Se houvesse um Prémio Nobel subjectivo e intransmissível, atribui-lo-ia a Peter Hammill, músico e poeta inglês em actividade desde os anos 60. Mas esse é o curso subterrâneo e mágico das afinidades e das coincidências da alma. Artista romântico, no sentido em que o indivíduo concentra sobre si o grande combate cósmico do bem contra o mal, Peter Hammill acrescentou a esta dimensão, que prolonga o drama existencial de poetas como Novalis ou Höelderlin, uma extraordinária capacidade poética e um não menor talento para teatralizar vocal e instrumentalmente a força do verbo. Um verbo que desce à Terra pelos braços do inconsciente colectivo de Jung e de Laing numa ampliação que é, também, uma aventura vivida em conjunto e em segredo no cume da montanha de que Nietzsche falava. Bastaria o facto de ter gravado duas das obras-primas que hão-de asombrar, para sempre, a música popular – “Pawn Hearts”, de 71, com os Van Der Graaf Generator e “In Camera”, de 74, a solo – para ser digno de um prémio na categoria imaginária dos Grandes Exploradores.
… já agora, o resto da lista… “always the list”:
Nuno Pacheco –> Amália
Augusto M. Seabra –> Pierre Boulez
Nuno Corvacho –> Brian Eno
Luis Maio –> KLF
Cristina Fernandes –> Yehudi Menuhin
Carlos Mota –> Lou Reed
Virgílio Melo –> Karlheinz Stockhausen
Rui Catalão –> Caetano Veloso
Rui Cidra –> Neil Young
“E agora, o quê?”, pergunta Peter Hammill. Chegado aos 53 anos, o músico, poeta e antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator, interroga-se, como não podia deixar de ser, sobre o tempo e as marcas da sua passagem. “What, Now?” provoca no admirador incondicional da obra deste trovador dos tempos modernos, impressões contraditórias. Em termos exclusivamente poéticos, o álbum pauta-se por um retorno aos grandes temas cósmicos e filosóficos – a solidão do indivíduo, a descoberta de um sentido para a vida ou a submissão religiosa, que caracterizavam obras máximas como “The Silent Corner and the Empty Stage”, “In Camera” e a trilogia a preto e branco, “The Future Now”, “PH7” e “A Black Box”. Neste particular, “What, Now?” contém temas merecedores de reflexão, por sinal os mais longos, nos quais Hammill se questiona sobre os limites da individualidade, da santidade e da paranóia, como “Here comes the talkies2, “Lunatic in Knots” e “Edge of the Road”. As palavras, saídas da experiência ou arrancadas ao inconsciente colectivo, que Hammill rompeu a golpes de uma introspecção violenta, são arrebatadoras na exposição, por vezes trágica, do homem apresentado na sua dimensão de divindade aprisonada. Pelo tempo, pela carne, pelo pensamento, pelos outros, por si próprio. “So many angels/ However man can there by, ghosts and djinns/Dancing on the head of a pin?/How many questions are left unresolved?/Exactly where do I begin/Now that the walls are closing in?/Who’s the lunatic/And who’s the sensible soul deep within the skin/Hanging on and listening in…?”, pergunta, em “Lunatic in Knots”, trazendo à lembrança a grande dilaceração entre o ego, os anjos e os demónios (os “djinns” bíblico…) da obra-prima dos Van Der Graaf, “Pawn Hearts”.
Mas há o reverso da medalha num álbum marcado pelas guitarras e pela electrónica épicas aos quais não terá correspondido, desta feita, uma produção à altura. Falta espaço e tridimensionalidade a este conjunto de canções marcadas por uma profunda tristeza. O tempo, sempre o tempo, não perdoa, e faz sentir os seus efeitos na voz. A “What, Now?” falta o “punch”, a força e a revolta de antanho que tornavam cada intervenção vocal de Peter Hammill num tornado ou numa prece tocada pelo fogo sagrado. O que parece indicar que esta tensão poética que em “Waht, Now?” subitamente se reacende, já não conseguirá traduzir-se numa catarse como a de “In Camera”, mas poderá continuar a desenvolver-se em terreno de excepção na veia mais intimista de “Fireships” ou dos recentes “This” e “None of the Above”. “The boy’s alive, the boy is in the man”, canta o poeta-músico em “Wendy & the lost boy”. Pressente-se o drama. O Peter Hammill de “What, Now?” não perdeu a pureza do Peter Hammill de “Fool’s Mate” (1971), mas o corpo enfraqueceu (as imagens da capa parecem contradizê-lo, numa série de fotos do músico em movimento, entre a prostração e a tentativa de voo). Porém, Hammill já venceu a morte e essa é a maior das suas vitórias, no decurso de uma longa ascese, sem precedentes na música deste século.
“What, Now?” dá ainda a conhecer o Hammill profeta, em “The American Girl”: “The American girl stubbed her toe on the old world/And the old world’s unforgiving rigidity/Well, times got hard/And talk came cheap/She found that finally/Something wasn´t right across the sea…/Now she´s stateless in all but her memory”. E agora, o quê?
Volvidos 30 anos sobre o início de carreira, consumida a loucura cósmico-existencialista dos Van Der Graaf Generator, Hammill prossegue a sua viagem pelos confins da loucura e do amor. “This”, gravado com a companhia habitual dos saxofones alucinados de David Jackson, o violino e viola-de-arco de Stuart Gordon e a bateria de Manny Elias, é uma explosão de energia e de mensagens cruzadas que brotam em discurso directo de uma alma atormentada. Depois de uma fase de alguma estaganação, Hammill parece ter encetado, a partir de “X my-heart” e “Everyone You Hold”, o caminho que o levará, por fim, a descobrir os segredos que se ocultam por detrás do horizonte. Recuperam-se e reordenam-se em “This” antigas e novas angústias, antigos e novos sons, numa eterna mutação de descoberta interior. Dos Van Der Graaf, escutam-se as convulsões, em “Frozen in place”, positivamente enlouquecido pelo sax de Jackman; A electrónica ordenada segundo os esquemas da esquizofrenia urbana, de “The Future Now” e “PH7”, assomam em “Stupid”. E há, ainda e sempre, a poesia imensa de um piano enegrecido pela noite a embalar o pesadelo, como se este fosse uma criança, em “Since the kids”. Mais o mergulho nas tapeçarias étnicas de “Nightman”, o choro de cordas de “Fallen (City of Night)” e o poder multifónico e multivocal de “Always is next”, tatuado a fogo e adrenalina. Encerrando-se a cerimónia com os 14 minutos de “The light continent”, reverso lunar, iluminado pela visão e pela profecia, através das profundezas da esperança e da dor, escuridão absoluta e do dilúvio sulfúrico que caracterizam uma das sequências poético/instrumentais mais aterradoras de toda a música popular, “Magog (In Bromine Chambers)”, da obra-prima “In Camera”.