Tudo se passa com demasiada velocidade no mundo da electrónica para que alguém consiga permancer na dianteira seja do que for por mais do que o tempo da audição de um CD. Os Bridge & Tunnel, por mais rapidamente que corressem, já chegaram atrasados. “Bridge & Tunnel” tem, literalmente, toneladas de “Groove” e o cheiro a suor da electrónica “hardcore” dos Funkstörung. Misturam bem o analógico tirado do catálogo “Moog” com o compasso digital e amassam tudo no mesmo rolo compressor de um drum ‘n’ bass que em Amon tobin serve de alimento para a imaginação mas neles se fica pela mastigação (“flussabwaerts”). Em suma, estudaram a lição. O que permite aos Bridge & Tunnel irem sem problemas a outros lugares, da pop electrónica dos Mikron 64 / nova Huta, bastante mais pesadota, é verdade, e sem metade da graça (“Borough of kings”) e ao techno ambiental versão “chill out” (“Between Cities”). Já agora, não há quem elimine de uma vez por todas aquele ficheiro “som celestial”, tão pernicioso como era o som de “strings” nos anos 70? Os Bridge & Tunnel também não se esqueceram de experimentar o “som alemão, sim nós ouvimos, sim nós adoramos, sim nós somos os continuadores dos Cluster e Pyrolator para o novo milénio”, em “Lullaby, 24th June” e conseguem ser bastante interessantes no minimalista “Without stopping” e no romantismo This Mortal Coiliano de “Faces in the crowd”. Quem só chegou agora tem aqui de sobra com que se entreter.
Elpmas (8/10)
Sax Pax For A Sax (8/10)
Kopf, distri. Ananana
O que terá levado músicos como Peter Hammill, Andrew Dvis (dos Stackridge, pop progressivo dos anos 70) e Andi Thomas, dos Mouse on Mars, a colaborarem com este venerável ancião cego de longas barbas brancas e ar de profeta cuja música permaneceu, ao longo das últimas cinco décadas, apenas do conhecimento de um número restrito de admiradores, como Lamonte Young, Philip Glass, Steve Reich, Terry Riley, Frank Zappa e William Burroughs?
O ancião morreu no ano passado, aos 83 anos. Chamava-se Louis Thomas Hardin, mas ficou conhecido pelo nome artístico de Moondog, em honra de um cão que não parava de uivar à Lua.
Moondog nasceu no Wyoming em 1916 e ficou cego aos 16 anos, vítima de uma explosão de uma barra de dinamite mesmo em frente aos olhos. A infância, passou-a em Forte Bridger, onde o seu pai mantinha uma loja de trocas comerciais com os índios Arapaho. Foram estes que lhe ensinaram a tocar o mesmo tambor em pele de bisonte que os chefes índios usavam nos seus cerimoniais. Quando chegou a Nova Iorque, nos anos 40, passou a ser visto a tocar percussões em frente aos clubes da Rua 52. Lenny Bruce e Charlie Parker repararam nele, bem como Charlie Mingus, Benny Goodman e Miles Davis. Gravou os seus primeiros álbuns nos anos 50, para a editora Prestige e arranjou uma série de canções para Julie Andrews.
Nos anos 60 já a sua figura excêntrica (costumava envergar um capacete viking) impressionara o imaginário da comunidade “hippie” e de figuras como Tiny Tim e Janis Joplin, que cantaria mesmo um dos seus madrigais. Os minimalistas adoptaram-no como guru, mas a sua música, agora gravada para a Columbia, continuava sem conseguir furar a barreira do anonimato.
Chegado aos anos 70, um convite para tocar na Alemanha alteraria a direcção da sua carreira e da sua obra. A aceitação que a sua música levou-o a declarar que se sentia um “europeu de todo o seu coração”. E é neste ponto que a história das prsentes reedições tem início.
Os três primeiros álbuns agora reeditados pela Kopf, “In Europe”, “H’art Songs” e “New Sounds of na Old Instrument”, foram gravados na Alemanha respectivamente em 1978, 1979 e 1980. Álbuns marcados por um estilo pessoalíssimo de composição (alguns especialistas costumavam dizer, em tom de brincadeira, que a música de Moondog era o elo de ligação entre Bach e o século XX…), cada um ilustra uma pequena faceta do seu autor.
Em “In Europe”, alinham-se peças para quarteto de cordas, celesta, órgão de igreja e trompa. A música é minimalista e misteriosa e através dela Moondog exterioriza a sua obsessão pelos vikings, sobretudo numa série de variações executadas em órgão de igreja, por Fritz Storfinger, do tema “Lögründr”. Síntese inclassificável de popular, música minimal repetitiva, citações étnicas, um certo sabor aos musicais da Broadway, música de câmara e música barroca, “In Europe” inclui uma valsa de realejo, caixas de música e marchas de soldadinhos de chumbo, chamamentos longínquos para a guerra e liturgias de órgão que criam um clima de irrealidade sem limites.
Em “H’art Songs” o registo muda para a canção. Moondog canta aqui pela primeira e única vez na sua carreira. O resultado é um cruzamento bizarro de cabaret de Kurt Weill com a música de variedades do princípio do século, o cutelo de John Cale e o “nonsense” alucinatório de Robert Wyatt, com cuja voz as inflexões de Moondog coincidem em mais do que uma ocasião. Estas canções falam de um mundo pessoal e intransmissível e é preciso ouvi-las várias vezes se se quiser conhecer em plenitude o que se oculta sob o manto, aparentemente diáfano, dos seus segredos.
“A New Sound of na Old Instrument” altera de novo as coordenadas. Desta feita o órgão de igreja ocupa a totalidade do palco sonoro, estando a sua execução a cargo de novo de Fritz Storfinger e, nas peças em dueto, de Wolfgang Schwering. Impressões da juventude, a arquitectura fantasmagórica o gelo sobre uma flor da Antárctida, miragens do deserto, a reprodução do galope de um cavalo e, uma vez mais, a liturgia em duas novas versões de “Lögründr” demonstram o talento do seu autor na arte do contraponto, mas pecam, paradoxalmente, pela omnipresença dos tambores, cuja marcação rítmica cerrada acaba por se tornar redundante. Porém, a atmosfera de religiosidade e a originalidade da composição marcam pontos e fazem de “A New Sound of Na Old Instrument” a variante humanista de um álbum como “Four Organs / Phase Patterns” de Steve Reich.
Após este álbum, a carreira discográfica de Moondog sofreu um interregno de 11 anos e o artista apenas voltaria a gravar em 1991, o álbum “Elpmas”. Moondog socorre-se do sampler com parcimónia para simular o som de marimbas, coloridas por sons da natureza, numa série de peças dedicadas à defesa das culturas dos aborígenes australianos, dos povos da Amazónia e dos índios Arapaho e Sioux. Álbum de conotações étnicas, imbuído do espírito da new age (não falta um tema dedicado às baleias – interrompido por interlúdios clássicos de câmara ou por uma melodia de inacreditável pureza como a de “Fujiyama 2” -, termina com uma longa peça ambiental de quase meia hora destinada a meditação: uma sucessão de vagas harmónicas nevoentas que se vão sobrepondo infinitamente, algures entre a “Discreet Music” de Brian Eno, a banda sonora do naufrágio de “Titanic” segundo Gavin Bryars e a música meditacional de Laraaji. O álbum teve a participação, como produtor e guitarrista, de Andi Toma, dos Mouse on Mars.
Se dúvidas ainda existissem quanto à versatilidade de Moondog, “Sax Pax for a Sax”, de 1994, dissipa-as por completo. De todos os álbuns do compositor este será aquele que melhor integra a componente religiosa e celebratória da sua música. Escrita com o objectivo de retirar ao saxofone o estatuto de “instrumento militar”, “Sax Pax for a Sax” insere-se numa série de composições designadas por Moondog como “Zajaz” (“jazz em duas direcções…”), estando a execução a cargo do grupo de saxofones The London Saxophonic. Admirável junção do espírito gospel, do “vaudeville” (como no fantástico hino à alegria de viver que é “Paris”) e do jazz. Um jazz com passagem por Nova Orleães, pelo swing e – no tema “Bird’s Lament”, dedicado a Charlie Parker, pelo be-bop, que chega a tomar a forma das massas totalitárias dos Urban Sax. Colaboram neste álbum onde o tambor de Moondog se fez ouvir por uma das últimas vezes, o seu velho amigo Danny Thompson e, no papel quase anónimo de simples figurantes, nos apoios corais, Peter Hammill e Andrew Davis, “perdidos” nas vocalizações colectivas e de admiração pelo mestre.
21.04.2000
Garrett List
The New York Takes (8/10)
Carbon 7, distri. Sabotage
Amantes do jazz desalinhado, das noites trôpegas e de se verem ao espelho num charco de chuva desenhado no solo, atenção! Alô, vocês todos que regozijaram com os Wibutee, se derretem a ouvir Sade, Carmel e Working Week, esbugalham os olhos com Carla Bley e sonham viver na “downtown” de Manhattan: “The New Yor Takes” está mesmo a pedir que o agarrem, senão ele foge. Garrett List é um trombonista veterano com a cabeça um bocado torrada que faz do jazz uma boa e desestabilizadora piada, rodeando-se de uma banda onde os metais e a bateria de Ronald Shannon Jackson coabitam com o theremin. Gravado em Nova Iorque, uma parte no estúdio de Carla Bley, precisamente, “The New York Takes” dispara em várias frentes, da cançaõ pop-jazz excêntrica, como “Fire and Ice”, uma turbina de swing, tão estranha como qualquer tema de “Fictitious Sports” de Nick Mason e… Carla Bley, ao free jazz de “Doo dah”, do cabaré-lounge-de circo de “Your are more beatufiful than the sky and the sea” à troca de correspondência vocal de “Now and how”, culminando numa longa e sentida “Elegy: To the people of Chile” executada com toda a solenidade por uma formação de jazz de câmara um pouco à maneira de uma marcha funerária da Jazz Composers Orchestra.