Arquivo mensal: Março 2009

Strawbs – Ghosts

22.01.1999
Reedições
Obrigado, Cristo Pela Bomba
Os “blues” e a paranóia, o rock sinfónico e a poesia de um bardo celta – três apontamentos nas margens dos anos 70.

Os Groundhogs nasceram no final dos anos 60, isnpirados pelos “blues” de John Lee Hooker e pela pop dos Beatles e dos Kinks. Mas é no início da década seguinte que o grupo do guitarrista Tony McPhee atinge a maturidade e a popularidade. “Thank Christ For the Bomb”, de 1970 (reedição remasterizada), terceiro álbum da banda, reflecte a nota de estranheza que sempre caracterizou a música do grupo. A temática antibelicista, perspectivada com uma ironia e uma crueza pouco habituais na época, funciona como suporte de uma música assombrada por melodias aveludadas (John Peel tocou até mÀ exaustão o tema “Soldier”, cujas mudanças de tom e “nuances” vocais deixam adivinhar a presença fantasmagórica de Paul McCartney e Ray Davies…) e uma leitura dos “blues” pautada pela suavidade. Uma sonoridade estranha, fora do tempo e das regras de um estilo, “os blues”, que tony McPhee condensa no formato guitarra/baixo/bateria de forma inigualável.
Esta estranheza acentua-se em “Split”, de 1971, com reedição também remasterizada. “Split” disseca a paranóia e a dissociação de personalidade sofridas por McPhee, na consequência de um “flipanço” (seis meses de “bad trip”, incluindo a ressaca…) provocado pela ingestão involuntária (?) de LSD. A guitarra explode literalmente, nas quatro secções que compõem o título-tema, em solos de uma violência, intensidade e experimentação sónica que tocam o génio de Jimi Hendrix. O público britânico vibrou com o sofrimento e fez de “Split” um dos álbuns mais vendidos de toda a carreira dos Groundhogs – chegando ao 5º lugar do top.
“Hogwash”, de 1972, já com Clive Brooks, ex-Egg, no baixo, em substituição de Pete Cruickshank (que nunca chegou a recuperar a sanidade mental, também ele exagerando na dose de LSD…), introduz pela primeira vez a electrónica na música dos Groundhogs, acentuando ainda mais a dicotomia entre a força e a simplicidade emocional aprendidas com os mestres dos “blues” e um lado mais conceptualista e abstracto que McPhee constrói com o “mellotron” e uma panóplia de sintetizadores. Entre os “blues” psicadélicos e uma mutação aberrante da música cósmico-progressiva, “Hogwash” infecta como uma bactéria demoníaca. (BGO, Distri. Megamúsica, 8, 8, e 8)

Curiosamente, em paralelo com estas três reedições, foi lançado no ano passado um novo álbum dos Groundhogs, “Hogs in Wolf’s Clothing”, que assinala o regresso de Tony McPhee às origens, com uma colecção de versões de temas de outro dos seus heróis, Howlin’ Wolf, “bluesman” do Inferno, do abandono e do desespero absolutos. Uma viagem através da noite e da solidão, com a guitarra eléctrica de McPhee galgando até aos limites da desolação. (HTD, Distri. Megamúsica, 7)


strawbs

No extremo oposto do espectro da música dos anos 70, estão os Strawbs. “Hero and Heroine” e “Ghosts”, ambos editados em 1974, regressam remasterizados, como exemplo de uma música que nessa altura já deixara para trás a herança folk dos primeiros álbuns e superara o trauma provocado pela saída de Rick Wakeman. Nasciam os grandes instrumentais e as profundas tiradas poéticas típicas do rock sinfónico, na sombra dos Genesis e da herança dos Beatles, para onde Dave Cousins, vocalista de inquestionável carisma, empurrara o grupo. Sem atingir o brilho e a originalidade dos anteriores “From the Witchwood” e “Grave New World”, os Strawbs aproximavam-se aqui do fim de uma carreira, que se foi esvaindo num rasto de teatralidade e elegância. (A&M, import. Lojas Valentim de Carvalho, 6 / 6)

Ao contrário de Dave Cousins, Robin Williamson é um verdadeiro bardo. O cantor e multi-instrumentista dos Incredible String Band, extinta a sua parceria, nesta banda, com Mike Heron, pegou na harpa, viajou para a sua Escócia natal e perdeu-se nas névoas da mitologia e música célticas. Não é bem o caso de “Dream Journals 1966-76”, fragmentos instrumentais e peças declamatórias (exploradas por Williamson nos Merry Band), que o músico recuperou e alterou para criar um novo painel de sonhos onde o surrealismo se cruza com a magia das histórias e lendas que o ex-Incredible String Band narra de forma quase radiofónica. “Dream Journals” devolve-nos o prazer da escuta dapalavra. Da sua música, dos seus desenhos, das suas entoações mágicas. (Pigs Whisker, import. Virgin, 7)

Ani DiFranco – To The Teeth

14.01.2000
Ani Di Franco
To The Teeth (8/10)
Cookin Vynil, distri. Megamúsica

adf

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Não é uma interlocutora da alma humana como Suzanne Vega, nem uma esteta como Joni Mitchell, mas uma mulher de trabalho e uma compositora prolífera de cuja pena resultam invariavelmente álbuns sólidos e marcados por uma personalidade forte. Falamos de Ani di Franco que em “To the Teeth” assina mais um disco onde as palavras, sempre acutilantes, valem tanto como a sua conhecida veia experimentalista, o que a leva a juntar um “background” folk/country (formado em volta das mesmas fogueiras onde se aqueceram Suzanne Vega e Michelle Shocked) a linguagens mais actuais, com a electrónica a mandar sem vergonha e, numa faixa como “Carry you around”, o hip hop a dirigir os passos de dança. Depois, o swing vocal de Di Franco é por vezes incómodo, quase desequilibrado, devedor de Joni Mitchell, em “Wish I may”, mas mais frenético. É uma desassossegada por excelência, atenta ao balanço do jazz, que agarra de forma irresistível em “Going once”, “Back back back” e “Swing” (sempre com a ajuda inestimável do saxofonista Maceo Parker), tribal em “Freakshow”, irmã de Matilde Santing em “Hello Birmingham”, electrónica e “country” em “The arrivals gate”, intimista em “Providence”, para finalmente afogar as mágoas num copo sem fundo em “I know this bar”, cuja ternura dorida, presente nas entoações vocais, evoca do outro lado do espelho a pose mais “arty” de Suzanne Veja. Ani é gosto acre, um olhar de frente, uma dentada no coração.

Eardrum – Last Light

19.05.2000
Eardrum
Last Light (8/10)
The Leaf, distri. Ananana


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Rhichie Hatwin, Galliano, Paul Schütze, Laika, J. Swinscoe (Cinematic Orchestra), Ian Simmonds, Robert Henke (Monolake), Two Banks of Four e Sean O’Hagan (The High Llamas) contam-se entre os inúmeros admiradores dos Eardrum, projecto dos dois percussionistas Lou Ciccotelli (produtor dos Laika, Spleen, Mass e God) e Richard Olatunde Baker, este ultimo com inúmeras ligações à música Africana, a começar pelo poeta Akure Wall. Depois de uma série de maxis editados na Soul Static e de uma aparição na colectânea “Macro Dub Infection II”, os Eardrum desdobram a totalidade da sua planta neste primeiro álbum completo: “Last Light” engloba um passado construído tanto pelo dub industrial de uns Bourbonese Qualk, os rituais punk percussivos dos 23 Skidoo, as estratégias “dub” de Lee “Scratch” Perry e dos African Head Charge e o jazz third stream de Teo Macero para desbravar a selva urbana de Jon Hassell (de City: Works of Fiction” e “Dressing for Pleasure”) e Mo Boma (“Swamp doctor”) mas também iluminar a escrita mágica dos novos electro-primitivos O Yuki Conjugate, Lights in a Fat City e Trance Mission. O “Groove” tribal é uma constante mas sobre esta passagem aparentemente segura ora se cavam súbitos abismos de “dub” ora se erguem densas redes de polirritmias de metal, pele, folhas e osso. Balafones e tambores de água, árvores e rios vivos, empurram-nos para as entranhas de um lugar pujante como o princípio do mundo.