Arquivo mensal: Maio 2009

Creedence Clearwater Revival – Creedence Clearwater Revival (self conj.)

04.08.2000
Reedições
Reabrir o Bayou

creedencecr_ccr

LINK

Boa música para se levar para férias, a dos norte-americanos Creedence Clearwater Revival. Se ouviu dizer que não passavam de uma banda que os adolescentes ouviam no final dos anos 60, princípio dos 70, não acredite. É o “só” que está errado. Sem dúvida que os CCR se podem gabar de ter andado nas bocas do mundo, através de uma série de canções que foram êxito um pouco por todo o lado e que acabaram por entrar no domínio do “quasepimba”. Mas seria injusto reduzir o grupo a um mero produtor de “hits” inofensivos. Os Creedence foram uma das bandas mais sólidas a emergir na América da ressaca do psicadelismo. Com uma formação estável que se manteve até ao último álbum, eram um quarteto onde pontificavam a voz, a guitarra e as composições de John Fogerty. Completavam o grupo o seu irmão Tom Fogerty, na guitarra-ritmo, Stu Cook, no baixo, e Douglas Clifford, na bateria. Toda a discografia do grupo acabou de ser reeditada em formato remasterizado em 24 bits e é como se esta mistura de rock ‘n’ roll, blues e música do “bayou”, executada com energia e contenção, voltasse a fazer sentido.
“Creedence Clearwater Revival”, de 1968, é uma estreia auspiciosa. O clássico “I put a spell on you”, de Scremin’ Jay Hawkins, cria a atmosfera dos pântanos e do vudu da Luisiana que prevalece num álbum ainda marcado pelo tipo de efeitos sonoros do psicadelismo e que inclui o primeiro êxito do grupo, “Suzie Q.”. John Fogerty revelava-se um guitarrista e vocalista portentoso, com uma técnica que entroncava ao mesmo tempo no “blues” e no rock (8/10).
No ano seguinte os Creedence lançaram “Green River”, menos subtil que o álbum anterior, uma clara aposta no rock. É um álbum homogéneo de onde saíram os “hits” “Green River” e “Bad Moon Rising”. “Sinister Purpose” é o único tema que mantém as atmosferas carregadas do disco de estreia. (6/10).
Segue-se “Bayou Country”, de 1969, e com ele os CCR voltam a dar cartas na arte da contenção. “Graveyard train” é um longo tema “bluesy” onde brilha a guitarra de John Fogerty e “Proud Mary” o megasucesso que elevou os Creedence à condição de “stars” (7/10).
“Willie and the Poorboys”, ainda de 1969, é um album que perde com a tentative de integração de sonoridades “country” na música do grupo. Mesmo assim, os Creedence facturaram mais uma canção de sucesso, desta feita o tema de abertura “Down on the Corner”. O último e introspectivo “Effigy” mostra quês os CCR não tinham perdido o sentido da subtileza (6/10).
Mas é o álbum seguinte, “Cosmo’s Factory”, de 1970, que definitivamente catapulta os CCR para o “hall of fame” da música americana. O rock ‘n’ roll de “ooby dooby” e uma excelente e longa versão de “I heard it through the grapevine”, de Marvin Gaye, quase empalidecem diante de “hits” irresistíveis como “Travelin’ band”, “Lookin’ out my back door”, “Up around the bend” e “Who’ll stop the rain”. Os apreciadores de rock, sem mais, têm em “Cosmo’s Factory” um objecto de culto (7/10).
Ainda no mesmo ano os CCR mudam de agulhas em “Pendulum”, geralmente menosprezado pelos puristas do clássico som Creedence. O órgão funciona como suporte harmónico de temas de sabor “gospel” e “soul” enquanto o saxofone traz um colorido adicional. Os “hits” são desta vez “Have you ever seen the rain?” e “Hey Tonight” mas o tema que se destaca acaba por ser, a fechar, o instrumental “Rude awakening # 2”, equivalente à “Revolution # 9” dos Beatles, cacofonia de efeitos electrónicos que sugere uma generosa ingestão de LSD (7/10).
Tudo se esfrangalha em “Mardi Gras”, de 1972, com as vocalizações e o trabalho de composição a serem repartidos pelos quatro músicos. A esta democratização correspondeu um álbum falho de personalidade que comprova o papel fundamental desempenhado até então por John Fogerty. E pela primeira vez num álbum dos CCR não havia uma única canção vitoriosa (5/10) (todos Fantasy, distri. Dargil).

Jeans Team – Ding Dong

11.08.2000
Jeans Team
Ding Dong (7/10)
Kitty-Yo, distri. Symbiose

jeansteam_dingdong

Múltiplas influências cruzam-se na estreia discográfica de mais esta banda alemã que faz da electrónica o seu campo de acção. Os Jeans Team estudaram os mestres mais importantes dos anos 80 aplicando logo de entrada em “Ding Dong” os ensinamentos de Holger Hiller, em “Das Lied der Liebe”, ao guardarem na mala as vocalizações (in)dolentes de “Ein Bundel Faulnis in der Grube”, álbum de estreia daquele antigo elemento dos Palais Schaumburg. O “Groove” tipicamente teutónico, desprovido de funk mas cujos automatismos fazem ressaltar um novo tipo de vida, aparece, contagiante, em “Asphaltvibrator”, com o tipo de humor analógico e os ritmos metamórficos dos Der Plan, enquanto “Keine melodien” evidencia a estética militarista dos D.A.F. e o minimalismo dos Kraftwerk, com sonoridades de moog simplesmente deliciosas. Em “Ein Atom” e “Hi Fans” os Jeans Team prosseguem a demonstração fazendo passar a pop electrónica banhada em ópio dos Pyrolator e “Wonderland”. “Ranzi Beats” é outro tema irresistível onde a componente lúdica adquire a forma de imperativo categórico. Dito de outra forma, a música dos Jeans Team, tal como a dos Nova Huta ou dos Mikron 64, não tem como objectivo contribuir para o progresso ou para a revolução da música electrónica mas, pelo contrário, atirar-nos com uma simplicidade desarmante para o meio de um mundo de brinquedos. Para acabar, depois de mais uma reverência a Holger Hiller, em “Baby”, os Jeans Team têm o desplante de terminar “Ding Dong” com um apontamento de pura “discreet music” enoiana. De original este álbum não tem nada mas a verdade é que não há meio de sair do meu leitor de CD.

Cro Magnon – Bull?

23.04.1997
Cro Magnon
Bull?
LOWLANDS, DISTRI. ANANANA

cromagnon_bull

O anterior álbum desta banda belga chamava-se “Zapp!”. No novo trocaram a exclamação pela interrogação. Este “Bull?” apresenta, na capa, uma série de “cartoons” com alusões em desenho animado ao problema das vacas loucas. Uma aparente boa disposição que não tem paralelo na música, uma vez que os Cro Magnon levam bastante a sério a sua tarefa de continuadores do “chamber rock”, movimento que os seus compatriotas Univers Zero ajudaram a criar. Os mugidos que se ouvem no início de “Cowcrash” não contam. Embora menos minimalista do que “Zapp!”, “Bull?” situa-se ainda no ponto de confluência desta escola com um rock de tendência classicizante que dispensa a bateria, para se concentrar nas harmonias complexas elaboradas pelos violoinos, saxofones e manipulações várias do “sampler”. Mikel Rouse e Daniel Schell, compositores da geração de minimalistas dos anos 80 (o segundo já envolvido em correntes mais universalistas), continuam a ser as principais referências, embora haja temas onde os arranjos para cordas recordem certas convulsões da linha mais extremista dos Kronos Quartet e noutros o sax faça lembrar os Miriodor ou os Birdsongs of the Mesozoic (“Cowcrash”). Música inconfundivelmente europeia, simultaneamente cerebral e sensitiva, dirige-se sobretudo àquele tipo de público que não dispensa a sua dose periódica de sons Recommended. (8)