Arquivo mensal: Maio 2009

Rão Kyao – Viva o Fado

11.12.1996
Rão Kyao
Viva o Fado
ED. POLYGRAM

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LINK

Consumada a iniciação da flauta de bambu no fado, em “Fado Bailado”, Rão Kyao mergulha agora mais fundo as suas raízes musicais da infância, neste género de música. A escolha de fados tradicionais, de estrutura o mais aberta possível, permite ao flautista a improvisação e a depuração da essência do fado. Rão toca flauta como se cantasse interiormente e é essa interiorização do fluir interior da lama fadista que torna cada tema numa outra forma de ouvir o fado. Gravado ao vivo, em dois dias de espectáculo realizados no Amália-Clube de Fado, com acompanhamento de Carlos Gonçalves e José Luis Nobre Costa, à guitarra portuguesa, e Francisco Gonçalves, à viola, “Viva o Fado” é também a justaposição do fado com as músicas indiana e árabe, em modalidades e temas clássicas como o “Fado menor”, o “Fado Mouraria” e o “Fado Vitória”, “Lágrima”, “Biografia do Fado” e “Fado dos Sonhos”. Fadistas como Manuel de Almeida, a quem o disco é dedicado, Amália, Marceneiro, Carlos Ramos ou António dos Santos, e autores como Alberto Janes, Joaquim Campos, Alberto Costa e Frederico de Brito têm aqui a melhor homenagem que lhes poderia ser feita – erguer o fado a uma voz universal. (7)

Guy Evans & Peter Hammill – The Union Chapel Concert (conj.)

09.04.1997
Um Gerador na Capela
Guy Evans & Peter Hammill
The Union Chapel Concert (6)
2XCD

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LINK (Peter Hammill – Over – 1977)

Peter Hammill
Sonix (7)
David Jackson
Fractal Bridge (7)
Todos Fie, distri. Megamúsica
Refazer a história é difícil. Ressuscitar o mito é impossível. Os Van Der Graaf Generator são, quer se queira quer não, um mito, dos poucos que, nos anos 70, elevaram, de facto, a música progressiva à categoria de grande arte. Assinaram uma obra-prima absoluta, “Pawn Hearts”, dissolveram-se, reuniram-se de novo para viver uma segunda vida que culminou noutra obra-chave, já na antecâmara da década de 80, “Still Life”. Finalmente, o gerador extinguiu-se e cada músico seguiu o seu próprio caminho, embora as ligações entre os vários lementos jamais se extinguisse. Guy Evans foi, desde o primeiro álbum do grupo, “The Aerosol Grey Machine”, o baterista dos Van Der Graaf Generator (VDGG). Anos mais tarde, gravou com Hammill um disco instrumental de música electrónica que passou despercebido. “Spur Of The Moment”. Em “The Unon Chapel Concert” retomaram ambos, ao vivo, essa colaboração, com a curiosidade de contarem com a participação de todos os músicos que, em diversas fases, passaram pelo grupo. É assim que, a par dos diversos duos e trios com Stuart Gordon e Manny Elias, chegamos ao momento culminante do disco: Peter Hammill, Guy Evans, Daviod Jackson e Hugh Banton, os quatro juntos, ou seja, a formação mítica dos VDGG, de “Pawn Hearts”, para tocarem um tema deste disco, “Lemmings”. Poderia ser um momento de magia, mas, como já dissemos, os mitos não se ressuscitam. Não são os VDGG mas apenas quatro homens a tentar puxar pela memória, buscando uma mística inalcansável. Custa ouvir Hammill entrar atrasado com a voz numa aglomerado sonoro em que os decibéis não disfarçam a pobreza de uma estrutura que reduziu a um casebre o que era uma catedral. O resto do disco, incluindo uma versão, tanbém simplificada, de “Red Shift” (do álbum de 1974 de Hammill, “The Silent Corner and the Empty Stage”), é interessante. Diálogos entre as percussões computorizadas de Evans com as “hammilltronics”, na guitarra, de Hammill, Banton a comprometer-se com um “Adagio for Strings”, de Samuel Barber (1910-1981), e Stuart Gordon perdendo-se no violino no tradicional irlandês “Women of Ireland”.
Quanto à discografia a solo de Peter Hammill, já se sabe, o homem é mais prolífero que um coelho. Também no seu caso o tempo fez estragos. O génio que marca toda a sua obra até “A Black Box”, incluindo o equivalente solitário de “Pawn Hearts”, a descida solitária aos infernos que é “In Camera”, cedeu à pura excentricidade, de alguém que, seja como for, teima em não se deixar prender nas malhas do sistema. “Sonix” não é o seu novo álbum, mas sim um capítulo semelhante a “Loops & Reels”, isto é, uma colecção de temas, quase todos instrumentais, que incluem a banda sonora de “Emmene-moi”, uma peça extensa (26 m, a única vocalizada), “Labyrinthine Dreams”, para bailado, e experiências com “loops” (Dark Matter”) ou com novas tecnologias de estúdio (“Four The Floor”). Entre os diálogos pungentes da guitarra com o violino de Stuart Gordon, a graça de programações que fazem um teclado tocar sozinho e alguns ruídos curiosos, fica, também aqui, como já referimos, não estejamos perante a sucessão “oficial” do excelente e anterior álbum da Hammill, “Xmy Heart”.
Acaba por ser o álbum do saxofonista David Jackson o mais inovador dos três. Jackson era camionista, antes de entrar para os VDGG. Com o desaparecimento destes, participou em diversos projectos, entre os quais “The Long Hello” (uma série de álbuns descomprometidos que podem levar a assinatura de qualquer dos antigos elementos do grupo), antes de se dedicar à terapia pelo som. É neste âmbito que surge “Fractal Bridge”, um trabalho de música electrónica que usa, em larga escala, o chamado “Soundbeam”, um sistema de sintetizadores interligados por MIDI cuja particularidade é poder ser accionado através de movimentos do corpo. Uma espécie de harpa de feixes electrónicos de múltiplas frequências suspensos e manipulados no ar. “The Amazing Invisible Elastic Keyboard In The Air”, como David Jackson lhe chama.
Cada faixa corresponde a uma especificidade do sistema, jogando na combinação entre um número diferente de “soundbeams” e nos diferentes comprimentos de cada um, pondo em prátic ao conceito de “ponte fractal” enunciado no título. Mas o que poderia soar como um catálogo de sons bizarros é contido dentro de uma esfera estritamente musical, funcionado o “Soundbeam” e as suas quase infinitas potencialidades como um parceiro dialogante para os saxofones e flautas de Jackson. Umas vezes próximo da serenidade “new age”, outras agitado pela fricção da interactividade com a máquina, “Fractal Bridge” (produzido e com a participação de Peter Hammill, como em “Wildman”, um concentrado louco de Urban Sax) constitui um objecto de algum fascínio, enquanto pesquisa de formas sonoras e estados psíquicos alterados.

Luís Represas – Ao vivo no CCB

11.12.2000
Luís Represas
Ao vivo no CCB
2XCD, ED. EMI

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LINK (A História Toda – 2006 – parte1)
LINK (A História Toda – 2006 – parte2)

Registo dos concertos de 25 e 26 de Outubro passado, metade dos que encheram o CCB durante quatro noites, “Ao vivo no CCB” serve essencialmente para manter viva a recordação desses espectáculos, nos quais Luís Represas ofereceu ao seu público o que ele esperava: as canções conhecidas, a seriedade e o profissionalismo de sempre, mas também o que a este mesmo público não importa, a previsibilidade e a ausência de risco. Não foram o “low whistle” nem as “uillean pipes” do convidado especial Davy Spillane que fizeram dessas quatro noites, noites especiais, mas sim a cumplicidade que se estabeleceu entre o intérprete eo seu público. Tudo se passou como uma festa há muito planeada, uma revisiitação de uma carreira sem sobressaltos nem grandes arrebatamentos de inspiração. Lui´s Represas é um valor seguro da nossa música que encontrou a sua voz própria e aí se deixou ficar, mesmo que, uma ou outra vez se experimente em sons ou companhias de outras latitudes, sejam elas Cuba ou a Irlanda. Será, porém, sempre o cantor da voz romântica, o ex-Trovante que ouvia Milton Nascimento, o trovador das emoções que podem ser compartilhadas por todos. Por isso, Luís Represas é um cantor de sucesso. Por isso, encheu o CCB por quatro noites e provavelmente encheria outras tantas mais. Por isso, o que para uns é motivo de satisfação, para outros será motivo de bocejo. (4)