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Nóirín Ní Riain – Entrevista

Pop Rock

24 NOVEMBRO 1993

“AQUELE QUE CANTA REZA DUAS VEZES”

Nóirín Ní Riain, “Vox de Nube” vem cantar a Portugal. Com uma voz que “vem de Deus”. A mesma que fez John Cage chorar e que um velho monge de Glenstal definiu como a “erotização do canto”.


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A música tradicional religiosa é o templo onde se comunica com o divino. Com os monges do mosteiro de Glenstal, numa peça de Hildegard von Bingen ou num campo de refugiados na Croácia, a irlandesa assume o canto como liturgia da Redenção. Mas também como algo de sensual e orgásmico. Capaz de a levar da igreja para um grupo de jazz.
PÚBLICO – O que a levou a dedicar-se ao canto religioso, em detrimento das canções gaélicas tradicionais.
Nóirín Ní Riain – Aprendi o primeiro cântico religioso aos 18 anos de idade. Comecei por cantar canções “seculares” e não sagradas. Quando escutei pela primeira vez a canção “The seven sorrows of the Virgin Mary” [incluída no álbum “Caioneadh na Maighdine” ou “Vox Clamantis in Deserto”, de 1980, já disponível em importação VGM] fiquei siderada. É uma das canções mais antigas da tradição irlandesa, trazida pelos franciscanos, que chegaram por volta de 1226. Depois surgiu a trilogia que gravei com os monges beneditinos do mosteiro de Glenstal, por sinal a única ordem beneditina masculina existente na Irlanda.
P. – Quais são as principais diferenças entre esses três discos?
R. – O primeiro, “Vox Clamantis in Deserto” foi feito em 1980, quando comecei a fazer intercâmbio de canções com os monges de Glenstal, dava-lhes e cantava canções tradicionais religiosas e eles retribuíam com cântico gregoriano. Trata-se então de um disco em que predomina aquele tipo de canções, algumas nunca gravadas anteriormente. Seguiu-se “Vox Populi – Good People All”, em 1982, que se centrou noutro tipo de tradição, dos “carols” de Natal, mas não do tipo popular cantado nas congregações religiosas. “Vox de Nube”, de 1989, é uma gravação com a música por que nos interessávamos na altura, uma mistura de estilos tradicionais na qual usei instrumentos e técnicas vocais indianos, experiência que encetei por volta de 1987. Foi também o disco em que cantámos pela primeira vez música de Hildegard von Bingen, a abadessa beneditina.
P. – Tradição e Religião. O que as une?
R. – Uma das frases que mais me influenciou foi escrita cerca do século IV e diz o seguinte: “aquele que canta reza duas vezes”. Também é verdade que “cantar é amar”. O canto e as canções centram-se na voz que é algo de poderoso e espiritual. Certa vez cantei na Polónia com uma cantora russa. Dizia-me ela que na sua aldeia não lhe pagavam por cantar, embora fosse uma cantora profissional. Os outros músicos eram pagos, ela não, porque, dizia, a “voz vem de Deus”. Não se recebe por algo que é transcendente. Felizmente que não se passa o mesmo na Irlanda.
P. – Que papel desempenhou a religião católica quando da sua chegada à Irlanda?
R. – Não existe na Irlanda uma tradição de hinos vernaculares, ao contrário do que acontece noutros países. Diria que a Igreja católica teve sobre a Irlanda como que um efeito secundário. A maioria dos temas religiosos irlandeses aparece fora da instituição sendo em primeiro lugar uma expressão singela de Fé. Falam de temas como a Virgem Maria a dar à luz o seu Filho que expressam sentimentos e emoções mais do que conceitos como a Imaculada Concepção ou a Assunção. Quando as mulheres irlandesas rezavam não o faziam a um Deus ou a uma Nossa Senhora elevados e imponentes, mas a alguém mais humano com que se pudessem identificar.
P. – Tem consciência da manifestação do diabo na sociedade moderna?
R. – Sobre isso existe um provérbio alemão que diz: “onde há alguém que canta não receies a maldade, porque as pessoas diabólicas não têm alma”. O canto é algo de benévolo. A voz, como já se disse, vem de Deus. O diabo surge quando alguém usa o canto para influenciar as pessoas de uma forma negativa.
P. – A música pode salvar?
R. – Em Setembro um grupo de ingleses esteve na Croácia, num campo de refugiados. Quando perguntaram aos refugiados o que é que queriam, responderam: “música!”. Estive lá há pouco tempo e vi pessoas no meio da maior pobreza, no meio da neve, esfomeadas, abandonadas… se conseguisse através do meu canto fazê-los transcender tudo isso, nem que fosse por um minuto…
P. – Como aconteceu e em que termos se processou o seu encontro com John Cage?
R. – Encontrei John Cage na Califórnia em 1989, num concerto em que participávamos os dois. Perguntou-me se conhecia o cantor irlandês Joe Heaney [Seosamh Ó hÉanay, em gaélico…] que foi precisamente com quem aprendi grande parte das minhas canções religiosas. Comecei a cantar-lhe uma delas e John Cage desatou a chorar. Falou-me de uma peça que pensava escrever para Joe Heaney cantar. Depois andámos juntos numa digressão de um festival de música moderna por Inglaterra. Fiquei a conhecê-lo bastante bem. Quando morreu organizou-se em Nova Iorque uma homenagem em que foram convidados os seus amigos para cantarem em sua memória. Fui um dos convidados.
P. – Fale-nos da sua experiência musical fora do contexto religioso.
R. – Comecei a trabalhar com o trompetista Markkus Stockausen. Fiz um concerto com ele e a sua banda A Paris, na Irlanda, há duas semanas. Devo voltar a vê-lo na próxima Primavera, na Alemanha. Foi deste modo que cheguei à arena da música moderna. Actualmente sou cantora num grupo local chamado Hiberno Jazz. A ideia de música contemporânea fascina-me já que o que eu faço é contemporâneo algo que é muito antigo. Refiro-me à improvisação, ponto fulcral do meu trabalho.
P. – Sente afinidades com Hildegard von Bingen, de quem já interpretou canções, em “Vox de Nube”?
R. – Claro que sinto. Mas convém não esquecer que Hildegard foi não só compositora como também visionária, ecologista, cosmóloga, dramaturga, pregadora, professora e profetiza… O papel de “Anima” que desempenhei numa das suas peças foi bastante fácil. Quase como se fizesse parte de mim. Acontece-me o mesmo com a sua música. Sou capaz de cantar as suas longas, longas sequências sem ter um único lapso de memória.
P. – Cantar é pois para si uma experiência religiosa…
R. – Há uma parte de um “Kyrie eleison”, em “Vox de Nube”, que não reduzo ao canto. Em certas ocasiões sou capaz de sentir cheiros e sabores. Até de ver cores.
P. – Há algo de erótico nessa descrição…
R. – Absolutamente. Lembro-me de uma vez, no mosteiro de Glenstal, quando cantava a música de Hildegard, um dos monges mais idosos descrever o processo como uma “erotização” do canto. É na verdade bastante sensual, de um ponto de vista feminino. Hildegard era mulher e escrevia para mulheres. Trata-se sem dúvida de uma experiência orgásmica.

CONVENTO DO BEATO, LISBOA
Dia 27 de Novembro



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Concertos – “Mestres em Despique” – John McLaughlin, Paco de Lucia, Vicente Amigo e Al Di Meola

Pop Rock

23 JUNHO 1993

MESTRES EM DESPIQUE

John McLaughlin, Paco de Lucia, Vicente Amigo e Al Di Meola reatam em Portugal o projecto “lendas da guitarra”, primeiro em separado, depois numa “jam session” conjunta, num duelo onde não se prevê que haja vencidos.


Al Di Meola, John Mclaughlin and Paco de Lucia

John McLaughlin em Trio

Mestre místico. De incondicional da guitarra eléctrica, ao lado de Miles Davis, rendeu-se às maiores delicadezas da sua irmã acústica, sob a influência dos ensinamentos do guru Sri Chimnoy. Na Mahavishnu Orchestra, juntou as orações e a electricidade no monumento ao jazz rock que é “Birds of Fire”. Depois desligou a ficha, juntou-se a músicos indianos, cruzou as pernas e sentou-se no chão a tecer encantamentos com os Shakti, como “Handful of Beauty” e “Natural Elements”. Não têm conta as lições de guitarra que leccionou em disco. Decorem-se as seguintes: “Bitches Brew” (de Miles Davis), “Extrapolations”, “The Inner Mountain Flame”, “Birds of Fire”, “Electric Guitarists”. Em todas elas, John McLaughlin provou que a guitarra pode ser uma religião.

Paco de Lucia em sexteto

Mestre do flamenco. Duende do flamenco. Conseguiu juntar com êxito – e como se fosse a coisa mais natural deste mundo – a música cigana e o jazz. E talvez seja, de facto, o casamento mais natural deste mundo. Tocou já em Portugal, onde deixou atrás de si um rasto de fogo. Alia a fidelidade às técnicas de interpretação ciganas com um notável espírito de improvisador. Talentos que podem ser apreciados em registos discográficos abrangendo um leque de estilos diversificado, que vai do flamenco puro e da interpretação de Andres Segovia à recriação do célebre “Concerto de Aranjuez” e às improvisações jazzísticas partilhadas com McLaughlin e Di Meola, em “Friday Night in San Francisco” e “Passion, Grace & Fire”.

Vicente Amigo em quinteto

Mestre do flamenco mas mais novo. Como Paco de Lucia, não encara o flamenco como uma natureza morta, antes como um campo musical fértil de possibilidades de cruzamento com outras músicas. Vicente Amigo brilhou no ano passado em Sevilha, no célebre festival “lendas da guitarra”. A música cigana pode contar com ele para a transportar ao futuro. No nosso país, a televisão tem-lhe feito a desfeita de pôr os seus espectáculos em confronto directo com outros mais popularuchos. Inevitavelmente, ganham os popularuchos. A partir do dia 25, contudo, espera-se que Amigo passe a ser um vencedor.

Al Di Meola em trio

Mestre das fusões latinas. Começou por ser influenciado pelos Beatles, depois ouviu Miles Davis e não voltou a ser o mesmo, após o que ouviu Chick Corea e voltou de novo a não ser o mesmo. Optou pelo pianista (Corea, Miles é mais a trompete), que o deixou fazer parte dos Return to Forever. Além de ter participado no tal trio com John McLaughlin e Paco de Lucia, gravou uma série de álbuns onde nunca conseguiu mostrar ser tão bom compositor como os seus companheiros. “Casino”, “Splendid Hotel”, “Electric Rendez-vous” ou o acústico “Cielo e Terra” não passam de obras de fusão, competentes é certo, mas sem a centelha de génio que frequentemente atinge os seus amigos. O novo álbum “Heart of the Immigrants”, com a banda recente, World Sinfonia, não traz nada de novo, tendo pelo menos a virtude (para alguns…) de pretender dar um rosto moderno às sonoridades sud-americanas. Aquilo para que, de facto, tem mais jeito.

Dia 25,
CAMPO PEQUENO, 22H



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Kate Bush – “O Fruto Amadurecido” (artigo de opinião)

Pop Rock

27 OUTUBRO 1993

O FRUTO AMADURECIDO

No princípio era a voz e uma presença que provocavam arrepios, de uma adolescente de 19 anos a voar na vertigem do “Monte dos Vendavais” (“Wuthering Heights”), das irmãs Brontë. Com a passagem dos anos, Kate Bush cresceu e desceu do alto do monte. As danças eróticas de fada deram lugar à possessão por um par de sapatos vermelhos. Em “The Red Shoes”, o novo álbum, o fruto proibido abriu-se em fruto amadurecido.


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Passaram 15 anos desde que Kate Bush espantou o mundo com um álbum de estreia avassalador, “The Kick Inside”, considerado por muitos uma das obras marcantes do final dos anos 70. Nele impressionava em primeiro lugar a voz, aguda e sensual, de uma jovem que projectava a imagem típica da mulher-criança, ao mesmo tempo inocente e perversa. De “The Kick Inside” emanava uma aura perturbante de sexualidade, que, de faixa para faixa, se manifestava desde a alusão poética mais ou menos camuflada, a uma linguagem explícita dos corpos e das suas pulsões.
Foi sempre assim e cada vez com mais força, pelos álbuns seguintes. Junte-se esta energia que saía directamente do corpo e dos seus movimentos – da voz à expressão corporal, que Kate Bush sempre desenvolveu – a uma capacidade de experimentação com os sons rara numa artista da sua idade e teremos a media exacta dos eu talento.
“Lionheart” e “Never for Ever”, respectivamente de 1978 e 1980, enveredavam por um lado mais misterioso e onírico, tipicamente inglês, influenciado pelos poetas românticos e pela mitologia celta, povoada de seres fantásticos – fadas, duendes e todo um bestiário de monstros, que conviviam sem problemas com os humanos. Kate Bush transfigurava-se e adquiria as formas do leão, em “Lionheart”, enquanto em “Never for Ever” entrava directamente no cenário da fábula uma “Lucy in the sky”, bucólica e misteriosa, a acenar de dentro de um sonho.

Arquétipos do feminino

Em “The Dreaming”, álbum de 1982, Kate Bush assina, quanto a nós, o seu melhor trabalho de sempre. Obra de múltiplas experiências, quer ao nível formal, quer ao nível emocional, nela a cantora usa a voz da mesma maneira que uma actriz, encenando com minúcia cada canção, fazendo assomar à superfície os medos, os desejos e os arquétipos de uma feminilidade que, álbum após álbum, se tem vindo a declarar de forma cada vez mais explícita.
Feminista no sentido profundo do termo, na descoberta do ponto interior onde o “feminino” transcende a dualidade dos sexos, Kate Bush canta, em metáforas por vezes demasiado conotadas com uma perspectiva psicanalítica, (as figuras do pai – sobretudo em “The Dreaming” – e da mãe, cuja morte recente ensombra “The Red Shoes”, estão quase sempre presentes, o que, de resto, ela não esconde), o amor em todas as suas variantes possíveis: o amor-paixão, o amor-amizade, o amor platónico, o amor filial, o amor fraternal, o “amor” em solitário…
“Hounds of love”, com a fotografia dos cães que se imagina libidinosos, e “The Sensual World”, inspirado numa novela de James Joyce, prolongam e definem a imagem de uma artista empenhada em decifrar os mais íntimos mistérios da sua alma, que, como se sabe ou deveria saber, numa mulher anda por natureza ligada ao corpo. Só assim se compreendendo, de resto, a importância concedida desde sempre por Kate Bush à dança, ao movimento corporal que, em simultâneo, desencadeia os movimentos da “anima”. Nesse rodopio total, em espiral, se tem desenvolvido o percurso evolutivo da intérprete. E quanto mais o corpo e a alma rodopiam, mais o fogo da sensualidade vem ao de cima.
O ritmo, o batuque e o transe ganham terreno nestes dois discos. A este aumento da pulsação sanguínea não é alheio o encontro com Peter Gabriel, com quem Kate encetou desde 1986 uma colaboração regular. Como ela, também o ex-Genesis procura a natureza andrógina perdida. Veja-se, sob esta luz, os corpos dos dois, enlaçados num amplexo que dura o tempo de um eclipse, nesse original e estranhíssimo vídeo que é “Don’t give up”. Repare-se ainda no que Gabriel diz em “Blood of Eden”, uma das canções do seu disco mais recente, “Us”…
Aliás, é preciso dizer que a música de ambos se assemelha cada vez mais. Aproximação recíproca que, num e noutro, parece infelizmente caminhar no sentido da normalização. ”The Red Shoes”, não o escondamos, padece deste sintoma.

Enganar o tempo

Por outro lado, acentuou-se o apelo antigo pela coreografia das imagens e dos sentimentos. Kate Bush encena-se a si própria, às suas histórias e obsessões, desmultiplicando-se em “clips” que mostram as transformações que o tempo inscreveu no seu corpo. Ao mesmo tempo que as iludem, num simulacro de eternidade. O cinema, pois claro, essa fantasia do diabo que altera, para melhor manipular, os fluxos do real. Como a máquina de “Cloudbursting”, com Donald Sutherland, que altera os padrões do céu. E o que haverá para ver no vídeo que acompanha o novo álbum, “A Lion, A Cross and A Curve”, contando com as interpretações de Miranda Richardson e Lindsay Kemp.
Se em “The Sensual World” Kate Bush ainda dança livremente entre as florestas e as criaturas da noite, em “The Red Shoes” a dança, da qual a cantora se manteve afastada durante alguns anos, parece forçada, resultante do encantamento de um par de sapatos vermelhos, numa alusão directa ao filme do mesmo nome, realizado em 1948 pelo cineasta britânico Michael Powell. O mistério de outrora perdeu-se. Diz-se que a adolescência é a fase da vida em que o sonho se cruza com a realidade. Em que os espíritos tomam o lugar e a voz dos indivíduos. Em que os planos se confundem. Assim aconteceu com Kate Bush. Aos 35 anos de idade, essa magia perdeu-se ficando em seu lugar uma respeitável matrona inglesa, a fazer exercícios de ginástica aeróbica com a memória.

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