Arquivo mensal: Maio 2009

Holger Hiller – Holger Hiller

15.09.2000
Holger Hiller
Holger Hiller (8/10)
Mute, distri. Zona Música

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LINK (Palais Schaumberg – S/T – 1981)

Alguns poderão ver nele um Stockhausen de trazer por casa, o que não é vergonha nenhuma, se pensarmos que foi este alemão que nos anos 80 meteu o arsenal sónico e conceptual da música contemporânea erudita dentro de um sampler fazendo sair do outro lado uma audaciosa fusão de electrónica operática com a pedreira da música concreta, brincadeiras proibidas e… rock ‘n’ roll. O krautrock deve-lhe a sobrevivência nas duas últimas décadas ao algemar as vastidões cósmicas dos planates com as correntes do punk e gente como Felix Kubin ou Oleg Kostrow venera-o de joelhos. Depois de ter passado praticamente despercebido nos Palais Schaumburg, Hiller desfrladou a sua bandeira de originalidade sem paralelo em dois álbuns seminais: “Ein Bundel Faulnis in der Grube” e “Oben im Eck”. Os posteriores “As is” e, ainda com mais convicção, “Demixed”, enfiam-se na mesa de remisturas e “Little Present”, já dos anos 90, é um postal ilustrado de paisagens sonoras de Tóquio oferecidas ao seu filho de cinco anos residente mo Japão. Com o novo “Holger Hiller” o compositor alemão quebra um jejum de meia década com mais uma inspirada manobra de equilibrismo que, por entre um labirinto de corredores, desfaz à martelada e ri-se às gargalhadas do drum ‘n’ bass, da música industrial e de todos os estilos começados por “electro”. O sampler é uma picareta, a Escola de Viena um chiqueiro e, correndo o risco de apanhar com uma tarte de natas na cara, diria que este homem é o Zappa que a Alemanha nunca teve, um robô louco mestre de Tobin ou a continuação, no presente, do que os Faust poderiam ter feito (“Pulver”) de uma maneira diferente da que fazem agora. Mas Holger Hiller é único. Não chega?

Gas – “Pop” + Sciss – “Azoiphon”

04.08.2000
Gas
Pop (7/10)
Mille Plateaux, distri. Ananana
Sciss
Azoiphon (7/10)
Tabu 2000, distri. Ananana

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LINK (parte 1)
LINK (parte 2)

Só por ironia o trabalho do alemão Wolfgang Voigt, sob a designação Gas, tem o título que tem: “Pop”. O que aqui é dado a ouvir é um longo e mântrico oceano de “chill out” e “ambient techno” cujos efeitos são semelhantes aos provocados pela inalação de um algodão embebido em clorofórmio ou à progressiva intoxicação de alguém que adormeceu no banho, asfixiado por uma nuvem de gás e de vapor num longo adeus de sonhos. Por detrás desta música ambiental parasitada por miasmas permanece uma cortina constante de sons de água inquinada a escorrer de um cano ou da tal fuga de gás. Perante este adormecimento dos sentidos reage-se de duas maneiras: ou se foge em pânico à procura de ar puro, ou se respira até ao fim e então a vontade esvai-se para se confundir com a nuvem tóxica que, inexoravelmente, tolherá a mente até a tornar inerte. Um álbum perigoso e sedutor, complemento tropical (com os mosquitos de malária incluídos…) da elegância gelada dos Biosphere. A música dos Sciss (alemães, sempre alemães…), pelo contrário, não pára quieta num constante desafio à atenção. Electrónica em regime de metamorfose, menos apostada em divertir do que em fazer trabalhar e em pregar sustos à imaginação. Pense-se nuns FX Randomiz com laivos de crueldade (quem se lembra dos The Art Barbecque?) ou nuns Cluster cortados aos bocados que depois são colados fora do sítio (“Blinder zaungast”), num caleidoscópio fosco de programações sem alma e melodias microscópicas. Apenas faltará “swing” a esta obra com matéria mais do que suficiente para dar de comer aos neurónios.

Pascal Comelade – Swing Slang Song (self conj.)

15.09.2000
Pascal Comelade
Swing Slang Song (6/10)
September Song (8/10)

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LINK (Danses Et Chants De Syldavie – 1993)

Les Disques du Soleil et de l’Acier, distri. Megamúsica
Singles de 70 minutos, álbuns duplos de 10 minutos, nunca se sabe o que passa pela cabeça deste francês que não nasceu na França quando resolve editar discos. Acabaram de sair mais dois, deste maníaco dos instrumentos de brinquedo que gosta de fazer versões de canções recolhidas de todas as décadas para as despedaçar com o empenho de uma criança mimada. “Swing Slang Song” (oito canções, 16m27, o título tema é uma variante de uma canção dos Can, “Sing Swan Song”…) soa, porém, um bocado desconjuntado, de pouco servindo a consistência vocal de P. J. Harvey em “Love too soon” e as duas dedicatórias, a Ornette Coleman e a Kevin Ayers, num disco que não impressiona só por saber fazer beicinho. Do naipe de compositores de “September Song” (digipak, sete canções, 19m27) fazem parte Adriano Celentano (“24 mila baci”), Toto Cotugno (“L’Italiano”), Bob Dylan (“Knockin’ on heaven’s door”) e Robert Wyatt. Este último, além de cantar de forma superlativa e pungente no título-tema, assinado por Kurt Weill, viu ainda incluído um estranho instrumental da sua banda Matching Mole (“Signed curtain”, do álbum “Little Red Record”) aqui interpretado ao piano pelo “francês”. Comelade volta a fazer funcionar neste seu novo embrulho de nostalgia a sua táctica pessoal, através da qual consegue fazer-nos habitar os seus universos de pé-quebrado. Além dos habituais brinquedos, Comelade toca sintetizador Moog, o que não acontecia desde o magnífico “Détail Monochrome”, e uma “anti-techno orchestra”. Dylan devia ainda agradecer-lhe ter transformado uma canção sua em algo hilariante. Convidem o homem para “Os Reis da Música Nacional”!