Arquivo mensal: Setembro 2009

No Noise Reduction – On Air

19.12.1997
No Noise Reduction
On Air (7)
Ed. e distri. Ananana

LINK (“Way Out – New Music From Portugal Vol.1” – Parte 1)
LINK (“Way Out – New Music From Portugal Vol.1” – Parte 2)

Por detrás das práticas de experimentação dos No Noise Reduction, um trio formado pelos desestruturalistas Rafael Guitarra e Paulo Feliciano, está presente um conceito estético que passa pela manipulação (leia-se “controlo”) do ruído e pela pretensão da sua recontextualização como forma de música autónoma. Se este conceito participava já das monatgens sonoras levadas a cabo no trabalho anterior da dupla, “The Complete no Noise Reduction”, marcado por experiências afins de nomes como os Negativland ou Steve Fisk, este novo “On Air” explora o universo digital através da utilização de brinquedos electrónicos, cujos módulos de produção de som são filtrados, modulados e sequenciados pela guitarra ou pelos próprios dispositivos de gravação. Encontramos o mesmo tipo de experimentação no primeiro álbum a solo de Wim Mertens, “For Amusement Only”, no qual o compositor “entrava” nos processadores electrónicos de máquinas de “flippers” para criar uma espécie de novo jogo que subvertia de forma irónica as regras do minimalismo. No caso dos No Noise Reduction trata-se antes da criação de um espaço vibratório correndo “no ar”, um “continuum” de modulações que ostentam as marcas do artificialismo, funcionando, neste caso, como subversão do ambientalismo. “On Air” trabalha com a respiração de máquinas pequenas, com as suas brincadeiras de seres sintéticos, com as suas trocas e perdas de energia, com os ritmos próprios dos seus circuitos electrónicos. O primeiro álbum de “pós-rock” nacional, enquanto experiência limite em torno de um conceito totalmente alheio à música popular.

Vários – Shake Sauvage

26.01.2001
Vários
Shake Sauvage
Crippled Dick Hot Wax, distri. Symbiose
7/10

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Subintitulado “French Soundtracks, 1968 – 1973”, “Shake Sauvage” insere-se numa segunda vaga de “easy listening” de proveniência fílmica – com o “western spaghetti” italiano, o “filme negro” americano e os dramas existenciais “rive gauche” franceses em destaque – que tem devolvido verdadeiras pérolas “kitsch”. Martinis e órgão Hammond, sexo e funk, cigarros e orquestrações espampanantes, collants e psicadelismo, beijos e maraccas, cadáveres no Sena e Afro Beat, romance e vibrafones, camas desfeitas e “lounge” para mil e um cocktails de compositores como Francis Lai, Michel Magne e Vladimir Cosma. Tem o apelo das coisas que passaram, o perfume do “demodé”, o ritmo, por vezes irresistível, de uma dança no terraço da imaginação.

John Martyn – Solid Air (conj.)

26.01.2001
Reedições

John Martyn
Solid Air
Island, import. Lojas Valentim de Carvalho
8/10

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Todd Rundgren
A Wizard, A True Star
Essential, import. Lojas Valentim de Carvalho
9/10

Sonhos de Ar e Mescalina
Dois excêntricos, o inglês John Martyn e o americano Todd Rundgren, para dois clássicos de 1973: “Solid Air” e “A Wizard, a True Star”. A pop, esbatida pela folk e pelo jazz, no caso do britânico. Ainda a pop, mas também a soul e os R & B, infectados e coloridos pelas substâncias alucinogénicas, no caso do americano.
Incluído na lista de preferências de Gilles Peterson, recolhidas no álbum “Worldwide”, está “Solid Air”, do cantor e compositor John Martyn, referência incontornável do jazzfolk inglês dos anos 70 e hoje um dos raros trovadores da pop ainda em actividade.
“Solid Air” é, juntamente com o anterior “Bless the Weather” e o posterior “Inside Out”, um dos instantes mágicos deste músico nascido da cena folk britânica sob a égide de Hamish Imlach e que, com os Pentangle, aproximou as linguagens da folk e do jazz, tendo ainda assinado, com a sua então mulher Beverley Martyn, dois enigmáticos álbuns de iluminuras em formato de canção, “Stormbringer” e “The Road to Ruin”.
Reeditado com uma remasterização e apresentação soberbas, “Solid Air” é o retrato, paradoxalmente poderoso, de uma personagem cuja fragilidade se viria a revelar no envolvimento progressivo com o álcool e as drogas, retrato tirado quase em simultâneo com o do seu irmão espiritual, Nick Drake, de quem Martyn foi amigo e a quem dedicou o título-tema, onde canta: “You’ve been taking your time and you’ve been living on solid air. You’ve been walking the line…”. Mas enquanto Drake naufragou na sua visão, John Martyn deteve sempre o controle, pelo menos da música, e é esse domínio formal que confere distinção e solidez aos seus álbuns, em lugar da dispersão, marcada pelo génio, é certo, que caracterizavam os do seu malogrado amigo.
Alternando vocalizações folky e correntes de ar inflamadas, a voz de Martyn era, ao contrário do registo implosivo de Drake, de uma maleabilidade acrobática, e é nesta capacidade de se recriar em cada canção que o jazz se infiltra, conferindo a “Solid Air” uma fluência e uma força que em “Inside Out” dispensaria em definitivo, no reforço da componente instrumental, quaisquer reminiscências folk. À voz e ao discurso rendilhado da guitarra filtrada por efeitos de eco de Martyn, contrapões Danny Thompson, contrabaixista dos Pentangle, firmeza e elasticidade rítmica, a permitirem ao vibrafone de Tristan Fry, ao sax do freejazzman Tony Coe e aos teclados de Rabbit, o desenho de tapeçarias de intricado recorte, num álbum que conta ainda com os desempenhos de Dave Pegg e Dave Mattacks, dos Fairport Convention, e uma arrebatadora interpretação ao vivo de “I’d rather be the devil”.
O diabo voltou a fazer das suas, transformando Hollywood em gruta de cerimónias de iniciação aos sonhos do peiote. E assim, ao quarto álbum, Todd Rundgren flipou. Depois do sucesso comercial de “Something/Anything” nada fazia prever o mergulho de Todd Rundgren, antigo guitarrista dos Nazz, na loucura. Mescalina, psilocibina e peiote constituíram o cocktail de drogas naturais usadas pelo guitarrista, de cuja ingestão resultaram, explica, a iluminação mental, danos permanentes na personalidade e a capacidade de conseguir ouvir o seu próprio sistema nervoso a funcionar. Seria este processo de procura interior, que levou ao reconhecimento da realidade como “mera projecção mental”, a dar origem à gravação de “Wizard, a True Star” (agora com reedição remasterizada), inflexão de Rundgren na electrónica (levada ainda mais longe em “Initiation”, de 1975), labirinto onde se cruzam o glam cósmico, a soul, o jazz, música de desenhos animados, guitarra a jacto, R&B e electroacústica experimental, envoltos na aura “vaudeville” de um Frank Zappa, em canções que anteciparam um quarto de século o circo dos Mr. Bungle.