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Brigada Victor Jara – Entrevista

Pop Rock

20 de Setembro de 1995

Brigada Victor Jara lança “Danças e Folias”

“Desconfiai de um Deus que não sabe dançar”*

O Deus da Brigada Victor Jara sabe dançar. “Danças e Folias”, o novo álbum desta banda coimbrã, representa desde já um marco na evolução da nossa música da raiz tradicional. O violinista Manuel Rocha explica que há danças que já desaprendêramos de dançar.


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É a segunda idade de ouro da música portuguesa de inspiração tradicional, na continuação do “boom” dos anos 80. Depois de Né Ladeiras ter escancarado a porta astral que dá para Trás-os-Montes e numa altura em que estão prestes a rebentar as estreias discográficas dos realejo e dos Gaiteiros de Lisboa, a pioneira Brigada Victor Jara vem ocupar o trono que por direito lhe pertence. O violinista Manuel Rocha explicou ao PÚBLICO que existem maneiras de se dançar mais com os ouvidos do que com os pés.
PÚBLICO – Seis anos de intervalo entre “Monte Formoso”, o anterior disco da Brigada, e este “Danças e Folias” é muito tempo. A par da tal “preguiça” já referida por Aurélio Malva (ver entrevista no PÚBLICO do dia 1 deste mês), há outras razões que expliquem a demora?
MANUEL ROCHA – Realmente, a par dessa “preguiça” em pegar no material há outras razões que envolvem um grupo que não tem uma ocupação profissional enquanto tal. As pessoas neste grupo conservaram sempre os seus trabalhos. Por outro lado existem algumas questões do foro musical. Este disco até nasceu de uma forma curiosa. Normalmente os discos da Brigada nascem para ser tocados ao vivo. Este nasceu para ser um disco, com características que envolviam logo á partida a consulta e um pedido de participação aos músicos convidados.
P. – “Danças e Folias” é um disco conceptual?
R. – Inicialmente tínhamos a intenção de fazer um disco com os espécimes mais diversos de música tradicional. Só que a alma do disco estava a sair muito triste. Numa certa altura pensou-se então – o Aurélio deu a ideia – em fazer um disco de danças. As nossas danças estão muito mal-tratadas, foram associadas indevidamente a uma versão transformadora dos ranchos folclóricos em que de facto a dança permaneceu mas a música foi sendo corrompida. Pareceu-nos interessante pegar no aspecto propriamente musical da dança. Se se reparar bem, há muitos temas no disco em que não se percebe a característica dançante…
P. – Nos temas vocalizados?
R. – Exacto. Aquilo que privilegiámos, sendo música de dança, foram as características altamente modais da nossa música e, como tal, explorá-las no seu lado “bonito”, mais complexo, com arranjos que avançam para o modalismo em vez de darem importância à questão da cadência, do ritmo.
P. – Essa tónica no modalismo levou a resultados como o tema “O mineiro”, tradicional da Estremadura, onde são espantosas as semelhanças com a música da Bretanha…
R. – É engraçado, porque temos em Portugal música que quebra a quadratura, isto é, em que o tempo é arrevesado. É como diz, de repente encontramos em Portugal sons que não têm a ver com aquilo que nos habituámos a ouvir.
P. – Em Portugal ou no seio transmutador da Brigada?
R. – Em Portugal! Em particular esse tema que refere foi tocado na sua forma original num instrumento de cana [sevina] por um tocador da Estremadura. Não tem nada a ver com aquilo que geralmente identificamos com um som português. O que nos faz ao fim e ao cabo pensar na origem tão diversificada das nossas músicas. Acontece também que em Portugal, ao contrário de outros países, não tivemos a possibilidade de explorar aquilo que é mais “bizarro” no caminho do aperfeiçoamento. Houve a clivagem musical dos anos 60 e 70, em que o acordeão funcionou como instrumento monopolizador, quer da tonalidade quer da sonoridade. A tal música mais “estranha” nunca foi explorada.
P. – Em comparação com discos mais antigos, como “Contraluz” ou “Monte Formoso”, obras que se podem considerar de fusão, “Danças e Folias” aposta no regresso a um certo classicismo.
R. – Apesar de ser um disco, como disse, feito com arranjos preparados pelo Ricardo Dias e o Aurélio Malva, acaba por apontar para esse classicismo, para um regresso à canção enquanto canção, com princípio, meio e fim. Enquanto que em “Contraluz”, por exemplo, a canção se encontrava dissimulada no ambiente musical geral.
P. – Não será também uma defesa vossa, no sentido em que é menos perceptível uma identidade própria, um som imediatamente reconhecível como pertencendo à Brigada?
R. – Isso é uma característica do grupo. Então se pegarmos na sua história discográfica ainda se nota mais, já que cada disco é diferente dos outros. Tem a ver, por exemplo, com a dispersão dos elementos do grupo, enquanto ouvintes e assimiladores de música. É uma heterogeneidade que acaba por se reflectir no trabalho do grupo. Não há um “som Brigada”. A nossa grande preocupação tem sido, até, de alguma forma, de complicar as coisas…
P. – Complicar como?
R. – Ir ao encontro da complexidade da música portuguesa e, cada vez mais, estudar para chegar lá. Além de que o encontro com os músicos convidados que tocam neste disco, acabou por ser para nós muito enriquecedor, na medida em que nos “complicou” também a vida… Por exemplo, o António Pinto a trabalhar nas harmonias ou o Tomás Pimentel a tocar um solo lindíssimo permitiram descobrir novos caminhos que uma melodia pode ter dentro de uma harmonia que é subvertida.
P. – Complexidade e profundidade que se tornaram notórias na imensa riqueza de “Danças e Folias”…
R. – Pois, a nossa música não é como a de grupos que dão ênfase às chulas ou ao vira. Se queremos fazer um trabalho sobre a música portuguesa, na extensão territorial daquilo a que chamamos Portugal, chegamos à conclusão que é preciso pegar no seu lado “incómodo”, o seu modalismo e a sua polirritmia.
P. – A alegria e a diversidade de registos que percorrem “Danças e Folias” podem ser uma resposta ao cinzentismo que se está a instalar numa facção da nossa música popular?
R. – Deve haver alguma reacção a esse cinzentismo que acaba por desenterrar outra vez os valores do céu carregado de nuvens e dos pescadores que se arrastam pela estrada de costas vergadas a puxar o barco. Na música dita de inspiração tradicional não precisamos de pegar nesse lado negro. Isso seria lustrar uma só faceta da nossa própria vida.

* Friedrich Nietzsche, em “Assim Falava Zaratustra”



Vitorino – “Anos 60-70, As Saudades” (Concerto)

POP ROCK

3 de Maio de 1995

Saudades ao estetoscópio


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Vitorino, depois de “Fados Meus”, de Paulo de Carvalho, e de “Só”, de Jorge Palma, será o próximo artista a apresentar-se na atmosfera especial e sem artifícios dos Concertos Íntimos, que estão a decorrer no auditório do antigo Cine-Teatro do Casino Estoril. Uma tentativa, para Vitorino, de recuperar o conceito de “temporada”, característico da “escola francesa, de ficar uns tempos num teatro”. “Anos 60-70, As Saudades” foi o título genérico escolhido pelo artista para designar a linha geral que orientará cerca de duas horas de canções ligadas à história e às memórias daquelas duas décadas. Uma ideia que parece ter sido criada de propósito para o autor de “Leitaria Garrett”, já que Vitorino é uma espécie de enciclopédia viva de uma época em que os actos se regiam por ideais e não por interesses, como hoje é norma acontecer. Lisboa, o Alentejo, a errância pela Europa, lutas e camaradagens várias, cruzam-se na vida e no imaginário de Vitorino como num caleidoscópio.
Em toda a discografia do cantor é visível esse interesse pela natureza íntima das coisas, pelas razões e pelas emoções irrisórias, mas que, não poucas vezes, mais do que os grandes manifestos de intenções, fazem mover as pessoas e evoluir os lugares. Sabe-se do conhecimento e do gosto de Vitorino pelos salões de dança, pelos passos que conduzem à paixão, pelas horas mortas em que tantas vezes uma vida se decide. Os boleros, os tangos – “um imaginário muito presente na música portuguesa, havendo mesmo grandes compositores em Portugal deste género musical, como o Cruz e Sousa, que compôs para o Tomás Alcaide” – as quermesses e os bailes de finalistas, os bairros e as suas tentações. Com tudo isto Vitorino se cruzou, a par do convívio, directo ou indirecto, com as músicas e as atitudes importadas do estrangeiro. Os ideais e a revolução, deixaram marcas na sua música. Vitorino canta a cidade e o campo, as vielas e os montes, as noites de sol e os dias de luto. Anarquista por vocação, fez-se cantor por devoção.
Por isso a sua voz soará talvez com maior força – decerto, mais próxima e com outras “As Mais Bonitas” para cantar – numa pequena sala do que debaixo dos holofotes gigantes e da antropofagia das massas. Uma celebração de nostalgia? Talvez, se considerarmos que a música não passa de uma sucessão de modas e de um corte sistemático com o passado. Porque, sob as luzes mais baixas do pequeno auditório do Casino, Vitorino vai cantar os extremos da música portuguesa, se Zeca Afonso a Tony de Matos. Mas também as canções estrangeiras dos anos 60 e 70, dos Beatles – “uma música já muito evoluída nos anos 70, em relação aos serões para trabalhadores que se fazia em Portugal, que eram de um conservadorismo e um hermetismo a toda a prova, existindo só por teimosia, uma teimosia beirã, a teimosia do Botas. Isso reflectia-se em toda a música portuguesa, que só começou a mudar com o Adriano e com o Zeca” – de Gianni Morandi, de Jacques Brel, entre tantos outros, “que influenciaram a juventude e a própria música portuguesa” destas duas décadas. Segundo “um olhar irónico e com algum humor”. Vitorino recorda ainda, pondo alguma pimenta nas palavras, essa época “em que havia cantores, hoje muito presentes, que diziam que a língua portuguesa não prestava para cantar”.
Com o cantor, recentemente chegado de alguns espectáculos de boa memória em Goa – “lá têm uma admiração cega pela cultura e língua portuguesas, e saudades de um tempo que, se calhar, era melhor” -, vão estra em palco, em mais este “concerto íntimo”, Janita Salomé, Filipa Pais, que cantará a Billie Holiday e a Ella Fitzgerald, “cantoras eternas, cujos ‘hits’ estiveram bastante presentes nos anos 60 e 70”, e André Cabaço, juntamente com o pianista Vasco Gil, também responsável pelos arranjos musicais, o baterista Rui Alves e o percussionista Quim N’Jojo.
Vitorino, visto à lupa e escutado ao estetoscópio.

VITORINO
“Anos 60-70, As Saudades”

Auditório do antigo Cine-teatro do Casino Estoril
4, 5, 6 e 7 de Maio



Luis Delgado – “Al Andalus”

Pop Rock

7 Dezembro de 1994
WORLD

CANTOS DO ISLÃO ELÉCTRICO

LUIS DELGADO
Al Andalus

Lyricon, distri. MC-Mundo da Canção


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Natural de Madrid, Luis Delgado é um músico multifacetado que distribui a sua actividade por diversos grupos, entre os quais os já nossos conhecidos La Musgaña, de música tradicional, Atrium Musicae – “heréticos” da música antiga dirigidos por Luis Paniagua – e os excelentes Mecanica Popular, especializados em música electrónica. Enquanto produtor, Luis Delgado trabalhou em discos de Maria Del Mar Bonnet, Emilio Cao e Aurora Moreno, entre outros. A música medieval, com os Calamus, o “rock andalus”, com os Califato Independiente, fusões étnicas, com os Finis Africae e Babia, ou a tradição sefardita, com os Halilem, são outras tantas direcções já exploradas por este músico, que, curiosamente, foi nomeado membro honorário da Grand Ole Opry, mítica entidade da música country norte-americana. Luis Delgado é ainda assessor musical e compositor permanente do planetário de Madrid, fundou uma editora para as “novas músicas” espanholas, El Cometa de Madrid, escreve regularmente bandas-sonoras e ainda arranja tempo para se dedicar à sua colecção de instrumentos musicais, já com mais de 200 peças, que ele próprio utiliza nas suas gravações.
Nutrindo um interesse especial pela chamada “Espanha das três culturas”, judaica, cristã e islâmica, Luis Delgado faz em “Al Andalus” uma recriação em moldes vagamente “new age” (não esqueçamos que esta é uma das áreas privilegiadas do selo Lyricon) da música islâmica, numa banda-sonora composta para o documentário sobre a exposição “Al Andalus, las artes islámicas en España”, organizada pelo Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e pelo Patronato de la Alhambra, de Granada, em 1992.
Situando cronologicamente a temática do disco no século X, durante o califado de Córdova, coincidente com o apogeu da cultura islâmica no Sul de Espanha, “Al Andalus” segue o esquema de obra conceptual onde se ilustram histórias, lendas, edifícios e lugares, pormenores da vida de pessoas, desde o próprio califa e seus mais altos dignitários aos poetas, carpinteiros, jardineiros e outros artífices que, à sua maneira, contribuíram para a construção e implantação de uma das culturas que mais e mais fundas marcas deixou na arquitectura e na estrutura anímica de “nuestros hermanos”.
Em “Al Andalus”, as percussões electrónicas e as tecituras urdidas pelo computador misturam-se com instrumentos típicos como o “ud”, o “gimbri”, o “bendir”, o “nei”, o “tar”, a “darbouka” e o “qanum”, só para mencionar aqueles com que os nossos leitores mais assíduos já se terão decerto familiarizado. O que significa que, neste caso, o termo “fusão” faz sentido. Mas, num terreno onde cada vez mais se corre o risco de as particularidades específicas de cada região e de cada cultura se “fundirem” numa amálgama amorfa sem fogo nem contrastes, “Al Andalus” consegue sair incólume. Porque a sua finalidade não é, de forma alguma, nem simular nem muito menos reproduzir, mas sim reconstruir em novos moldes um determinado imaginário, reconvertendo-o para uma dimensão sonora a que poderemos chamar cinematográfica e, sem dúvida, actual. Utilizando, no fundo, processos não muito diferentes dos usados pelos Atrium Musicae em relação à música antiga. Se é música electrónica com influências étnicas ou música étnica do próximo milénio, a questão está em perceber que os extremos, quando se não perde o fio à meada, se tocam. (8)