Arquivo mensal: Março 2009

David Thomas – artigo/entrevista (“Bay City”)

19.05.2000
David Thomas Lança “Bay City” Inspirado em Raymond Chandler
Mudar o Rock de um Lugar para Outro


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Não é fácil captar o que David Thomas tem para dizer. “Há uma mosca na pomada”. “O rock é uma mudança de uma grande caixa preta de um extremo da cidade para o outro nas traseiras do carro.” Nem o vírus da linguagem de Burroughs serve para explicar o mundo idiossincrático do líder dos Pere Ubu – a “membrana que separa o indivíduo do mundo”. “Bay City” é o seu novo álbum a solo. Inspirado na obra do escritor de policiais Raymond Chandler. O PÚBLICO falou com o “senhor das moscas”.
David Thomas é o cantor, ideólogo e líder carismático dos Pere Ubu, a mais importante banda norte-americana da geração pós-punk, juntamente com os Devo, Talking Heads e Suicide. Se a discografia do grupo tem sido o filme clandestino das mil e uma paranóias do “way of life” americano, em álbuns históricos como “The Modern Dance”, “Dub Housing”, “New Picnic Time” ou, mais recentemente, “Ray Gun Suitcase” e “Pennsylvania”, a carreira a solo de Thomas diverge ainda mais de qualquer manifesto de intenções ou da crítica social mais redutora. Thomas é um filho de Alfred Jarry (“Pere Ubu” é uma personagem criada por este escritor surrealista), o seu discurso, musical e poético, está pois longe de ser linear e as suas elucubrações escapam a qualquer interpretação ou ideologia, quando seria fácil enquadrar os delírios deste gordo com voz de criança em agonia num cenário freudiano, de psicologia de pacotilha. “A música rock é quase toda sobre transportar grandes caixas pretas de um extremo da cidade para o outro, na traseira do carro” é uma das tiradas elípticas deste músico que uma vez afirmou que “havia música a mais”. Instado pelo PÚBLICO a explicar um pouco melhor aquele conceito, respondeu: “Sim!”
“Bay City” é o capítulo mais recente de uma viagem pelos meandros de uma mente inquieta. Depois de formações erráticas como The Pedestrians – com os quais gravou o seu primeiro trabalho a solo, “The Sound of the Sand” -, os Wooden Birds e os The Pale Boys (presentes no álbum anterior do cantor, “Erewhon”), David Thomas chamou desta feita para o acompanhar, três músicos dinamarqueses, P. O. Jorgens (bateria, percussões e vibrafone), Jorgen Teller (guitarras e órgão Casio) e Per Buhl Acs (clarinete, melódica, guitarra “slide” e baixo) e chamou ao novo grupo The Foreigners.
“Bay City” tomou como fonte (curiosamente, como nos conta o canto, o encontro entre ele e o nórdico teve lugar num concerto organizado em redor de uma fonte em Copenhaga) de inspiração a obra do escritor de livros policiais Raymond Chandler. O jazz, a folk e o cinema encontram-se numa paisagem, como sempre, sem centro definido. Como faziam os surrealistas. “Procuro sempre inventar histórias a partir de recordações, experiências e visões partilhadas. Sons e palavras são sinais de código úteis para concretizar este propósito. Ao longo da minha carreira debrucei-me sobre aquilo que existe debaixo da superfície, do conhecido. O que envolve matérias folk”, explica.
As palavras e as ideias nem sempre são perceptíveis. Seja numa escala larga como o show “Disastrodome” que Thomas montou há dosi anos em Londres, no “musical” “Mirror Man”, gravado com convidados como Peter Hammill e Linda Thompson, entre outros, ou numa frase como esta “Está uma mosca na pomada” (do álbum de 1979, “dub Housing2), a suspeita de segundos e terceiros sentidos instala-se. Apesar disto, David Thomas não quer ouvir falar de uma frase como “a linguagem é um vírus”, proferida por William Bourroughs: “Tenho por hábito nunca concordar com nada que Burroughs tenha dito… ou possa dizer, ou pensar que tenha dito…”
Além dos álbuns já citados, David Thomas gravou a solo “Variations on a Theme”, “Winter Comes Home”, “more Places Forever”, “Monster Walks the Winter Lake” e “blame the Messenger”. Proferiu a conferência “The Geography of Sound in the Magnetic Age”, promoveu o espectáculo correspondente, “The Fall of the Magnetic Empire” e é dele a máxima “A arte existe para revelar segredos e, ao mesmo tempo, preservá-los”.
Também cantou a “Aria”, de John Cage. “Foi interessante, sobretudo, a maneira como foi feito”, explica Thomas, sobretudo “para alguém, como eu, para quem a improvisação é como que uma segunda natureza. O desafio foi a abordagem de uma peça escrita com a finalidade de obrigar músicos de formação clássica a saírem dessa formação e a improvisar. Senti-me estranho, a seguir uma partitura e, em simultâneo, a procurar sair dela”.
“Bay City” faz o ponto da situação no percurso musical e ideológico de uma personalidade ímpar. “O meu trabalho é serial”, explica o seu autor, “tudo flui de um projecto para o seguinte. Não faço parte do negócio de arranjar uma carreira pop. Preocupo-me antes de manufacturar cultura. Sob esse aspecto, o álbum não fala de mim. É sobre o interface, sobre a membrana que separa o indivíduo do mundo”.
No horizonte perfila-se já um novo álbum dos Pere Ubu, a sair no final do ano, com o título “Radioshacking America”. Entretanto, o grupo gravou um tema intitulado “Wasteland” para o próximo projecto de Wayne Kramer. O “pai Ubu” a inquietar, como sempre fez, a “mãe América”.

Strawbs – Hero and Heroine (conj.)

22.01.1999
Reedições
Obrigado, Cristo Pela Bomba
Os “blues” e a paranóia, o rock sinfónico e a poesia de um bardo celta – três apontamentos nas margens dos anos 70.

Os Groundhogs nasceram no final dos anos 60, isnpirados pelos “blues” de John Lee Hooker e pela pop dos Beatles e dos Kinks. Mas é no início da década seguinte que o grupo do guitarrista Tony McPhee atinge a maturidade e a popularidade. “Thank Christ For the Bomb”, de 1970 (reedição remasterizada), terceiro álbum da banda, reflecte a nota de estranheza que sempre caracterizou a música do grupo. A temática antibelicista, perspectivada com uma ironia e uma crueza pouco habituais na época, funciona como suporte de uma música assombrada por melodias aveludadas (John Peel tocou até mÀ exaustão o tema “Soldier”, cujas mudanças de tom e “nuances” vocais deixam adivinhar a presença fantasmagórica de Paul McCartney e Ray Davies…) e uma leitura dos “blues” pautada pela suavidade. Uma sonoridade estranha, fora do tempo e das regras de um estilo, “os blues”, que tony McPhee condensa no formato guitarra/baixo/bateria de forma inigualável.
Esta estranheza acentua-se em “Split”, de 1971, com reedição também remasterizada. “Split” disseca a paranóia e a dissociação de personalidade sofridas por McPhee, na consequência de um “flipanço” (seis meses de “bad trip”, incluindo a ressaca…) provocado pela ingestão involuntária (?) de LSD. A guitarra explode literalmente, nas quatro secções que compõem o título-tema, em solos de uma violência, intensidade e experimentação sónica que tocam o génio de Jimi Hendrix. O público britânico vibrou com o sofrimento e fez de “Split” um dos álbuns mais vendidos de toda a carreira dos Groundhogs – chegando ao 5º lugar do top.
“Hogwash”, de 1972, já com Clive Brooks, ex-Egg, no baixo, em substituição de Pete Cruickshank (que nunca chegou a recuperar a sanidade mental, também ele exagerando na dose de LSD…), introduz pela primeira vez a electrónica na música dos Groundhogs, acentuando ainda mais a dicotomia entre a força e a simplicidade emocional aprendidas com os mestres dos “blues” e um lado mais conceptualista e abstracto que McPhee constrói com o “mellotron” e uma panóplia de sintetizadores. Entre os “blues” psicadélicos e uma mutação aberrante da música cósmico-progressiva, “Hogwash” infecta como uma bactéria demoníaca. (BGO, Distri. Megamúsica, 8, 8, e 8)

Curiosamente, em paralelo com estas três reedições, foi lançado no ano passado um novo álbum dos Groundhogs, “Hogs in Wolf’s Clothing”, que assinala o regresso de Tony McPhee às origens, com uma colecção de versões de temas de outro dos seus heróis, Howlin’ Wolf, “bluesman” do Inferno, do abandono e do desespero absolutos. Uma viagem através da noite e da solidão, com a guitarra eléctrica de McPhee galgando até aos limites da desolação. (HTD, Distri. Megamúsica, 7)


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LINK

No extremo oposto do espectro da música dos anos 70, estão os Strawbs. “Hero and Heroine” e “Ghosts”, ambos editados em 1974, regressam remasterizados, como exemplo de uma música que nessa altura já deixara para trás a herança folk dos primeiros álbuns e superara o trauma provocado pela saída de Rick Wakeman. Nasciam os grandes instrumentais e as profundas tiradas poéticas típicas do rock sinfónico, na sombra dos Genesis e da herança dos Beatles, para onde Dave Cousins, vocalista de inquestionável carisma, empurrara o grupo. Sem atingir o brilho e a originalidade dos anteriores “From the Witchwood” e “Grave New World”, os Strawbs aproximavam-se aqui do fim de uma carreira, que se foi esvaindo num rasto de teatralidade e elegância. (A&M, import. Lojas Valentim de Carvalho, 6 / 6)

Ao contrário de Dave Cousins, Robin Williamson é um verdadeiro bardo. O cantor e multi-instrumentista dos Incredible String Band, extinta a sua parceria, nesta banda, com Mike Heron, pegou na harpa, viajou para a sua Escócia natal e perdeu-se nas névoas da mitologia e música célticas. Não é bem o caso de “Dream Journals 1966-76”, fragmentos instrumentais e peças declamatórias (exploradas por Williamson nos Merry Band), que o músico recuperou e alterou para criar um novo painel de sonhos onde o surrealismo se cruza com a magia das histórias e lendas que o ex-Incredible String Band narra de forma quase radiofónica. “Dream Journals” devolve-nos o prazer da escuta dapalavra. Da sua música, dos seus desenhos, das suas entoações mágicas. (Pigs Whisker, import. Virgin, 7)

7 Cidades – Lenda Do Arcebispo

05.02.1999
Portugueses
7 Cidades
Lenda Do Arcebispo (5)
Ed. RTP Açores, distri. Disrego


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“7 Cidades” começou por ser um espectáculo teatral do grupo Comédia d’Enganos, com base numa lenda sobre a lagoa açoriana das Sete Cidades, posteriormente adaptada para televisão pela RTP-Açores, que funcionou ainda como editora do presente registo discográfico. Nas notas introdutórias pode ler-se: “Aqui se cruza a dualidade da alma humana com alguns dos sinais telúricos que insinuam, entre assombros e nevoeiros, as nossas atlânticas mitologias.”
Quando se trata dos Açores e se fala em telurismo, o nome de José Medeiros não dev andar longe. De facto, o autor de “Feiticeiro do Vento” é um dos protagonistas de “Lenda do Arcebispo”, um álbum pleno de imagens e letras eivadas de simbolismo e misticismo. Medeiros canta “Talismã” e “7 Cidades (tema d’amor)” de forma mais discreta da que lhe é habitual, declamando ainda um curto poema em “Labirinto de fogo”. Dulce Pontes, outro dos convidados de “Lenda do Arcebispo”, assina as vocalizações principais em “7 Cidades”, “Idade d’ouro” e “Baía do silêncio”, qualquer delas sem razões para se destacarem da vulgaridade das composições, dentro daquele estilo que se convencionou chamar nacional-cançometismo, embora tomando como referência, no caso de “Baía do silêncio”, alguém como Simone de Oliveira.
De resto, todo o álbum sofre de alguma indefinição e da falta de rasgos de composição que façam jus às ambições do tema escolhido como fonte de inspiração, com o citado telurismo a aflorar apenas em “Dies Irae”, polifonia vocal grave e profunda, de terra e profundezas: “Agora a terra vai tremer / Agora o magma vai correr / Agora o grito vai romper / A nossa sorte / Agora a terra vai secar / Agora o tempo vai parar / Agora a lava vai lavrar / A nossa morte.” A voz solitária de Rita Ferreira apaga, por fim, em “À roda das 7 cidades”, a chama de um dragão manso.