Arquivo mensal: Março 2009

Trans AM – Futureworld

02.04.1999
Regresso Ao Futuro
Trans AM
Futureworld (8)
Thrill Jockey, distri. MVM


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É fácil fazer a associação entre os títulos de “Futureworld” e “Computer World2, dos Kraftwerk, até porque são conhecidas as preferências dos Trans AM pela obra dos germânicos, visível na faceta mais electrónica do álbum anterior do grupo de Chicago, “The Surveillance”. As semelhanças esgotam-se, todavia, nos títulos. “Futureworld” é, como, de resto, parte de “The Surveillance” já fazia prever, uma bomba sónica de efeitos devastadores.
Ao contrário do álbum anterior, onde os temas mais violentos e baseados no trabalho das guitarras alternavam com sequências de pop electrónica minimal, “à la” Kraftwerk, em “Futureworld” existe um primeiro bloco em estado de guerra, ficando a segunda parte reservada para a electrónica, aqui muito menos linear e mais voltada para a experimentação do que em “The Surveillance”.
Uma vez mais os Trans AM partem de premissas niilistas para a construção da sua música. Depois da vigilância e da manipulação exercidas pelo poder sobre o cidadão à escala planetária, a automatização (exterior e psicológica) e a desolação das cidades contemporâneas são as temáticas abordadas. Em tons de verde cibernético, sobre gráficos de vazio que apontam para um horizonte virtual, os Trans AM fazem chiar as guitarras, numa simulação de hard rock para o próximo milénio que faz soltar, de forma nada artificial, o medo e a adrenalina.
Ao nível de influências, os Trans AM transitaram do “Krautrock” dos anos 70 para a “coldwave” e para a pop futurista dos anos 80, com vozes filtradas por Vocoder e um romantismo electrónico que em “Television Eyes” bebe declaradamente nos Tubeway Army, de Gary Numan. “Futureworld” sintoniza na mesma frequência de “Radioland”, do álbum “Radio Activity”, dos Kraftwerk como a métrica dos Neu!; e “City in Flames” arranca das mãos de Henry Rollins e de Jim Foetus uma metralhadora de estilhaçoes, num excesso de agressividade. O tema mais brutal de sempre dos Trans AM. “AM Rhein” e “Cocaine computer” carregam na tecla industrial, com este último tema a usar o tipo de batida a óleos pesados dos Chrome, antes de reunir os cacos num funk saturado de ironia. A partir deste ponto os Trans AM espremem os sintetizadores, voltando aos Tubeway Army e aos Human League, em “Runners standing still”, experimentando com ruído rosa em “Futureworld II”, criando uma suculenta tapeçaria de electrónica analógica em “Positron”, antes de uma despedida formal do pós-rock, no tema final “Sad and Young”. É, cada vez mais, um prazer, entrar no mundo de pesadelos dos Trans AM. Mesmo que estes se possam transformar na realidade que nos espera.

Isan – Beautronics

26.03.1999
Isan
Beautronics (8)
Tugboat, distri. MVM


isan

Robin Saville e Anthony Ryan formam a dupla Isan, um novo projecto de música electrónica cujo álbum de estreia é, a vários títulos, notável e de audição obrigatória para os amantes do género. John Peel, o eterno radialista divulgador das novas sonoridades, referiu-se à música do grupo como evocativa dos “obscuros programas de televisão educativos que as crianças eram obrigadas a ver nos dias doentios de escola”. há, de facto, algo de infantil, simultaneamente colorido, sombrio e hipnótico, em “Beautronics”. As influências são óbvias: ainda e sempre os Cluster (menos de “Zuckerzeit” e mais da fase atmosférica encetada com “Sowiesoso”), os Pyrolator, Brian Eno (de “Another Green World”) e, ocasionalmente, a “cold wave” dos Human League, de “Dignity of Labour”. Minimalista, ambiental, incisiva e sempre imaginativa no modo como interliga os sintetizadores analógicos, a música dos Isan chega a tomar a forma de uma “kosmischemusik” em miniatura, como se o grupo transportasse o seu arsenal de brinquedos para o interior da nave que os Tangerine Dream construíram em “Phaedra” e “Rubycon”. Cada um dos 16 temas de “Beautronics” é uma pequena surpresa. Por vezes uma voz filtrada por um “vocoder” faz surgir um rosto humanóide que, de imediato, desaparece por entre uma série de curtos apontamentos designados por “Tint”, com subtítulos que, uma vez mais, não fogem à sombra dos Cluster: “Rosy Aplles”, “Cleary Caramel”, “C’est le tempo”, “Cheeky Cherry” ou “Skeek”, que inclui o “recital de uma orgia de robôs”. Um jogo de lego para montar.

Bobby Conn – Rise Up!

19.02.1999
O Anticristo Ataca
Bobby Conn
Rise Up! (8)
Truckstop, distri. MVM


bc

De vez em quando, aterra no aeroporto da pop gente estranha. Bobby Conn é o passageiro mais recente de uma comitiva de que fazem parte Kevin Ayers, Daevid Allen, Captain Beefheart, Kim Fowley, Brian Wilson, R. stevie Moore ou David Thomas, entre muitos outros. A “Roar Magazine” chama a este espécime bizarro “a brilliant demented genius”. Quanto a Conn, as suas pretensões vão no sentido de se assumir como um anticristo (entre outras coisas, afirma que Jesus está de volta, com uma pedrada de “crack”) que irá converter a América e o mundo ao poder da besta. As “Nações Unidas sob o poder de Satã” são sistematicamente anunciadas em registo de “surf music”, profetizando que o “armagedão”, o dia do juízo final, está próximo.
Além deste pequeno pormenor que poderá levar o planeta à ruína, Conn também fez a auto-amputação de um dedo, pretende que os seus discos sejam editados numa tal editora Cascablanca e afirma ser um cristão-novo, um orador, um guru e um chulo. Talvez por isso, o artista precipita no seu mundo delirante um dilúvio de referências que – se levarmos em conta uma lista lançada por alguma crítica norte-americana – integram Jon Spencer, Screamin’ Jay Hawkins, Captain Beefheart, Jackson Five, James Brown, Big Black, Schoenberg, Marilyn Manson, David Bowie, Frank Zappa, T. Rex, Mott the Hoople e os Beatles.
“Rise Up!” é um daqueles discos que resumem, de facto, uma quantidade de páginas da pop compreendidas entre os anos 60 e os 90. Um humor corrosivo e, por vezes, desconcertante, juntamente com o penteado em estilo cogumelo e uma facilidade enorme de percorrer, de canção para canção, estilos completamente contraditórios aproximam Conn de um farrista como Kim Fowley. A voz do cantor tanto soa a uma clonagem de David Bowie, de “Hunky Dory” e “Ziggy Stardust” (em “Rise Up” e “United Nations”) como se esganiça numa patetice tétrica dos Residents (“California”), ou estremece no falsete de Marc Bolan (“White Bread”).
Conn é o profeta da desgraça, numa paisagem apocalíptica de um desenho animado dos Jetson, flirtando com o jazz, a electrónica, o “disco-sound”, a country, o reggae, a bossa-nova, o funk e o rock ‘n’ roll, mas sempre num esquema de excentricidade que faz de “Rise Up” um manancial de surpresas e de reencontros na esquina errada da memória. Todo o universo visual e sonoro de Bobby Conn está desfasado, minado por uma esquizofrenia latente cujos sintomas são mais claros numa faixa como “A Conversation”, uma gravação de chamadas telefónicas captadas em directo, também neste caso convocando processos semelhantes aos usados por Kim Fowley na sua fase criativa de maior desiquilíbrio mental, em “Good Clea Fun” e “Outrageous”.
Ouve-se “Rise Up!” de ponta a ponta e não se percebe muito bem onde é que Conn pretende chegar, embora seja evidente a sua capacidade de nos surpreender a cada momento. Imaginemos, por exemplo, o que poderia ter acontecido – podemos imaginar tudo ao escutar este álbum!… – se Bowie tivesse levado o gravador, nos anos 70, para dentro de um armário, como fez R. Stevie Moore, esse glorioso maluco a quem o mundo um dia há-de fazer justiça. Apenas um palhaço que decidiu apresentar o seu conceito muito pessoal de “pós-rock”? Ou será que Conn é, afinal, um extraterrestre (mas daqueles excessivamente artificiais e coloridos, de “Marte Ataca”) disfarçado de rocker que escolheu mal a cabeleira?
Seja qual for a resposta, que nunca chegará, o melhor mesmo é voltar ao princípio e sorrir outra vez, porque nada parece estar no sítio onde parecia estar na audição anterior. A participação e produção de Jim O’Rourke ajuda a compreender muita coisa, mas não explica nada.