Arquivo mensal: Maio 2009

Vidya Ensemble – Stress/Relax

11.12.1996
Vidya Ensemble
Stress/Relax
ED. FAROL

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O minimalismo é factor de “stress”? A repetição provoca o acidente? A ruptura pode transformar-se em lei? Para Vítor Rua, a prática musical funciona mais como manual de interrogações do que como acta de trabalho. O guitarrista dos Telectu, como já acontecera no seu disco com os “ressoadores”, volta a defrontar-se com os limites da “perfomance” e da memória musical. Mas se, com os seus alunos, era o conceito de aleatoriedade e improvisação que funcionava como regra do jogo, em “Stress/Relax” é a exploração da noção de “ensemble” e a composição escrita que se questionam na forma de uma “música de intrenção” ou “daquilo que é a propósito de qualquer coisa”. O conceito é familiar, sugerindo as estratégias dde clonagem e o mimetismo propostos em fase recente dos Telectu. Significa isto que “Stress/Relax” deva ser ouvido com a municiação de um “a priori” musical impeditivo de toda e qualquer “inocência” do acto criativo? O conceito também não é novo e está no cerne de toda a atitude do pós-modernismo, assim se compreendendo, de resto, que Rua defina “Stress/Relax” como “propedêutica estética e caleidoscópica sobre o situacionismo musical pós-moderno, proposição de um novo msubjectivismo musical”. Ouvir um trecho musical será então, hoje, ouvir sempre um outro, essa tal “outra coisa” entretanto levado ao esgotamento pelo excesso das escolas e dos géneros musicais deste século. O “novo” passou a existir, deste modo, na forma subjectiva de reorganização de memórias e acumulações culturais da parte do ouvinte. Assim se compreende, ainda, a profusão e inutilidade das palavras que embalam este compacto. Do esgotamento de significados surgirá uma nova disponibilidade de audição? As faixas de “Stress/Relax” podem arrumar-se confortavelmente em géneros, do minimalismo reichiano do tema inicial, “Stress”, ao ambientalismo “enoiano” de “Tracet”. São o mesmo e o outro, da mesma maneira que, no conto de Borges, o “Quixote” de Pierre Ménard era igual e diferente do “Quixote” de Cervantes. Aprende-se, então, a reescutar o gesto primordial proposto por “Stress/Relax”, afinal contido no próprio título – um jogo de tensões onde a criatividade se joga na estruturação, pura e simples, do tempo e da multiplicidade dos seus tempos interiores. Era esse o sentido primordial do minimalismo. Uma faixa emblemática? Experimente-se ouvir “Cream Dream” para se perceber que o infinito dos sons nasce dentro da nossa cabeça. (8)

UHF – 69 Stereo

11.12.1996
UHF
69 Stereo
Ed. BMG

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LINK (Há Rock no Cais – 2005)

Deixou de fazer sentido falar dos UHF como sobreviventes do rock português. Não será fácil encontrar razões que expliquem a longevidade do grupo de Almada. Mais do que o “alter ego” de António Manuel Ribeiro, os UHF cerram fileiras em torno, já não de uma causa , mas de um estado de espírito. “69 stereo” é um álbum de afirmação e de crença. “O Povo Do Mundo”, tema de abertura, enceta uma das melhores colecções de canções de sempre dos UHF. Está ao nível dos clássicos com a gaita de foles de Paulo Marinho a reforçar o tom de optimismo e universalismo do tema – um “hit”. A seguir, “Amor perdi”, uma balada em duo com Né Ladeiras, dá a conhecer uma surpreendente depuração e contenção vocal de António Manuel Ribeiro, apostando no registo do tipo Peter Gabriel mais Kate Bush, em “Don´t Give Up”. O papel de “rocker” do mundo é desempenhado por AMR com razoável convicção, em inglês, numa versão de “The Passenger”, de Iggy Pop. Excelente, o trabalho de baixo de Fernando Delaere e da guitarra acústica de Rui Padinha, em “Sangue”. “O Primeiro Concero” é UHF na sua posição mais clássica, de “Rua do Carmo” e “Cavalos de Corrida”, numa das habituais incursões retrospectivas nos anos dourados da juventude pós-25 de Abril. O tom autobiográfico, com passagem das folhas de um diário, prossegue em “Velhos amigos”. Surpreendente é, passados todos estes anos, AMR continuar com a mesma sinceridade e proximidade em relação à vida dos outros, com os seus pequenos e grandes dramas. Quem se recorda de “Jorge Morreu” sentirá com mais força as palavras de AMR quando canta “Velhos amigos onde estais, oiço os gritos que soltais”. “Foge Comigo Maria” é Lou Reed “lights” e “Na Luiz da Noite” um bom desempenho das guitarras eléctricas em mais um tema “average” UHF é um desabafo de AMR num dos seus santuários preferidos: o quarto, na solidão da noite. Esqueça-se a declamação de “Pálidos olhos azuis”, repescado do álbum a solo do vocalista saído há tempos, e passe-se directamente para a lenta lamentação de “Dão-me prendas”, antes da guitarra eléctrica voltar a lançar labaredas em “Ela (como ninguém)” e no tema final, “Pede ao pai”. Rock’n’roll de barba rija a fazer cara de mau e a piscar o olho aos anos 70, desta estereofonia na posição 69, uma das produções – com assinatura de AMR mais sofisticadas de sempre dos UHF. Um regresso à boa forma de um grupo que não desiste de encarar o rock como um modo de vida. (8)

Lightning Seeds – Dizzy Heights

11.12.1996
Lightning Seeds
Dizzy Heights
EPIC, DISTRI. SONY MUSIC

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LINK

A “Q” deste mês dá ao álbum cinco estrelas, nota máxima, comparando os Lightning Seeds aos Kinks. Mais, afirma que Ian Broudie, vocalista do grupo, “como muito poucos antes dele, descobriu o cálice sagrado da pop”. Sem querermos ser desmancha prazeres, não era preciso ofender Ray Davies. “Dizzy Heights” é, sem sombra de dúvida, uma agradável colecção de melodias pop, algumas delas, como “Imaginary Friends”, “Sugar Coated Iceberg” ou “Fingers And Thumbs” com aquele traço indefinível que, sem motivos aparentes, as torna em objectos de adesão emocional imediata. Isso não evita a sensação de um produto criado em laboratório, com a administração milimétrica de cada condimento, doseados de maneira a provocarem o tal fenómeno de simbiose auditiva. Exemplo desta estratégia é um tema como “What If”, uma mistura dos Beach Boys com Pet Shop Boys e The Divine Comedy. Recorrendo a sonoridades de “soul” sintética, à electróncia em bombons “a la” Orchestral Manoeuvres In The Dark (“Like You Do”), ou uma elegância cuidadosamente encenada, que vai da “mod” dos anos 60 a pormenores de produção cozinhados no caldeirão dos anos 90, não admira que os Lightning Seeds provoquemrecensões como as da “Q”, gente com entusiasmo mas de memória curta. (7)