Uma colheita de ouro, a do ano que findou, de música portuguesa com as raízes mergulhadas na tradição, só comparável à da segunda metade dos anos setenta, com a digestão consumada da ressaca da revolução de Abril.
Três grupos recolheram os louros, assinando trabalhos discográficos notáveis que fizeram a música de raiz tradicional portuguesa avançar um passo de gigante: Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa e Realejo, por ordem cronológica de edição dos respectivos discos, “Danças e Folias”, “Invasões Bárbaras” e “Sanfonia”. Num registo menor, os Quadrilha garantiram o apoio logístico aos generais, com o seu folk rock sem pretensões de maior, em “Até o Diabo se Ria”.
O que faz dos álbuns atrás mencionados obras que vão ficar na história é o facto de cada um deles apontar um caminho no sentido da renovação do legado tradicional. Nenhum está anquilosado no passado. Logo, nenhum deles sofre de artrite, reumatismo ou esclerose. Tal não significa, porém, que se possa passar ao lado, ou, por inépcia, massacrar a música tradicional, por natureza sensível aos maus tratos. Quem conhecer os músicos que compõem tanto a Brigada como os Gaiteiros, verificará que todos eles se submeteram ao longo de anos e anos a um processo de evolução e aprendizagem que se poderá considerar alquímico. Do trabalho de recolha dos primórdios às liberdades tomadas no presente, vai uma jornada longa e, amiúde, dolorosa. Recuperar e actualizar a tradição é perpetuar essa mesma tradição. Criar novas formas a partir do barro exige o conhecimento do barro e as suas técnicas de manipulação. A alma esconde-se na pedra. A luz habita no âmago das trevas. Picasso demorou uma vida até conseguir pintar como uma criança. Umas “uillean pipes” demoram anos até ganhar vida e voz próprias. Não é quem quer, mas quem sabe, quem tem o direito – e o dever – de arrancar a erva daninha e o “folclore”, enquanto deterioração enfeudada a um qualquer poder político, que fazem definhar a verdadeira música – os seus gestos, as suas melodias, as suas cadências, os seus rituais – das comunidades rurais ainda existentes. Não é quem quer, mas quem sabe, quem tem o direito – e o dever – de inventar novas vozes, sobrepondo-se às vozes que levam de vencida e se incrustam no tempo.
A Brigada evitou as rupturas bruscas, apostando no reformismo. Os festejos, sem convulsões, do seu 20º aniversário não poderiam ter sido melhores, não só pela edição de “Danças e Folias”, como pela reedição em compacto de “Eito Fora” e “Contraluz”, culminando num concerto memorável, em Dezembro, no São Luiz. Os Gaiteiros entraram a matar, com a voracidade de predadores. “Invasões Bárbaras” é uma aposta no excesso e na diferença que não deixa ninguém indiferente e volta a agitar as águas mornas de algum contentamento, representando para os anos 90 o que o GAC representou para os 70.
Deixámos para o fim os Realejo, projecto de Fernando Meireles, que partiram de outro lugar e de um outro modo de olhar. Se o objectivo primeiro foi recuperar a dignidade e o prestígio perdido em séculos passados, da sanfona, a verdade é que o som de “Sanfonia”, até pela ênfase colocada naquele instrumento, apresenta características que o aproximam de uma certa forma de “fazer tradicional” disseminada pela Europa, algures entre a música antiga e o folk progressivo das grandes bandas, sobretudo francesas, dos anos 70 (Malicorne, Mélusine, La Grand Rouge, La Bamboche, La Marienne, Maluzerne).
Entre as várias conclusões possíveis de extrair desta trindade que em 1995 ganhou um corpo novo e um novo alento para a música portuguesa, não só tradicional, uma há que se reveste de particular importância. A dessacralização de Michel Giacometti, acompanhada por uma visão mais lúcida e, sem dúvida, mais frutuosa do seu trabalho no campo das recolhas e catalogação dos espécimes étnicos. O seu espólio deixou de ser considerado um mito e, como tal, um dogma, passando a constituir um ponto de referência e de consulta, enquanto material de trabalho prático, à disposição de todos, na condição de não terem mãozinhas de chumbo.
Foi este, aliás, um dos principais tópicos do debate sobre música tradicional e de raiz tradicional portuguesa promovido pelo pop Rock no mês de Novembro, com a presença dos convidados Tentúgal, dos Vai de Roda, Carlos Guerreiro e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge e José Martins (Ó que Som Tem). “O futuro, já!”, título que escolhemos para ilustrar o referido debate, poderia ser, de resto, o lema de uma nova atitude perante a tradição, carregada em simultâneo de sabedoria, ousadia e espírito de inovação. Neste cenário de promessas cumpridas, acompanhado da separação do trigo do joio (1995 foi um mau ano para a “MPP – música popularucha portuguesa”, ou então não se deu por ela, o que vai dar no mesmo…), ficou ainda reservado um lugar de honra para um disco de recolhas onde é possível desfrutar o canto e a música genuínos da população rural de uma localidade de Trás-os –Montes, “Idanha-a-Nova, Toques e Cantares da Vila”, considerado pelo Pop Rock um dos melhores discos de música tradicional do ano, resultado da investigação de José Alberto Sardinha.
A última boa notícia é que o ano que agora se inicia, a confirmarem-se as expectativas, vai ser pelo menos tão bom como o anterior.
GAITEIROS DE LISBOA
Invasões Bárbaras
Ed. Farol, distri. BMG
Numa primeira audição, esta “invasão” provoca algum desconforto. Não é um disco fácil. Os Gaiteiros de Lisboa confundem e incomodam. Preferem arriscar a petiscar. Lutadores, empunham uma espada do mesmo calibre da que em vida empunhou José Afonso. Desbravar o que ainda não existe e, com o impossível, fazer obra.
O arranque não podia ser mais “naturalista”, ao som de piares campestres. Paz que é pura ilusão. As gaitas surgem de imediato a reivindicar o espaço, abraçadas a uma polifonia vocal, tipo corso. Em “A ribeira do sol posto” – heresia das heresias -, o “cante” alentejano recebe a companhia “desavergonhada” de um bordão de sanfona, ambos embalados pelo tamborilar de sonho da água que teima em não chover na planície. A utilização em força dos bordões, tanto da sanfona de Carlos Guerreiro como das gaitas-de-foles de Rui Vaz, Paulo Marinho e José Manuel David é, aliás, uma das características que reforçam a imagem “telúrica” do disco. O que mais uma vez acontece como pano de fundo de “Se eu soubesse que voando…”, híbrido África/Beiras/Banda do Casaco, com passo negro conferido por um “kessange” (também conhecido como “mbira” ou “kalimba”, consoante as paragens). Nesta, como nas restantes doze faixas do disco, é notório o dedo de José Mário Branco, na produção, nos arranjos e na direcção musical. Presença que se faz sentir na estética de subtracção do supérfluo, característica deste compositor-intérprete, mas também ao nível da postura radical adoptada pelo grupo, na sua relação pouco pacífica com a música tradicional.
No limite extremo desta viagem de “fuga” em direcção aos limites mais improváveis de uma música cujo imaginário radica no mito e numa estética de confronto, passando sobranceiramente ao lado de toda e qualquer tentativa de gestos e relações por essência irrepetíveis fora do seu contexto natural – estão a experiência formal de “Cinco por quatro” ou a versão de “La sarandillera”, bastante mais ousada que a de Né Ladeiras, em “Traz os Montes”. Disco pretensioso, sem dúvida, no modo como escapa a qualquer catalogação e se distancia com orgulhos dos caminhos mais fáceis e mil vezes trilhados de fazer “música de raiz tradicional”. Disco experimental, também. Os Gaiteiros, mais do que usar, abusam do legado tradicional, entregando-se a cirurgias de parto capazes de originar os mutantes de uma nova tradição ou, em termos gráficos, a instrumentos como a “besta-de-foles” da capa. E se temas como “Talvez que sonhando” ou “Décimas” surgem marcados pela influência, respectivamente de José Mário Branco e Fausto, outros, verdadeiramente de antologia, como “O menino está na neve”, erguem a nossa música popular a patamares nunca antes atingidos. Música “bárbara”, sem dúvida, pela heresia formal que a enforma, e porque fremente e virgem dos maneirismos que deitam tudo a perder e fazem nascer o preconceito.
Depois de Né Ladeiras, da Brigada e do manifesto premonitório dos Vai de roda, “Invasões Bárbaras” assinala novo e decisivo momento num ciclo que, esperamos, venha deitar por terra o império do conformismo, do fingimento e da palmadinha das costas que sempre foram o serão sinais de decadência. (9)
Há 20 anos havia uma bandeira e um exemplo a seguir, o de Giacometti, que recuperou para um país o rosto perdido da sua identidade. Hoje, há trabalho feito e um futuro que começa a ser trilhado com segurança. Foi a obra pioneira do musicólogo corso, nos anos 60, e dos grupos de recolha como o GAC, Almanaque, Brigada Victor Jara ou Raízes, na década seguinte, que permitiu avançar até aos resultados que hoje se conhecem, materializados em discos como “Terreiro das Bruxas”, dos Vai de Roda, “Todos os Dias”, de Amélia Muge, “Traz os Montes”, de Né Ladeiras, “Danças e Folias”, da Brigada, e “Invasões Bárbaras” dos Gaiteiros de Lisboa. Discos capazes de romper com o medo de avançar e de situar a “folk” nacional ao lado dos melhores da Europa. Um presente risonho para a música portuguesa de raiz tradicional que promete prolongar-se pelos tempos mais próximos, nos álbuns, já anunciados, dos Realejo, Cramol, O Ó que Som Tem, bem como nos novos dos Vai de Roda e de Amélia Muge. O PÚBLICO decidiu convidar alguns dos protagonistas desta nova idade de ouro da MPP para fazerem o ponto da situação. Acorreram à chamada Amélia Muge, José Martins (companheiro musical de Amélia e O Ó que Som Tem), Tentúgal (Vai de Roda), José Manuel David (Almanaque e Gaiteiros de Lisboa) e Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa). Disparou-se o tiro de partida com a memória de Giacometti para se chegar à conclusão de que, se há já alguma obra feita, outra tanta está ainda por fazer. Pelo meio desfizeram-se algumas ilusões e lançaram-se alguns ataques. Melhor ainda: preconizaram-se soluções. Bom sinal: num cenário em que até há bem pouco a estagnação predominava, separaram-se as águas, já há os bons e os maus. Sinal de que a tradição está viva e de armas na mão
“DIFÍCIL CANTAR POR CIMA DE UMA DEBULHADORA MECÂNICA”
Escolhidos alguns tópicos, seleccionámos, de uma longa conversa, as declarações que nos pareceram mais significativas de cada um dos cinco músico presentes. A ideia é relançar a discussão sobre o passado, o presente e o futuro da música tradicional, ou de raiz tradicional, portuguesa. Com a figura exemplar de Michel Giacometti a servir de inspiração e pano de fundo.
P. – O espólio de Giacometti. Há ainda trabalho de arqueologia por fazer ou será tempo de trabalhar esse mesmo espólio, revitalizá-lo, manipulá-lo como ponto de partida para experimentações sobre os materiais tradicionais?
Carlos Guerreiro – Quando chega a altura de trabalhar a música tradicional portuguesa é ao Giacometti que as pessoas vão. O seu trabalho não só e importante por aquilo que conseguiu gravar e recolher, como pelas pistas que forneceu. Houve muita gente, como o José Manuel David ou o José Alberto Sardinha, dos Almanaque, ou eu próprio, que agarrava num gravador manhoso e ia por aí fora só pelo prazer de ouvir as pessoas cantar. Descobrimos que havia outras vias, coisas que ainda estavam vivas, formas estranhas de cantar a música portuguesa, não poluídas.
José Manuel David – Foi também um escape para os músicos urbanos, que, de repente, descobriram que havia música portuguesa diferente nas diferentes regiões do país. Hoje em dia, como as coisas estão, para fazer recolhas é preciso ter alguma formação, não basta ter um gravador, quando se sabe que há musicólogos que trabalham em África e aprendem as línguas nativas. Nós nunca fizemos bem isso, sabíamos que o Giacometti tinha estado nos sítios e íamos com a nossa boa vontade e ingenuidade ouvir o que as pessoas tinham para nos mostrar. Tudo isto implicou uma mudança, em termos sociais, em pessoas como nós, que começaram a ouvir música com os Beatles.
P. – Hoje o trabalho de recolha faz tanto sentido como duas décadas atrás?
José Manuel David – A música tradicional não é um objecto estático. Como tal, evolui, embora dentro de determinados parâmetros. Sociais e musicais. Por exemplo, um tocador de cavaquinho que toca um instrumento que, se calhar, nem afina bem, mas encontra um construtor que constrói melhor, melhorando desta forma o som. O que Giacometti e outros como ele fizeram foi um corte sincrónico na realidade, na tentativa de descobrir comos as coisas estavam num determinado momento. Hoje já não se canta nem toca da mesma forma que no tempo de Giacometti. Estou a lembra-me, por exemplo, da gravações da Ti Chitas, feitas pelo Giacometti, em que ela canta de uma maneira, nas mais antigas, enquanto em gravações mais modernas já canta de outra.
Amélia Muge – Essa mudança tem que ver com a música, com as pessoas e connosco próprios. Aquilo que o Giacometti poderá ter representado para nós há dez anos se calhar já não é a mesma coisa que representa hoje. A minha primeira ligação foi com as músicas em si, só muito mais tarde é que consciencializei o facto de haver um senhor por trás que fizera as recolhas. Era a necessidade de perceber onde é eu a nossa música se insere em relação a um arco mediterrânico, um arco céltico, ou mesmo um arco Índico.
Tentúgal – Como eu dizia há uns tempos, há que retirar as aspas ao folclore. Lembro-me do tempo do “serviço cívico” no qual o trabalho de recolhas foi feito pelo Giacometti. Uma semente que foi deitada e hoje poderia ter alguma continuação. Aliás, não é só o espólio de Giacometti, falta deitar cá para fora o espólio do Virgílio Pereira. E onde é que está o espólio do Armando Leça? Não se sabe! Coisas do Artur Santos, porque é que não se reeditam? E o material de Ernesto Veiga de Oliveira, fechado no Museu de Etnografia?
P. – As recolhas de Giacometti libertaram os músicos de uma geração, que é a vossa, da responsabilidade de fazerem eles próprio esse trabalho, de manter viva a memória de um povo? Há ainda o paradoxo dos grupos novos que fazem “recolhas” a partir das gravações dos grupos mais velhos…
Tentúgal – Posso dar um exemplo bastante concreto. Houve um grupo, do qual não vou dizer o nome, que há alguns anos editou um trabalho em álbum onde canta um malhão exactamente igual ao que se encontra no primeiro disco do Vai de Roda. Chegaram ao cúmulo de dizer que era recolha, metendo a mesma selecção de quadras que eu fiz, o mesmo “intermezzo” que eu criara e não existia na recolha [Amélia Muge, num aparte: “Enganaste-os bem!”], as mesmas pausas do bombo!… O problema está em que não existe o tal espólio arquivado, quer em partitura quer em áudio, ao qual qualquer pessoa possa ter acesso. Só assim se poderá distinguir entre o que é tratamento ou adulteração e o que é genuíno.
Carlos Guerreiro – Já experimentei mostrar as recolhas do Giacometti aos meus alunos e eles “vomitam”! Aquilo é inaudível para um miúdo que liga o rádio e ouve coisas cheias de som, rock e não sei quê. Nós, no tempo em que começámos a pegar nas recolhas do Giacometti a trabalhá-las, deparámos com uma coisa de tal maneira nova que até para nós era um mergulho no desconhecido. O nosso sentimento era de máximo respeito. Inclusive, nos nossos primeiros trabalhos, dávamo-nos ao luxo de nos enganarmos nos mesmos sítios, de tocar mal muitas vezes aquelas coisas feitas em instrumentos imperfeitos, meio desafinados. Depois houve tentativas de tornar a coisa mais digerível, mas sempre com grandes preocupações de pureza.
P. – Existirá um ponto de não retorno, nesse movimento de afastamento dos espécimes originais? Um ponto em que o termo “tradicional” se poderá tornar abusivo? Estamos a lembrar-nos dos discos dos Gaiteiros, da Né Ladeiras, mesmo do Ó que Som Tem…
Amélia Muge – Eu própria me interrogo muito sobre o que é genuíno ou não. Ponho em causa uma série de coisas a esse nível. Sinto-me a viver numa época onde, se é verdade que há uma enorme preocupação e descoberta disso que é o “tradicional”, há também uma enorme abertura ao mundo. Porquê recusar as novas tecnologias? Temos a liberdade de ser pertença dos mundos onde queremos estar. E a responsabilidade.
José Martins – Eu traria para aqui uma questão talvez mais técnica. Vou ouvir um tema recolhido pelo Giacometti. OK. O que é que está ali, o que é que eu posso fazer perante aquilo? Posso achar que é um tema maravilhoso e apetecer-me tocá-lo, exactamente como ele é. Ou então digo assim: espera lá, eu conheço música da Europa, ou de África, mas isto não conheço, é diferente de tudo. O que é que é diferente? Será pela combinação das harmonias, pelo tipo de linhas melódicas, pela interpretação que é dada ou pelos ornamentos? Esses aspectos que caracterizam a música portuguesa, da qual determinada recolha é um exemplo, é que me podem servir para fazer uma composição, que já não tem nada a ver com aquilo, mas onde se encontra o tipo de ritmos que lá está, a mesma forma de cantar, idêntico esquema de relação entre a melodia e a harmonia. Aí pode dizer-se que é música moderna, não tradicional, e, no entanto, música portuguesa de raiz tradicional, porque mantém as mesmas características musicais daquela coisinha ingénua cantada intuitivamente pela velha que ouviu cantar o pai ou o avô. É isto que faz a ponte entre poder-se continuar a evoluir, compondo, e dizer que é música portuguesa, porque se estão a desenvolver características que só existem aqui e em mais parte nenhum do mundo.
Amélia Muge – E há a liberdade para se poder fazer isso. A seguir ao 25 de Abril, havia um peso muito grande nos grupos. Dizíamos: alto lá! Há aqui coisas que as pessoas nunca ouviram, um lado da nossa cultura que é fundamental e é preciso dar a conhecer. Hoje estamos libertos de uma certa bandeira. Não quero dizer que a postura deva ser menos política, mão os ingredientes já não são os mesmos, estão despidos de circunstancialismos.
José Martins – É como um poeta que hoje em dia faz uma poesia que um estudioso reconheça como portuguesa. É evidente que vai estudar e ler Camões, mas não vai copiar os poemas. Se calhar, vai é apanhar a maneira como ele fala do amor, o tipo de rimas que usa, o aproveitamento do som da língua…
P. – Se o primeiro passo é o da interiorização do que é especificamente português, o segundo será o de estabelecer elos e encontrar relações com outras tradições do mundo?
Tentúgal – Mas mesmo esse primeiro passo ainda não foi dado!
José Martins – Até porque a nossa música é, como se sabe, um mescla de “n” culturas. A gente sabe, na Química, que a tabela de elementos é finita. No entanto, há milhares de compostos químicos diferentes. O tipo de combinação de ingredientes, neste caso culturais, que deu origem ao que chamamos cultura portuguesa é uma combinação particular, que, noutro país, resultou em algo completamente diferente. Aqui ao lado, em Espanha, também passaram os celtas, os vândalos ou os mouros, mas o resultado foi parar a outro sítio. Ninguém confunde a música portuguesa com a música espanhola, a não ser um chinês, que ouve um fado e acha que é parecido com uma sevilhana a chorar!…
Tudo o que tem sido dito é verdade, mas demora anos a pôr em prática. Para um jovem músico de hoje, menos paciente, que se interessa e quer tocar música portuguesa de raiz tradicional, essa aprendizagem poderá parecer exasperante e desmotivadora. Há outro lado por onde ele possa começar?
Tentúgal – Um conselho prático: varrer completamente os professores que têm! O problema, neste momento, é de mentalidades. Assiste-se hoje ao fenómeno dos “pimbas” e do “bicho”. A educação – como conjunto de escola, mais sociedade, mais pais – leva actualmente a uma situação de amorfismo galopante.
Carlos Guerreiro – Antes havia a tal bandeira. Depois, socialmente, estava tudo receptivo. Fosse o que fosse que a gente fizesse, as pessoas absorviam. Ainda por cima havia a Rádio Renascença ao serviço da classe operária, dos camponeses e do povo trabalhador, que passava tudo o que a gente fazia… Não tivemos de lutar muito para impor o nosso tipo de música ou uma determinada opção estética. Na altura era uma novidade para toda a gente. Sobretudo, nós estávamos imbuídos de uma grande missão. Deus tinha-nos imbuído da missão de salvar a música portuguesa. Estávamos mesmo convencidos disso! [Risos.] Era uma tarefa ciclópica, universal! Claro que não salvámos coisa nenhuma. Até porque a música tradicional não existe como bem de consumo. Que eu saiba, para aí há 50 anos, não havia ninguém numa aldeia que se sentasse simplesmente a ver um gajo a tocar e depois batesse palmas. A música tinha sempre uma função, ou era música de trabalho, ou religiosa, ou de dança, sempre com uma participação do colectivo. A partir do momento em que se introduz a maquinaria nos campos, torna-se difícil cantar por cima de uma debulhadora mecânica. No mínimo fica-se rouco. Há, portanto, coisas que começam a morrer naturalmente. Indivíduos como o Giacometti, digamos que tiraram uma alga de dentro da água e puseram-na cá fora a secar. Ela está liofilizada, para alguém, em qualquer altura, poder pegar nela e pô-la de molho outra vez, para ver como funciona. Mas sabe-se que, terminada a função, o órgão tem tendência para morrer. Resta-nos matéria-prima gravada. Não precisamos de ser botânicos para fazer uma salada de fruta.
P. – Não seria um trabalho interessante correr no sentido inverso? Procurar sensibilizar o jovem músico do campo para perpetuar a tradição?
Carlos Guerreiro – Tal acontecerá naturalmente se, na sua comunidade, ele tiver condições para isso. Por exemplo, parece que está a acontecer um ressurgimento da gaita mirandesa. Existem putos a construir gaitas, uns melhor outros pior, mas isso não vem da cidade, nem por decreto, nem dos discos que nós editamos!
José Manuel David – Vamos é ver o que eles vão fazer com elas, se não vão aparecer para aí outros Delfins, só porque um dos gaiteiros se chama Delfim! [Risos.]
Tentúgal – A esse nível, as melhores experiências estão a vir do interior. No caso da gaita, está a recuperar-se aquilo que se perdeu no século XV, quando a gaita-de-foles era o principal instrumento português e havia associações de gaiteiros com um reportório próprio. Onde é que isso pára? Era um bom estudo para se perceber como Portugal perdeu isso e outras coisas.
José Martins – O puto que vive na aldeia já tem acesso aos meios de comunicação [Amélia Muge, noutro aparte: “Meios de descomunicação!”]. Se calhar tem o seu “walkman” portátil. Ele ouve rock, pop jazz e clássico que passam na rádio e na televisão. Se houver uma produção de raiz portuguesa, mesmo afastada dos temas tradicionais, ele aí diz: “Olha, uma música tão porreira feita com este instrumento que eu tenho aqui ao lado!” Pode funcionar como “feedback” e fazer-lhe ver que, afinal, não se trata de uma velharia que o avô tinha guardado na arca do sótão. Depois ele poderá até tocar um tema dos Gaiteiros. Voltamos à questão da não estaticidade. Se calhar, daqui por dez anos, alguém que vá a essa aldeia fazer recolha já encontra um tipo de 50 anos a tocar temas em gaita-de-foles que ele diz serem tradicionais, mas que provavelmente foram compostos por um grupo chamado Gaiteiros de Lisboa.
Carlos Guerreiro – A maior parte do reportório de qualquer gaiteiro ou tocador de cavaquinho é composto por coisas da rádio. Então a seguir ao 25 de Abril, chegavas ao pé de um pastor que tocava a sua flauta e até ele deitar cá para fora qualquer coisa interessante, pura, original ou autêntica, tinhas que levar com desde as “Pombinhas da Catrina” até ao “Avante camarada!” e o “Companheiro Vasco”. Com a mesma técnica e entusiasmo. Como se aquilo fosse mesmo deles. Era uma força cultural, que eles ainda tinham, de conseguir absorver, assimilar e devolver tudo como se fosse música sua.