Terramoto. A música dos “pós-rockers” Rome é um verdadeiro abalo telúrico de grau máximo na escala de Richter. “Rome” tem a mesma força concentracionária do primeiro e decisivo álbum dos Laibach, “Nova Akropola”, a psicose que contamina o lado mais implosivo dos Einstuerzende Neubauren e a brutalidade de carnes em convulsão de Elliott Sharp ou dos Art Barbeque. Uma energia física, muscular, criada pelos “samplers” de Le Deuce, o baixo de Rik Shaw e a bateria e percussões graníticas de Elliot Dicks. “Rome” é, até à data, um dos paradigmas mais brutais do pós-rock, frente ao qual o próprio John McEntire se encolheu, já que limitou aqui a sua participação à produção do tema “Radiolucence (version)”. (Abramos aqui um parênteses para dizer que McEntire representa, hoje, para o movimento pós-rock de Chicago, o mesmo que Conny Plank representou para o “krautrock” nos anos 70). E, já que estamos com a mão na massa, lá vai a referência “krautrock” obrigatória: Conrad Schnitzler, da fase cataclísmica dos Kluster. (7)
Em 1983, as autoridades da Eslovénia, então parte da federação jugoslava, proibiram os Laibach de aparecerem em público. No cerne da polémica, estava a designação do grupo, “Laibach”, que foi o nome dado à cidade de Ljubljana durante a ocupação nazi, em 1943. Censurados, tornaram-se na “banda cujo nome não se podia pronunciar”. Em Dezembro do ano seguinte, o grupo decidiu actuar em Ljubljana, organizando um espectáculo onde não se fazia qualquer menção ao seu nome. O público acorreu e a ocasião tornou-se histórica. O presente álbum é o documento ao vivo desse acontecimento, incluindo ainda excertos de concertos em Zagreb e no Atonal Festival de Berlim.
Era o período da brutalidade panfletária e da revisão ideológica da música industrial que, na época, chocaram. Mas os Laibach traziam consigo, além do metal, um cheiro de ameaça, provocada pela aura de ambiguidade que sempre os rodeou, em conotações com o nazismo, onde era difícil separar a denúncia da apologia camuflada. Trata-se, pois, da fase coincidente com a do álbum onde o clamor se faz ouvor com maior nitidez e eficácia, o assustador “Nova Akropola”, obra emblemática da estética totalitarista dos Laibach.
Mesmo aqueles que, ao contrário de nós, não consideram Peter Hammill, Deus (o outro é John Cleese…) devem-se ajoelhar aos seus pés e agradecer a quem, finalmente, decidiu escrever a bíblia que, a partir de agora, permitirá aos neófitos iniciarem em condições o culto aos Van Der Graaf Generator e, aos discípulos de sempre, a consulta condensada dos ensinamentos do mestre.
E dizemos “em condições” porque a reedição em CD da discografia de toda a primeira fase do grupo bem como os primeiros álbuns a solo de Hammill, gravados nos anos 70 para a Charisma, por enquanto a única disponível é, nalguns casos, execrável. Obras-primas como “H to He, Who Am the only One” ou “Pawn Hearts”, da forma como foram cuspidas para o mercado em versões “nice price”, sem a mínima qualidade sonora, são autênticos atentados que devem ser evitados a todo o custo, quer pelos que conhecem a música do grupo através das gravações originais em vinilo, que rpelos interessados em mergulhar num dos universos musicais e poéticos mais fascinantes de sempre da música popular.
“The Box” não está, contudo, isento de defeitos. Mas as virtudes superam alguma frustração, sobretudo de quem estaria (e ainda está!) à espera das reedições individuais dos álbuns do grupo compreendidos entre a estreia de 1969, “The Aerosol Grey Machine” (apesar de tudo bem tratado pela actual reedição na Repertoire) e “The Quiet Zone/The Pleasure Dome”, de 1977, bem como os trabalhos a solo de Hammill compreendidos entre “Fool’s Mate” (1971) e “Sitting Targets” (1981), num total de dezoito álbuns de estúdio.
Para começar, o som é, nalguns casos, simplesmente soberbo, na linha do que já se podia escutar na recente súmula/colectânea “An Introduction from the Least to the quiet zone”. É todo um mundo sonoro que ressurge na sua pureza e energias originais, com os sons de baixo (da guitarra de Nic Potter ou dos pedais de órgão de Hugh Banton), o sax lancinate de David Jackson e a bateria primordial de Guy Evans a explodirem o palco sonoro e a nitidez dos detalhes a revelar finalmente toda a riqueza dos arranjos. Eis o principal trunfo de “The Box”.
Arrumado em quatro módulos temáticos – “Bless the Baby Born Today”, “The Tower Reels”, “One More Heaven Gained” e “Like Something Out of Edgar Allan Poe” (o escritor ingles é uma das fixações de PH que, já por duas vezes, encenou em forma de ópera “The Fall of the House of Usher”) o alinhamento, escolhido e supervisionado em conjunto com a Virgin pelo próprio Peter Hammill, não é, contudo, satisfatório. A não ser que, na manga, esteja a tal ansiada reedição álbum a álbum.
Assim, apesar da inclusão das versões originais, comdesteu para a apresentação integral do “magnum opus” “A Plague of the Lighthouse Keepers”, do álbum “Pawn Hearts”, ou da totalidade de “Still Life”, proliferam sessões efectuadas para a BBC, com temas antigos do primeiro álbum e, o que já se comprende menos, a inclusão de versões ao vivo recolhidas de um espectáculo de 1975 em Rimini, Itália, onde a música dos VDGG provocava, na época, reacções de histeria. Se a intenção era mostrar a força do grupo ao vivo, tal não era necessário, dada a existência de mais do que um álbum com este formato, incluindo o duplo “Vital”.
Deixa igualmente algo a desejar o livro que acompanha a edição. Mesmo sabendo-se da recusa de Hammill em explicar o “significado” das canções, sabem a pouco a cronologia, apesar de extensa, ou os textos individuais assinados por cada um dos elementos do grupo, interessantes sobretudo de um ponto de vista técnico e factual.
Seja como for, e fora da óptica apaixonada do fã incondicional, “The Box” é uma obra monumental. Para quem pela primeira vez enfrentar a música dos Van Der Graaf Generator, o desafio e o estímulo são totais. Cai por terra a imagem preconceituosa – metodicamente construída pelos que, em absoluto, o desconhecem – do “progressivo”, para revelar uma música que até hoje conserva intacta a sua glória. Peter Hammill é um dos maiores poetas, cantores e músicos ingleses vivos (“None of the Above”, do ano passado, aí está para, uma vez mais, o confirmar) e os Van Der Graaf Generator uma das mais formidáveis máquinas de música que a música popular já conheceu. Poderosa como uma locomotiva, alucinatória como um saco de LSD, brilhante como uma estrela, tocante como o primeiro sorriso de um recém-nascido, tenebrosa como a morte, infinita como o Cosmos. Atrevam-se a tocá-la.