Arquivo mensal: Junho 2009

Orbit Experience – Space Beat (conj.)

13.10.2000

orbitexperience

Orbit Experience
Space Beat (7/10)
Netzer
Pressing (6/10)
Pauls Musique, distri. Symbiose
Orbit Experience e Netzer são dois novos projectos oriundos da Alemanha que têm a uni-los a presença em ambos de Markus Kössler (baixo) e Markus Birkle (guitarra e ruídos). Divergem, no entanto, na orientação musical. Em “Space Beat” confluem coordenadas como o pós-rock (como ficou tipificado na sua fase já degenerativa), o drum ‘n’ bass e o jazz, modelados por uma estética geral conotada com a música de dança, com o trompete e o piano Fender Rhodes de Sebastian Studnitzky a encaixarem no Groove electrónico e na bateria de Flo Dauner. No longo tema de abertura, “Ddr”, não estão longe do espírito das bandas de jazz rock mainstream, com solos de guitarra de fazer água naa boca aos aficcionados do género. Mais compensdadora é a faceta demonstrada em “Orbit in Moscow” e “Freedom jazz dance”, algures entre o jazz pedestre dos St. Germain, sem “house”, e o jazz programático de Jessica Lauren. Nos Netzer é formulado um convite: “Descontraiam-se e apreciem esta viagem ao espaço sideral minimalista.” “Pressing” é, de facto, minimalista – um jazz contemplativo feito de ecos e refracções dos teclados (com o piano eléctrico de novo em destaque) sobre bases rítmicas mais complexas e subtis que as dos Orbit Experience. Jazz, paredes meias com a electrónica e, uma vez mais, com a lição de Canterbury bem estudada. “Kanzler”, “Mini loop” ou “Mailin” farão as delícias dos admiradores dos saudosos Gilgamesh e do seu já falecido pianista Ala Gowen. Ao contrário de “Space Beat”, “Pressing”, uma “gravação ao vivo com atmosfera electrónica adicional”, dá pouco jeito para dançar. O sample vocal de “Mini Loop” explica tudo bem explicadinho, inclusive a presença de “Maiden voyage” de Herbie Hancock.

The Kingsbury Manx – The Kingsbury Manx

13.10.2000
The Kingsbury Manx
The Kingsbury Manx (6/10)
Overcoat, distri. EMI-VC

thekingsburymanx

LINK [Ascenseur Ouvert! (2009)]

Publicações como o “New Musical Express”, “Melody Maker”, “Time Out”, “Q”, “Music Week”, “The Guardian”, “DJ magazine”, “The Wire” e “Sleaze Nation” embandeiraram em arco com a estreia dos Kingsbury Manx para a nova subsidiária pop da City Slang. No meio de tamanha unanimidade, fizeram-se comparações com os Beta Band e os Mercury Rev, inventaram-se bucolismos do outro mundo, “piscinas límpidas de som, tão cálido que só apetece tirar as roupas e atirarmo-nos lá para dentro”, canções “angélicas” de uma “majestosidade calma” e até que a música do grupo é capaz de “convencer o criminoso mais endurecido a tornar-se num orgulhoso cultivador de rosas”. Mais pragmático, o pessoal da editora alinha influências: Simon & Garfunkel, Beach Boys, Pink Floyd, The Association, Velvet Underground e The Byrds. Ora bem, quem são afinal estes rapazes capazes de levantar tantas ondas? São quatro, não se chamam Roger Waters, David Gilmour, Rick Wright e Nick Mason e a música que apresentam neste seu álbum de estreia é uma pop de tias, amaciada pelo espírito de banda de colégio, como só as bandas inglesas conseguem ser (estou a lembrar-me dos geniais The Monochrome Set), e de todas as influências atiradas ao ar, além dos dez segundos vocalizados “a capella” de “Hawai in tem seconds” que não chegam para se poder falar nos Beach Boys, só a dos Pink Floyd faz sentido. São canções dolentes vocalizadas nas nuvens de “Meddle” e “Wish you were here” elaboradas com a frescura e o entusiasmo dos principiantes. Guitarras, teclados e batidas calmas enchem a tal piscina com um vagar que se pode tornar hipnótico. A capa, da autoria do baixista e teclista, é psicadélica q.b. Estarei a ser mau, mas a verdade é que, se estou, não fiquei com a mínima vontade de plantar rosas.

Bryan Ferry – Another Time, Another Place (conj.)

12.05.2000
Reedições
Um Outro Tempo, Um Outro Lugar
Roxy Music
Manifesto (7/10)
Flesh + Blood (7/10)
Avalon (6/10)
Bryan Ferry
These Foolish Things (8/10)

bryanferry_another

LINK (Parte 1)
LINK (Parte 2)
LINK (Parte 3)
pwd: www.AvaxHome.ru

Another Time, Another Place (8/10)
Let’s Stick Togheter (7/10)
The Bride Stripped Bare (7/10)
Virgin, distri. EMI-VC
Os melómanos / consumidores mais compulsivos não têm mãos a medir, diante da oferta que se lhes depara, apresentando as gravações mais perfeitas ou as capas mais fiéis aos originais, dos discos reeditados dos seus ídolos. Arrumados os vinis na estante, chegou a vez de também os CD rapidamente ganharem poeira, em remasterizações que competem entre si no recorde de bits. Mas com os Roxy Music, à semelhança de outros casos, vale mesmo a pena possuir o “objecto perfeito”. Completa uma primeira fase de remasterizações dos primeiros cinco álbuns do grupo, compreendida entre “Roxy Music”, de 1972, e “Siren”, de 1975, seguiram-se os três álbuns respeitantes à última fase, “Manifesto”, de 1979, de “Flesh + Blood”, de 1980, e “Avalon”, de 1982. Pouco tempo depois chegavam aos escaparates nacionais as remasterizações, embaladas em capas melhoradas, dos cinco primeiros álbuns a solo de Bryan Ferry.
Dos três últimos Roxy Music, “Manifesto” é o trabalho que menos desmerece dos anteriores trabalhos de estúdio do grupo. O cabaré retrofuturista já fechara as portas e o glam fora definitivamente apagado dos rostos dos músicos, mas a festa não tinha ainda terminado. Continuava no casino e nos passos de uma dance music de manequins cortada ainda por alguma decadência, mas com os seus principais intervenientes, a começar por Ferry, a mostrarem-se incapazes de separar a pose da ironia. Dividido entre um “east side” e um “west side”, o som americano impunha-se através de uma soul elegante (Luther Vandross participa nos apoios vocais) que ofuscava a sofisticação e os maneirismos geniais dos cinco primeiros álbuns. “Angel eyes”, “Ain’t that so” e “Dance away” foram passados na rádio até à exaustão.
O álbum seguinte, “Flesh + Blood”, recupera as imagens das amazonas, mas perde na comparação com o seu antecessor. A energia está mais dispersa, a tensão de opostos que sempre servira de carburante para a criatividade do grupo dera lugar a uma máquina bem oleada. Mas, se “Same old scene” ou “My only love” são canções feitas para ficar no ouvido, é difícil resistir ao apelo nocturno de “In the midnight hour” e, sobretudo, à versão estratosférica de “Eight miles high”, dos Byrds.
Previsivelmente, o último capítulo da saga, “Avalon”, capitaliza em exclusivo no enfeite e no luxo dos arranjos e da produção. Álbum limpo, suave ao ouvido como cetim, o seu brilho é o de um pechisbeque bem confeccionado que procura arrancar em força com mais um “hit”, “more than this”, mas rapidamente se esgota em instrumentais de um hedonismo onde a pele dera lugar a uma película de plástico. Ah, é verdade, já circulam por aí as versões cartonadas destes três álbuns…
Bastante mais interessante acabou por ser o percurso a solo de Ferry, também neste caso, com os cinco primeiros álbuns a mostrarem-se os mais pujantes. “These foolish things”, de 1973, confirmava a faceta de “crooner” do cantor, ao mesmo tempo que o impunha como um “gourmet” apto a degustar tanto os “standards” de décadas mais recuadas (de forma infinitamente mais conseguida, diga-se de passagem, do que no recente “As time goes by”), como clássicos pop de Dylan ou dos Rolling Stones. A afectação e o exagero resultavam bem melhor do que a imagem cansada e “snob” que viria a seguir.
“Another Time, Another Place”, editado no ano seguinte, continua a mesma estratégia de versões nas quais se torna difícil distinguir a desmontagem sarcástica e a homenagem devota. Fosse como fosse, ganham colorido e um delicioso desequilíbrio canções como “Help me make it through the night” e a irresistivelmente apaixonada “Smoke gets in your eyes”, dignas de partilharem as imagens de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart.
Em “let’s Stick Togheter”, Bryan Ferry insistiu nas versões, mas desta feita de temas dos Roxy Music, como “Casanova”, “Sea Breezes”, “2HB”, “Chance Meeting” ou “Re-make / Re-model”, as quais, se não fazem esquecer o vigor e a faceta desestabilizadora veiculada pela banda, ganham porém no modo como o cantor extrai delas um licor amargo que, infelizmente, muito em breve iria perder todo o sabor.
Em 1977 o punk era rei e senhor e em “In Your Mind” Ferry não de furta a uma aproximação mais visceral ao rock. Foi o primeiro dos seus álbuns a ter honras de edição portuguesa. Em vez de um cenário de Hollywood e de idílios etílicos à beira de piscinas de champanhe, Ferry compunha agora as suas próprias canções, escudando-se por detrás de uns óculos escuros e transferindo as suas obsessões, em “All night operator”, para uma conversa telefónica – “All night operator, dial me a better line (…) Can’t you hear me talkin’ to you? Do telephones make you cry?” – com chamada a pagar no destino, por um eco de amargura.
Recebido na época como um álbum “surrealista”, “The Bride Stripped Bare” (o título é, aliás, o de uma pintura de Marcel Duchamp), de 1978, é um álbum atravessado por pulsões contraditórias (que era o que distinguia os Roxy Music da primeira fase de todos os outros grupos dos anos 70), onde o gospel, a soul, o sentimento de culpa, a passagem do tempo, a desilusão e – sempre – uma inultrapassável elegância correm por lamentos como “Take me to the river” ou pelo tradicional irlandês “Carrickfergus” antes de desaguarem – “so near, yet so far” -, uma vez mais, na solidão.