pop rock >> quarta-feira >> 15.06.1994
O Instinto Do “Matador”
Losadas e Chano Dominguez são por enquanto artistas de flamenco pouco conhecidos em Portugal. Situação que poderá ser alterada muito em breve, uma vez que se trata de duas propostas bastante originais nesta área, como de resto se poderá verificar no próximo concerto de ambos no nosso país ou nos álbuns “Chano”, de Chano Dominguez, e “Pa Llorar de Momento”, dos Losadas, ambos da editora Nuba, com próxima distribuição nacional pela Dargil.
Chano Dominguez, pianista natural de Cádis, integra o grupo de intérpretes de flamenco praticantes da fusão deste género musical com o jazz, na tradição de grandes nomes como Paco de Lucia, Carlos Benavent, Jorge Pardo, Pedro Iturralde e Toti Soler, entre outros.
Vencedor de vários prémios de interpretação em Espanha e no estrangeiro, Chano tocou com Philippe Catherine e fez parte do grupo CAI, uma mistura de rock com flamenco. Entre os subscritores da aliança jazz/flamenco estão Chick Corea, Miles Davis, com “Flamenco Sketches” e John Coltrane, com “Oie”. Qualquer deles soube retirar do flamenco elementos enriquecedores para a sua música.
É assim que as estruturas rítmicas e harmónicas do flamenco (“palos”) e em particular das “bulerias”, tangos, “alegrias” e “soleás”, se casam com o discurso improvisacional do jazz. Em “Chano” um “standard” como “Naima”, de Coltrane, transforma-se num tango, citações de Monk diluem-se nos meandros de uma “buleria”. McCoy Tyner e Bill Evans, outras duas referências no estilo do pianista, entontecem-se com as tablas e palmas que marcam os andamentos íntimos da Andaluzia. A ideia da capa do álbum de Chano Domínguez, que em breve estrá disponível em Portugal, é esclarecedora: Um touro mira de longe, preparando-se para investir sobre a silhueta de Manhattan.
Mais tradicionalistas nos sons e na atitude, os Losadas, apelido dos três irmãos guitarristas Vaky, Diego e Tito, membros de uma família cigana de Madrid, têm já uma larga reputação. Fizeram apresentações para a família real inglesa e participaram em espectáculos de flamenco como “La Misa Flamenca”, com a companhia de Paco Pena, apresentado no Carnegie Hall de Nova Iorque e em Londres, no Robert Albert Hall, “Cumbre Flamenca”, “Flamenco Fusion” e o Festival internacional de guitarra de Córdova. Tito, um dos elementos do clã Losadas, colaborou igualmente em espectáculos de flamenco, como a versão da ópera “Carmen” apresentada no Estádio Yoiogi, em Tóquio. No Japão, a obra desta família cigana é particularmente apreciada, ao ponto de ter levado à colaboração dos Losadas com Terumasa Hino, no espectáculo “On the road with Terumasa Hino”, apresentado em várias cidades nipónicas.
“Pa Llorar de Momento” é, sem sombra de dúvida, um disco recomendável a todos os apreciadores de um género que entre nós vem ganhando cada vez mais adeptos. Os “palos” preferidos dos Losadas são as “balerías”, o “taranto”, a rumba, a “granaina”, a “soleá” e o tango. Há quem encontre na sua música o cruzamento da tradição de Camarón de la Isla com a modernidade dos Ketama. Vale a pena escutá-los e apanhar esse momento único que é o “instinto gitano”.
17 de Junho, Teatro de S. Luiz, Lisboa, às 21h30












