Estávamos receosos à partida. Sim, sim, de quem alinhou no passado com Jah Wobble, esse mamute do baixo, são sempre de esperar os efeitos nefastos da sua influência. Sejamos directos: a ameaça de um nome, nós pusemos-lhe um, a temível, a horrenda, a tenebrosa “etno seca”. Foi, pois, com as mãos trementes que pusemos a rodela a girar.
Espanto! De “seca” nem um traço. “Halim” dá, pelo contrário, uma irresistível vontade de dançar, levando de vencida todas as resistências. Assumindo por inteiro as suas raízes árabes, Natasha investiu na sensualidade da sua voz, rodeando-se de programadores imaginativos para tirar o máximo partido desta insinuante aproximação “etno tecno” à música “rai”. A cadência vai abrandando imperceptivelmente à medida que as faixas se sucedem, emergindo então a faceta mais melancólica da música árabe, na qual Natasha Atlas se mostra ainda mais cativante, até ao momento culminante em que o futuro toca nas raízes, quando a cantora se faz acompanhar pela Orquestra de Essama Rashad, no tema composto por este, “Ya albi ehda”.
Brava Dança Dos Heróis
“Paixão – O Melhor Dos Heróis Do Mar” traz de novo à baila o nome de uma das melhores e mais importantes bandas de sempre da pop nacional. Com as lacunas inerentes ao facto da colectânea apenas contemplar o material gravado pelo grupo entre 1981 e 1985 para a Polygram, deixando de fora o álbum “Macau”, mas devolvendo intactas as características que ainda hoje são sinónimo de desafio e originalidade.
Na época em que o grupo de Pedro Ayres Magalhães, Rui Pregal da Cunha, António José de Almeida e Carlos Maria Trindade, surgiu, escassos oito anos decorridos sobre a revolução de Abril, houve quem lhes chamasse “fascistas” por agitarem bandeiras com a Cruz de Cristo e cantarem canções como “brava Dança dos Heróis”. Então, como hoje, era difícil ser-se português para além das conveniências “progressistas” e propagar uma noção mais profunda da história de Portugal, com base nos mitos e numa tradição de séculos. Mas os Heróis do Mar, mais do que ideólogos, foram um dos primeiros grupos a trazer para a música portuguesa um conceito estético que passava pelo espectáculo, a moda, a poesia e uma música que, passados mais de 20 anos, continua a soar moderna.
Pedro Ayres de Magalhães, letrista, mentor e baixista da formação original, recordou para o Público algumas das peripécias e conceitos inerentes a essa aventura.
On The Road
“Levávamos uma vida de rockers, de aventureiros. Nunca tive férias nos últimos 18 anos. Ser rocker é escrever canções, viajar com elas. Escrever na estrada, colher impressões dos lugares e das pessoas, abrir-se às circunstâncias. Era o ‘on the road’ Kerouakiano…”
Ideia da Década
“Embora tivéssemos sido considerados uma das dez melhores bandas da Europa, pela “The Face” e pela “Rock & Folk”, e a “Actuel” nos tivesse considerado uma das cem melhores ideias da década, por cá nunca tivemos dinheiro ou apoio, nem para a casa, nem para o carro. Nem para nada…”
O Que É Que Se Podia Fazer?
“Os Heróis do Mar, além da música, construíram uma imagem. Mas as massas não perceberam o seu significado. Nos anos 80 não existia uma cultura do vídeo, do filme rock, as pessoas iam aos nossos concertos e não sabiam o que haviam de fazer. Havia apenas uma minoria que dançava”.
Celebração
“Sentíamos a necessidade de dotar o país de um reportório. De o conhecer, de falar dele, de ter uma opinião sobre o que era melhor para Portugal. Encontrámos uma forma original de celebrar a Nação”.
Amor Sem Retribuição
“É preciso não esquecer que, além do “Amor”, um êxito na rádio sem precedentes na música portuguesa de então, e vendeu cerca de 50 mil exemplares, os nossos discos acabavam por soar um bocado complexos. Não estou a falar de vanguardismos, mas de serem demasiado densos – informação a mais para aquilo que era frequente aceitar-se num disco de música popular em Portugal. Éramos um grupo elitista. Não nos podíamos comparar às vendas do Rui Veloso ou dos Trovante.”
Aprender Com A Faena
“Toda a gente que faz música em Portugal teria muito a inspirar-se no que a gente fez, tínhamos muitas soluções a nível das influências musicais, da construção, das orquestrações, até das próprias soluções técnicas de gravação. Também da estruturação do discurso cantado e das palavras que foram escolhidas para a grande Faena dos Heróis do Mar. Foi a nossa liberdade que permitiu a grupos como os Delfins, Pólo Norte ou Santos e Pecadores, conseguirem imaginar-se como tal, como autores de música em Portugal”.
Estação de Serviço
“Havia ministérios dentro do grupo. O Rui Cunha era o cérebro da imagem. Ele e o Paulo eram os cérebros da roupa e da animação ‘anglo-americana’. O Tó-Zé, com a experiência que trazia dos Tantra, era um génio da organização de concertos num país onde não havia produção de concertos. O Carlos Maria era um génio da música, como ainda hoje é. Eu tinha a determinação, uma permanente disponibilidade, estava lá quando não estava mais ninguém. Eu talvez fosse apenas a personificação de um serviço aquela organização”.
O Crepúsculo dos Ícones
“Houve gente nalguns meios de comunicação apostada em confundir. Um movimento determinado a transformar os Heróis do Mar no ícone de um regresso da Direita, a associar-nos aos paraquedistas de Tancos, aos comandos do Jaime Neves e trinta por uma linha. Depois vim a saber onde é que isso foi combinado, porque foi efectivamente combinado, com votos a favor e votos contra. Durante pelo menos dois anos não conseguimos ir tocar a Sul de Setúbal, no Alentejo, porque éramos ‘fascistas’. Chamaram-nos fascistas, a putos sem protecção nenhuma que apenas queriam reclamar uma herança histórica, numa altura em que nem na palavra ‘pátria’ se podia falar. Lançavam-nos: ‘Querem é a herança do Salazar!’, quando o que pretendíamos era a criação de um showbiz civilizado. Fazíamos tudo como uma companhia de ciganos independente.”