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Luís Mateus – “A ‘Folk’ Gravada Na Alma” (obituário | homenagem)

cultura >> terça-feira, 14.11.1995
OBITUÁRIO


A “Folk” Gravada Na Alma

O NOME de Luís Mateus não era conhecido das massas. O protagonismo preocupava-o pouco ou nada. Pertencia antes àquela estirpe, cada vez mais rara num mundo onde o canibalismo e a divinização das imagens se eregem como totens, dos que amam. Dos que amam o que fazem e fazem o que amam. Luís Mateus fazia rádio, na XFM e na TSF, e escrevia, no suplemento de música do “Diário de Notícias”
Amava a música e defendia-a com a convicção de um militante. Amador, no sentido nobre das palavra, descobrira há pouco tempo a música tradicional, que passara a amar e a defender com o ardor dos seus 26 anos. Como acontece, com a inevitabilidade do destino, a todos quantos nela mergulham fundo e nela vêem algo mais que um simples fenómeno mediático.
Guardo na memória uma imagem que se tornou indissociável das duas últimas edições do Festival Intercéltico do Porto. A imagem de Luís Mateus, de microfone na mão e gravador a tiracolo, nas traseiras do Cinema do Terço, a entrevistar os músicos que saíam e entravam nos camarins. Recordo o entusiasmo genuíno que manifestou quando ouviu pela primeira vez ao vivo a voz de Márta Sebestyen e o fogo instrumental dos Múzsikas. Retenho dele ainda a boa disposição permanente, o sorriso franco de orelha a orelha a contrastar com a voz grave.
A morte levou Luís Mateus prematuramente. Na próxima Primavera, no Intercéltico, no grupo dos “maluquinhos da ‘folk’, haverá um lugar vago, um vazio impossível de preencher. Os artistas continuarão a entrar e a sair dos mesmos camarins do Cinema do Terço ou de outra sala qualquer. Mas vai faltar algo. O microfone de Luís Mateus não estará lá para fixar a sua passagem. As refeições, as conversas, as piadas em torno da “folk” e das suas personagens farão menos sentido. Serão mais pobres.
Onde é que está o Luís, perguntávamos, quando faltavam as tuas gargalhadas e a tua boa disposição? Já sabíamos que estavas a trabalhar. Com a alegria que te caracterizava e nos contagiava.
Entre um “reel” e uma lamentação, preferias decerto o “reel”

Skolvan + Fairport Convention – “Bretões Skolvan Escrevem Página Dourada No Segundo Dia Do Intercéltico – O Sangue E O Circo”

cultura >> segunda-feira, 10.04.1995


Bretões Skolvan Escrevem Página Dourada No Segundo Dia Do Intercéltico
O Sangue E O Circo



AO CONTRÁRIO do que aconteceu na noite de estreia, o cinema do Terço, no Porto, esgotou no sábado, segundo dia do Intercéltico, para ouvir os Skolvan e os Fairport Convention, duas bandas com nome feito embora por razões diferentes. Os primeiros são “só” o melhor grupo tradicional da Bretanha da actualidade, e o seu último álbum, “Swings & Teras”, um dos melhores do ano, para a maioria das publicações europeias da especialidade. Os segundos já foram importantes, há cerca de um quarto de século atrás, quando o folk rock ensaiava à sua custa os primeiros passos na Grã-Bretanha. O público, cá como lá fora, claro, é que não liga peva a essas coisas e aclamou a banda de velhotes como heróis.
Sem sombra de espectáculo, preocupados exclusivamente em tirar o máximo partido das danças típicas da Bretanha, os Skolvan empolgaram pela positiva. Foram certeiros na abordagem e tratamento das “gavottes”, “laridés”, “ridées”, “na dros”, “dans plinn” e “dans fisel” que ainda hoje animam as noites de dança na Bretanha. Não se limitando a uma atitude de veneração basbaque, exploraram ao máximo as fundações da tradição para com elas erguer um edifício ao futuro. Youenn Le Bihan foi operário e artista de um quarteto que fez sangue, rasgando cada tema até lhe espremer o sumo. Na bombarda, instrumento que exige do executante uma “endurance” especial, e no “piston” (afinal não o instrumento popular com este nome, muito utilizado no século passado, que havíamos referido num texto anterior, mas uma invenção do próprio Le Bihan, espécie de oboé rústico, de timbre mais doce que o da bombarda) o som agreste mas insinuante das palhetas duplas teve no músico um intérprete de excepção. E se o Terço não se transformou numa “festoù-noz” foi porque não havia espaço e a música dos Skolvan, quando a ocasião o exige, faz também mover o espírito. Yann-Fanch Perroches funcionou como uma máquina, na concertina. Grande parte dos contrapontos melódicos passaram pelas suas “drones” nos foles. Com idêntica função esteve o guitarrista Gilles le Bigot, que num dos raros temas lentos da noite, “Les pêcheurs”, do álbum “Swing & Tears”, solou com o balanço moldado a profundidade e espuma das ondas do mar. Fanch Landreau, além do ocasional “biniou” (gaita-de-foles) – nos diálogos com a bombarda, característicos dos “sonneurs” – violinizou com ligeireza, mostrando de quando em vez uma certa queda para as cadências irlandesas. Em conjunto, os Skolvan são caçadores. Há um sentido certo na sua música, um caminho plenamente delineado, um alvo a atingir. O sangue, as rochas, o mar, as lendas, a magia da Bretanha, têm no grupo uma voz nova. Serviram de exemplo. O mesmo não se pode dizer dos Fairport Convention. As dificuldades técnicas surgidas no início do espectáculo não podem servir de desculpa para uma actuação que viveu das recordações e se propôs entreter com um número de circo. Temas antigos como “Matty groves”, “Sir Patrick Stevens” ou o “medley” “Dirty Linen” já não são o que eram mas nem sequer foi isso o mais grave. O que se lamenta é a atitude de recusa em assumir responsabilidades – é preciso não esquecer que Simon Nicol, Dave Pegg e Dave Mattacks estão no grupo praticamente desde o início – criadas por um passado escrito em letras douradas por músicos como Richard Thompson, Dave Swarbrick e Sandy Denny. E por falar nesta última, lamenta-se que o grupo se tenha esquecido de referir o seu nome na apresentação de “Crazy Man Michael”, uma das interpretações antológicas desta cantora no álbum “Liege & Lief”. Em vez disso dedicaram a canção a uma tal Sheena, presente na sala.
Os Fairport Convention querem dar ares de banda eternamente rejuvenescida, cujos músicos jamais envelhecem, eternos brincalhões que se podem dar ao luxo de fazer o que bem entendem. Ninguém lhes nega esse direito e até lhes ficaria bem se a música não estivesse, como está, ultrapassada. Nico e Pegg são os folgazões de serviço. Martin Allcock esteve para ali, a mostrar a sua guitarra de dois braços. Ric Sanders toca rápido, é um facto, mas com um dispêndio de gestos e de energia desnecessários. Com um terço da canseira e uma elegância que Sanders nunca será capaz de possuir, Dave Swarbrick, além da sensibilidade, conseguia tocar ainda mais rápido. Dave Mattacks, o baterista, mostrou ser o único à altura do nome que tem. Pertence a outro universo musical. Pôs a funcionar uma fábrica de ritmos e silêncios. À noite, na gruta do castelo de Santa Catarina parecia uma criança, agarrado a um tambor, a acompanhar as gaitas e pandeiretas dos galegos Luar na Lubre. Festa até às tantas, como de costume.