Arquivo mensal: Setembro 2009

Patricia Dallio – D’où Vient l’ Eau Des Puits?

14.11.1997
Desta Água Não Beberei
Patricia Dallio
D’où Vient l’ Eau Des Puits? (8)
Musi, import. Planeta Rock

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“De onde vem a água dos poços?” pergunta a teclista dos Art Zoyd no seu quarto álbum a solo, depois de “Procession”, “Champ de Mars” e “La Ronce n’est pas le Pire”. A questão pode parecer retórica mas deixa de o ser quando tomamos conhecimento da temática do disco, a poluição ambiental causada pela crescente acumulação de materiais radioactivos no subsolo do planeta. Assim, a totalidade dos textos é constituída por testemunhos verídicos, de cariz ecologista, de pessoas e instituições que lutam contra a política e os interesses internacionais em jogo nesta matéria. A alinhamento alterna sequências instrumentais e interlúdios textuais, acentuando o carácter de manifesto. Aquelas cultivam o neo-classicismo atravessado por guitarras eléctricas em agonia, referências étnicas várias e o ocasional ar de “bal musette” do fim dos tempos que lhe é conferido pelo acordeão de Michel Besson, um dos convidados do álbum, juntamente com Fabienne Ringenbach, no violoncelo. Neste particular assume particular relevância um tema como “Hors les Gonds”, que junta a religiosidade apocalíptica de Olivier Messiaen com os “samplers” sinfónicos dos Art Zoyd e o clamor delirante do planeta inteiro. “Tour de Force” são ainda as três partes em que se divide “Humanité cherche futur”, libelo dramático de cores subterrâneas, mistura de sangue, noite e labaredas de revolta, entre palavras declamadas, torcidas pela tecnologia, apelos ambientais, um piano em busca de luz e um violoncelo que parece querer enterrar a derradeira réstea de esperança. A voz de uma criança (“Jeanne-Vera”, a fazer lembrar a “Vera C” de Richard Pinhas com os Heldon) e a ironia final de “Tout Va Bien” (“Dizem os especialistas: Não há nenhuma razão para nos inquietarmos… Tudo está bem… A central de Tchernobyl é a mais segura da Ucrânia… Não há nenhuma razão para nos inquietarmos… Tudo está bem…”) projectam um cenário que infelizmente não faz parte de um filme de ficção.

Turn On – Turn On (conj.)

07.11.1997
Electrónica
Enfermagem Planetária
Ligar “on”. “Turn on”. Todos os circuitos “ok”. Sequenciadores, monitores, sintetizadores – máquinas em movimento. Esta semana o “laser” varre uma série de discos de música electrónica de vários estilos e quadrantes. Do “easy listening” cerebral à respiração da Terra. O Planeta em busca de uma cura.

Além da Califórnia, o infinito. O radiotelescópio de Steve Roach continua assestado aos consfins da galáxia, lá onde o silêncio reina, emitindo para a Terra os seus sinais anteriores à própria Criação. “On This Planet” é o mais recente trabalho deste prolífico compositor californiano erradamente conotado, em alguns sectores, com a “new age”. Autor de obras importantes como “western Spaces” e “desert Solitaire”, ambas com a colaboração de Kevin Braheny, “Dreamtime Return”, “World’s Edge”, “Kiva” (com Michael Stearns e Ron Sunsinger), “Well of Souls” (com Vidna Obmana), “Halcyon Days” (com Stephen Kent e Kenneth Newby) e as duas colaborações com Robert Rich, “Soma” e “Strata”, Steve Roach deu origem, mais recentemente, a uma derivação da “ambient music” a qual recebeu a designação de “sombient”, ou “Ambient noire”, através de um álbum seminal, “The magnificent Void”. A “sombient”, enquanto protótipo de uma nova categoria musical, tem paralelo com a “discreet music”, de Brian Eno, na mesma medida em que estabeleceu novas regras e paradigmas estilísticos.
“On This Planet” aterra outra vez no plantea, tomando como ponto de partida uma abordagem “ao vivo” do som, com posterior recriação em estúdio. Em termos estéticos e de uma filosofia que, sem preconceitos, poderemos designar de ecologista, está mais próximo de “World’s Edge” e dos dois álbuns gravados pelos Suspended Memories (Roach com o mexicano Jorge Reyes e o espanhol Suso Saiz) do que das mais recentes incursões na “sombient”. Predominam os sons cardíacos da Terra: didgeridoos, pedras, potes de água percutidos, flautas pré-hispânicas, em relação harmoniosa com os samplers, os sintetizadores analógicos e digitais e os sequenciadores. Ouvem-se trovoadas, rios de lava, vento e chuva, a ondulação dos vastos oceanos, reflexos de estrelas na superfície calma de um lago. Fogo e pedra, pulsações surdas de um planeta que ora repousa na frágil ondulação de uma flor, ora se agita em violentas convulsões. Temas como “Heart of the tempest”, “Trilobite”, “Cloud watching with the toolmaker” e “A darker star” funcionam como símbolos da interactividade do Espírito humano com a Natureza, dando a escutar os ritmos primevos da vida, em ligação estreita com o Cosmos. Que esta ligação se faça também através da tecnologia electrónica mais sofisticada, eis uma das maravilhas de uma música que verdadeiramente nos religa à Totalidade (Fathom, distri. Strauss, 8).

turnion

Do fundo dos oceanos, subamos à superfície para um banho de espuma. Para tal, nada melhor que o “jacuzzi” musical dos Turn On, projecto de Tim Gane e Andy Ramsay, dos Stereolab, com Sean O’Hagan, dos High Llamas, onde a vertente “easy listening” dos autores do recente “Dots and Loops” se sobrepõe a quaisquer intenções metodológicas de maior fôlego. “Turn On” são 29 curtos mas limpos minutos de borbulhar e “glissandos” analógicos (com uma única intervenção vocal de Laetitia Sadier, em “Ru Tenone”) em que os Turn On propõem a sua própria música de fundo para ouvir na Estação MIR, transformando a “space age batchelor pad music” de Esquível num bailado espacial festivo. É como se os Can se tivessem metamorfoseado numa borboleta e voado dentro de uma bolha de champanhe. Ouçam um tema como “Glangorous” e flutuem nos sonhos da vossa cápsula pessoal. (DuophonicSuper’45, import. Symbiose, 7)

A leveza do mais recente trabalho de Pete Namlook (correspondente ao 758º álbum editado na Fax, no mês de Setembro de 1996), desta feita em colaboração com Move D, vulgo David Moufang, é de tipo diferente da dos Turn On, uma leve fogagem na epiderme servida com o pomposo título de “Exploring The Psychedelic Landscape”. Como acontece com a generalidade dos álbuns da Fax, a música parece ter sido gerada a partir de um único “take” e durante uma única sessão de gravação, dando ideia de que os músicos nem sequer se terão dado ao trabalho de mudar mais do que uma ou duas vezes os registos dos sintetizadores. Psicadélica não é de certeza, e de exploratória tem muito pouco, esta “lanscape” que não é tecno, nem “trance”, nem ambiental, onde os sons, embora agradáveis, desde muito cedo esbarram na monotonia de programações preguiçosas e em timbres electrónicos já mil e uma vezes ouvidos em anteriores e bem melhores trabalhos de Namlook. (Fax, import. Symbiose, 5)

Finalizamos com uma ligação a máquinas mais ameaçadoreas e ruidosas. Os neurónios vibram ao contacto com os circuitos da fábrica electrónica dos To Rococo Rot, projecto dos irmãos Robert e Ronald Lippok com Stefan Schneider, também mentor dos Kreidler. Depois de “Veiculo”, chega ao mercado nacional o disco de estreia desta banda alemã, singelamente intitulado “CD”. Mais ainda do que em “Veiculo”, torna-se evidente a filiação dos To Rococo Rot não só no minimalismo fabril dos Cluster e, em particular, no abstraccionismo matemático característico da obra a solo de um dos seus elementos, Dieter Moebius, como também nos exercícios fragmentários de todoa a primeira fase da discografia de Conrad Schnitzler, membro fundador dos Kluster (pré-Cluster) e dos Tangerine Dream. É por aqui que o pós-rock tem terreno livre à sua frente para avançar, numa música que dispensa a tentação do programático para se abandonar ao prazer da sensação pura. (Kitty-Yo, import. Ananana, 8)

Para os adeptos da “new age” de papel (reciclável), há a registar ainda a chegada ao mercado nacional de novas referências do catálogo Hearts of Space, outrora um excelente selo de “space music” (experimente-se a audição dos primeiros álbuns de Constance Demby, Michael Stearns, Kevin Braheny, David Lange ou Robert Rich). “Nomad”, de Paul Sauvanet, envernizamento digital de uma música pretensamente com raízes árabes, “Bridges”, de Oysten Sevag, tecno ambiental para uso em casas de banho de escritório, e “Klezmer Soul”, de Kol Simcha, música “klezmer” em registo de variedades, recomendam-se talvez apenas aos demonstradores de alta-fidelidade.

Biosphere – Substrata

04.06.1997
Biosphere
Substrata
ALL SAINTS, DISTRI. MVM

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LINK

Com “En Trance”, faixa do álbum anterior dos Biosphere, “Patashnik”, Geir Jenssen, antigo elemento do grupo norueguês Bel Canto, assinou um dos paradigmas do “Ambient techno”. Um pequeno “sample” de guitarra acústica (ou uma guitarra real?) processado em repetição infinita conseguiu ser mais eficiente do que toda a maquinaria pesada a levar o cérebro aos confins da realidade cósmico-virtual. O novo álbum, gravado em cas de Geir, no interior da Noruega, em pleno Círculo Polar Ártico, sai na mesma editora dos irmãos Eno e acentua o lado mais atmosférico da música dos Biosphere, pondo de parte quaisquer intrusões rítmicas. Fazendo jus ao local de gravação, é uma música fria e distante que evoca enormes extensões de branco contra o azul cortante do céu, como que congelando as emoções no plano fixo de um ecrã. Nada macula esta passagem de sons electrónicos sem alma pelo éter. “Substrata” é um posto deobservação localizado a grande altitude, por onde não passam as paixões humanas. Interferências ocasionais de vozes longínquas, À deriva numa emissão de rádio fantasma, dão a ilusão de poder existir neste “iceberg” uma espécie de vida surreal. Um cacau quente, por favor! (7)