlunzie Man”, reforça de forma definitiva o novo estatuto dos Ceolbeg: é uma balada de extraordinária beleza, cujas entoações vocais mergulham no mais puro estilo tradicional e onde todas as partes, do tapete de teclas clássicas, à harpa e às “Highland pipes”, funcionam ao serviço da magia desta composição épica. Está ao nível do melhor que se pode encontrar no clássico “Celtic Hotel”, dos Battlefield Band, aos quais os Ceolbeg começam a morder os calcanhares.
Temos Ceolbeg naquele que é, sem sombra de dúvida, o seu melhor álbum de sempre (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

Wendy Stewart, harpista dos Ceolbeg, prossegue com “About Time 2” a sua aventura a solo, iniciada em moldes semelhantes na estreia, “About Time”. Nas variantes acústica e electrificada da harpa, em concertina, e voz, Wendy faz-se acompanhar neste seu segundo registo por três seus antigos companheiros no grupo, Gary West, nas “scottish small pipes” e “low whistles”; Colin Matheson, na guitarra; e Jim Walker, em tambor e percussões.
Álbum feito de delicadeza, sempre que a harpa murmura os seus “airs” e marchas tecidas em filigrana, “About Time” apresenta uma curiosa selecção de temas, que inclui, além de tradicionais e originais da harpista, versões de “The Kitchen Piper”, de Donald McLeod, “The January Man”, de Dave Goulder (cuja vocalização faz lembrar uma June Tabor de voz mais doce), e “Fotheringay”, um dos temas mais antigos dos Fairport Convention, com a assinatura de Sandy Denny, aqui mergulhando numa melancolia tão ou mais forte que a do original. “Rachael Rae” transporta colorações da música árabe da Idade Média para a harpa, “Fish Feis” é “swingante” e “jazzy” à maneira de uma Savourna Stevenson, a gaita-de-foles balouça com languidez em “Probabobaly”, a “tentativa de composição de uma marcha, em estado de embriaguez, dos Ceolbeg, descrita pelo baterista do grupo como ‘probabobaly the best tune in the world…’”.
Um álbum para ouvir em rectao em locais como Sintra, nas margens de um lago subterrâneo, ou num castelo por cima das nuvens (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

A harpa domina ainda “Play on Light”, quarto álbum, depois de “Delighted With Harps”, “Beating Harps” e “Harpbreakers”, das Sileas, um duo formado por dois expoentes deste instrumento, as escocesas Mary MacMaster e Patsy Seddon, também pertencentes às Poozies e aos Clan Alba. Muito mais que o disco de Wendy Stewart, “Play on Light” é em primeiro lugar um trabalho dedicado em exclusivo a um instrumento específico, a harpa, que agradará sobretudo aos apreciadores dos estilos e da sonoridade deste instrumento, mas ao qual um ouvido mais generalista não conseguirá ficar indiferente. A este impressionará, provavelmente, mais do que os pormenores técnicos e de expressão das duas executantes, a beleza das baladas vocalizadas, a solo ou em suaves harmonizações em dueto, por uma e por outra. Para entrar em bicos de pés e com os ouvidos, muito, muito limpos. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

Confessamos o nosso relativo desapego pela música dos galegos Na Lúa, cuja principal virtude terá sido, até agora, a de revelar a voz da nossa bem conhecida Uxia. Como acontece com inusitada frequência na Galiza, a música dos Na Lúa padeceu quase sempre de indefinição, hesitando entre uma prática fusionista e comercial e a entrega a uma leitura mais profunda do reportório tradicional galego. Na mesma altura em que pela primeira vez surge no nosso mercado o álbum de estreia do grupo, “Na Lúa”, marcado por alguma incipiência técnica mas onde são já visíveis as diversas e díspares vertentes que determinariam a posterior evolução do grupo, este novo “Os Tempos Son Chegados” vem revelar algumas qualidades pouco exploradas na sua obra anterior. Sem abandonar o gosto por outras músicas, aqui expreso, por exemplo, no cunho cubano imprimido ao título-tema, muito Sierra Maestra (Santiago de Compostela ligada por laços invisíveis a Santiago de Cuba?…), os Na Lúa, por força da insistência numa sonoridade híbrida, acabaram por criar com “Os Tempos Son Chegados” um objecto de extraordinária originalidade.
Curiosamente, pelo desejo de afirmação de uma nação galega universal, ponto de confluência de tradições múltiplas, é impossível não pensar numa idêntica visão – embora com desenvolvimentos e implicações, não só musicais como também políticas, bem mais importantes – cultivada em toda a sua produção recente pelos Milladoiro. Mas atenção, que apesar de o seu mundo ter as fronteiras mais apertadas, os Na Lúa chegam a pousar num lugar tão longínquo quanto o seu nome deixa adivinhar. A Galiza de um tema como “De Andar Camino” tem as raízes no planeta Terra e os olhos postos na Lua. “Muineiras” negras (“Ribeirana”), e “cajun” (“Cantar de Canteiros”), um coreto a comandar passos de valsa com sabor a tango (“Liberación”), a Arábia coberta de verde (“aryel”), vinho com sabor a petróleo em condutas “hornpipe” (“A aventura dos pipelines”), o Minho mais belo do que nunca (“Coro das Maçadeiras”), a Galiza dos Na Lúa enlouqueceu. Os tempos parecem, de facto, chegados para os Na Lúa afirmarem a sua diferença. As fotografias do interior da capa são magníficas. Rendemo-nos! (Do Fol, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

Celso De Carvalho Estreia-se A Solo Em Edição De Autor

05.12.1997
Celso De Carvalho Estreia-se A Solo Em Edição De Autor
30 Graus Celsius

Celso de Carvalho, 47 anos, antigo elemento dos Plexus e da Banda do Casaco, violoncelista numa orquestra sinfónica, participante em gravações de estúdio ou em concertos dos mais diversos artistas nacionais e estrangeiros (Quarteto 1111, José Afonso, Rão Kyao, Filipe Mendes, António Pinho Vargas, Steve Potts, Gunther Hampel, Marcos Resende, Né Ladeiras, Jerry Marotta, António Emiliano, Chico Buarque, Ramuntcho Matta, Amélia Muge, e Ala dos Namorados, entre outros), acabou de “lançar” o seu primeir álbum a solo, intitulado “Celsianices”, do qual é autor, intérprete, produtor, arranjador, misturador, programador e engenheiro de som.
Mas este álbum tem uma particularidade: trata-se de uma edição de autor do qual foram apenas prensados 30 exemplares, numerados e assinados, que têm sido distribuídos “por pessoas amigas, por amantes de música em particular e mesmo por pessoas que o autor não conhece pessoalmente, sendo, contudo, apreciador dos seus critérios musicais, gente ligada à crítica e à divulgação nos ‘media’. Porque, quando Celso de Carvalho quis dar a conhecer a sua música, “flataram-lhe todos os apoios”. “É que a coerência e a opção pelo não-comercial têm os seus custos”, diz. Foi assim que tivemos conhecimento de “Celsianices”, um álbum gravado entre Julho de 1994 e Julho de 1995, passado para CD em Fevereiro de 1996, inteiramente realizado com teclados Roland JV-90 e Yamaha PS-S-680, e recurso ao programa de computador Korg Audio Gallery.
Para trás ficaram o baixo eléctrico, o violoncelo e o vibrafone, instrumentos nos quais se notabilizou ainda na década de 60 com o primeiro grupo de “free music” português, os Plexus, do qual também fez parte o violinista Carlos Zíngaro. Mais tarde, Celso de Carvalho marcou presença em sete álbuns da Banda do Casaco e recentemente foi visto a acompanhar a cantora Amélia Muge na sua última digressão.
destes 30 exemplares prensados, fica a esperança de que alguns cheguem às mãos de quem eventualmente possa estar interessado em editar este trabalho. Para já, não existe qualquer certeza, mas apenas um interesse vago manifestado por pessoas como o engenheiro de som José Fortes ou Nuno Rodrigues, da MVM, antigo companheiro de Celso na Banda do Casaco. “É o meu manifesto, para mostrar que estou vivo e a fazer coisas”, desabafa Celso de Carvalho.
Problemas de saúde atrasaram a distribuição de “Celsianices”. “Um ‘bad timing’ absoluto”, agravado por dificuldades com o texto do livrete, com um desenho da autoria do próprio Celso quando tinha cinco anos. Os temas de “Celsianices” abrangem um período compreendido entre 1972 e 1995, tendo a maioria sido composta nos últimos quatro anos. “É um tipo de composições que nunca consegui meter nos Plexus nem na Banda do Casaco porque não se adaptavam muito bem. Ficaram sempre na prateleira. “Por feitio ou por ter uma vida muito ocupada, a sua música foi sendo adiada, em termos de projecção pública. O computador surge como uma maneira de se autonomizar, sem que tal implique que Celso tenha esquecido as suas raízes, pop e jazzísticas. “Tento fugir ao som que eles me impingem no programa, fazendo, por exemplo, sobreposições várias, alterações de timbre ou glissandos com o botão de ‘portamento’, equivalentes ao que faria no violoncelo.”
Essa abordagem orgânica do som é uma das características mais interessantes de “Celsianices”, álbum nem sempre fácil mas sem dúvida preocupado em escapar ao exercício de estilo e ao hermetismo, evidenciando uma espécie de “swing” electrónico que se vislumbra em músicos como Wayne Horvitz, teclista e companheiro de longa data de John Zorn, ou nos Weather Report, que Celso refere a propósito de “Ah, bom”. O tema de abertura, “Figurante da vida”, inspirado pelos Genesis dos anos 80, entraria facilmente nas rotas do éter radiofónico. “Celsianices” cria ainda uma aura autobiográfica, em temas rotulados como “Celsinho” e “Megacelso”. “Não é narcisismo”, garante o autor, mas apenas uma reflexão em torno de uma vida, desde a infância, vocacionada para a música, desde a filtragem de melodias ouvidas em criança, em “Celsinho”, a um dos primeiros temas compostos e gravados digitalmente, “Megacelso”, onde se concentram, quase até à saturação, sons e direcções musicais díspares. “Celsianices” inclui-se no grupo dos não alinhados da música portuguesa. Cabe aos ouvidos inteligentes da indústria fazerem-no chegar aos ouvidos inteligentes do público. A música isenta de compromissos exige-o.

Tim Tim Por Tim Tum Na Sua Estreia Discográfica

05.12.1997
Tim Tim Por Tim Tum Na Sua Estreia Discográfica
Homens Com O Centro Na Bateria

“Diálogo de Baterias” é o álbum de estreia dos Tim Tim por Tim tum, quarteto de bateristas formado por José Salgueiro, Acácio Salero, Alexandre Frazão e Marco Franco. Quem assistiu ao seu concerto realizado na Primavera passada no CCB terá reparado na forte componente cénica e lúdica do grupo, algo impossível de passar para uma gravação. A questão foi contornada com o recurso a uma faixa interactiva em CD-ROM para PC-Windows que inclui imagens de actuações ao vivo do grupo, Às quais se acede através de uma espécie de jogo.
A oportunidade para a gravação do disco surgiu na altura em que se encontrava em Portugal o baterista norte-americano Jim Black – acompanhante habitual do contrabaixista português Carlos Bica e músico de créditos firmados na cena jazzística internacional -, convidado para um “workshop” com os bateristas dos Tim Tim. Foram juntos para o teatro da Malaposta, onde estiveram dois dias a trabalhar. “Senti que havia ali uma forma espontânea do que estava a acontecer e pedi os meios para gravar”, explica José Salgueiro, principal força impulsionadora deste projecto único em Portugal. “gravou-se como se grava um disco de ‘jazz’, um disco de ‘takes’, tocado em tempo real com o técnico de som junto a nós, com a mesa e os gravadores na borda do palco. Criámos um ambiente, carregámos no “rec” [“record”, gravar] e estava a andar.”
Disco de bateristas, por oposição a um disco de percussionistas, “Diálogos de Bateria” constrói-se a partir de um respeito mútuo entre todos os músicos participantes e da sua capacidade para se “ouvirem uns aos outros”. “Não tentamos sacar malhas uns aos outros”, garante José Salgueiro, para quem “Tim Tim por Tim Tum é igual a comunicar”. Representou ainda a possibilidade de explorar um instrumento, a bateria, do qual andara arredado nos últimos tempos. “Sempre fui baterista, toquei bateria nos Trovante durante oito anos. Depois, quando o grupo acabou, houve uma altura em que comecei a ser requisitado como percussionista. De repente dei por mim sem trabalho na bateria”, diz José Salgueiro, baterista de gema mas que nos últimos anos se tem notabilizado como percussionista em grupos como os O Ó Que Som Tem, de Rui Júnior, que abandonou recentemente, ou nos Gaiteiros de Lisboa.
“Diálogo de Baterias” tem sabor a “jazz”. Alimentado pela improvisação. Um dos temas, “um verdadeiro diálogo de baterias, sobre um ritmo típico do Max Roach”, é dedicado a este baterista, uma das lendas vivas do jazz que, de certa forma, foi também responsável pela génese do grupo. “Fiz um ‘workshop’ com ele e o seu grupo, só de percussionistas, os M’Boum, em Barcelona. Foi um estalo. a experiência repetiu-se em Portugal, na Gulbenkian, desta feita sem o grupo, e foi aqui que se decidiu fazer a coisa com músicos portugueses. O Max Roach falou connosco e pôs-nos a tocar, dando-nos pistas musicais, mais do que ensinando-nos pormenores técnicos. Os Tim Tim germinaram nessa altura na minha cabeça.”
No horizonte do grupo perfila-se a hipótese de realização de uma série de espectáculos no estrangeiro. “Há imenso espaço para os Tim tim”, diz José Salgueiro. “Para já, começámos a trabalhar com a companhia de dança do Paulo Ribeiro, na mesma peça de percussões com as mãos e o corpo que fizemos no CCB, só que agora também dançamos, eu e o Marco Franco.” Além disso, já existem contactos no Brasil, Bélgica e talvez nos Estados Unidos.
Neste momento, além dos Tim Tim por Tim Tum, José Salgueiro reparte a sua actividade pelos Gaiteiros de Lisboa, pelo projecto “Suite da Terra”, com Carlos Barreto e Mário Delgado, uma tentativa de recriação original da música tradicional, “com linguagem de improvisação”, que sairá proximamente em disco, e pelo quarteto de João Paulo Esteves da Silva, com o qual irá também gravar em breve. Quando chegar a Expo-98, José Salgueiro terá em mãos espectáculos com os Tim Tim, com os Gaiteiros e com João Paulo Esteves da Silva, além de um outro girando em torno do adufe. “É um instrumento sobre o qual, curiosamente, não percebo muito. Vou ter que pesquisar para fazer um espectáculo de percussão em que o adufe seja a estrela.” “Já tenho uma agenda nova e ando a ver se consigo conciliar estas coisas”, desabafa com satisfação José Salgueiro, um músico para quem o ritmo é uma paixão.