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Biosphere – Substrata 2

14.12.2001
Biosphere
Substrata 2
2xCD Touch, distri. Matéria Prima

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“Substrata 2” junta a versão remasterizada de “Substrata”, editado originalmente em 1997, com a banda sonora completa de “Man With the Movie Camera”, filme mudo realizado em 1929 pelo russo Dziga Vertov. Mais dois temas incluídos na versão japonesa de “Substrata”. Depois da desilusão que constituiu a recente aparição ao vivo de Geir Jenssen no Porto, vale a pena regressar ao convívio com uma música que penetra e se dissemina no inconsciente como um vírus alienígena. Com a melhoria de som, o filme interior de “Substrata” adquiriu uma riqueza de detalhe de superior qualidade. Dos baixos vulcânicos aos agudos estelares, icebergs desfilam lentamente. Macroformas de gelo, nuvens e noite que em “Cirque”, álbum do ano passado, assentariam numa cultura de microrganismos vivos. “Man with the Movie Camera” move-se noutro lugar. Electrónica de louvor a divindades pagãs, como a dos SPK, When e Lustmord, samplagens de lagos, florestas e monstros, vozes sem rosto, liturgias de escuridão, numa fabulosa construção multidimensional que é também uma das obras maiores do compositor norueguês.

Biosphere – Planetário

30.11.2001
Biosphere
Planetário

Poderá ser um dos concertos mais espectaculares do ano. O Auditório de Serralves abrir-se-á à música de Biosphere, projecto do norueguês Geir Jenssen. Imbuída de forte carga cinematográfica, a electrónica de Biosphere conjuga a imensidão dos grandes espaços ártico e o brilho hipnótico de pequenas estrelas vivas. Para ver, ouvir e sonhar. Como uma estufa. Ou um planetário.

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1. Origem
Biosfera. “A fina camada da superfície da terra e do mar que contém a massa total dos organismos vivos existentes no planeta, que processam e reciclam a energia e os nutrientes disponíveis no meio ambiente” (in Enciclopédia Britânica). Em 90, ao tomar conhecimento do projecto científico “Biosphere 2 Space Station Project” – gigantesca cúpula de vidro no deserto do Arizona -, Geir Jenssen adaptou esta designação ao seu projecto musical. Na estação “Biosphere 2” testava-se a viabilidade da manutenção, no espaço, de uma colónia terrestre; na cúpula “Biosphere 2” habitaram várias famílias em isolamento do exterior. Da mesma forma, a música de Biosphere evoca a solidão dos espaços polares e recria a biodiversidade de organismos sónicos em mutação. A sua serenidade advém de uma visão distanciada do planeta, observado a partir do espaço.

2. Ambiente
Nos anos 80, Jenssen integrou o grupo Bel Canto, responsável por dois álbuns editados na editora Crammed Discs, um dos quais, “White-out Conditions”, é um clássico da “pop atmosférica”. Atmosfera que viria a revelar-se ainda demasiado densa para o desejo de silêncio do norueguês. O passo seguinte dá pelo nome de Bleep. A electrónica liberta-se da pop e passa a desenvolver-se através das pulsações da tecno ambiental. É já como Biosphere que grava os clássicos “Microgravity” e “Patashnik”, este último indutor de sonhos para a geração do “chill-out”. Transe boreal cuja síntese se encontra no cume gelado de “En Trance”. Mas quando “Novelty Waves”, retirado de “Patashnik”, é usado como anúncio da Levi’s, Jenssen percebe que chegara a altura de partir de novo. A viagem culminaria nas paisagens de “artic sound” de “Substrata” e da obra-prima “Cirque”.

3. Espaço
Depois de Bruxelas e Oslo, Jenssen estabelece a sua residência em Tromso, cidade norueguesa a 400 milhas a Norte do Círculo Polar Ártico. Aí, longe do caos urbano, a atmosfera é mais límpida e o céu parece mais próximo. Biosphere é um telescópio apontado ao negro do firmamento, emissão galáctica, pesquisa de sinais de vida extraterrestres, mas também colónia de organismos microscópicos em agitação atómica sob o manto do “groove” electrónico. “Trabalho devagar”, disse Gier Jenssen em 1994. O espaço resolve-se no tempo e na distância, que o norueguês considera essencial para a criação musical.

4. Cinema
Geir Jenssen afirma que toda a música que o entusiasma tem a capacidade de provocar visões na sua mente. Afinal, o mesmo estímulo que o cinema. Existe uma relação estreita entre som e imagem quer dentro da estrutura da música dos Biosphere, quer em bioelectroentidades compostas para bandas sonoras – como o clássico do cinema mudo soviético, “O Homem da Câmara de Filmar” (1929, Dziga Vertov), com o tema “The silent orchestra”, ou “KJill by Inches” (1999, Doniol-Valcroze), bem como a totalidade da banda sonora de “Insomnia”, de Erik Skjoldbjaerg. É ainda Jenssen quem aconselha o ouvinte a construir as suas próprias narrativas e visões.

5. Iluminação
“Cirque” culminou um trabalho de depuração. Da embalagem – digipak povoado de texturas que por si só desencadeiam a projecção do filme interior – ao conteúdo, é um universo de temperaturas, ventos e alucinações, num espectro que vai da auto-descoberta e das paisagens glaciares ao beat minimal. Cristais de gelo, fauna e flora subliminares, contraponto glaciar da selva tropical nocturna dos Can de “Future Days”. Inspirou-se no livro “Into the Wild”, de John Krakauer, crónica de viagens de Chris McCandless que, após deambulações pela América do Norte, terminou a sua demanda nas paisagens desoladas do Alasca, onde o seu corpo foi encontrado morto, com uma nota de SOS.

6. Cristais
Geir Jenssen/Biosphere tem ainda a sua assinatura numa quantidade de álbuns, entre encomendas, compilações ou remisturas. Destacam-se “Nordheim Transformed”, recriação da música do compositor de electrónica norueguês dos anos 70, Arne Nordheim, em colaboração com Deathprod, e os dois volumes de “The Fires of Ork”, de parceria com o alemão Pete Namlook. “Substrata 2”, já deste ano, é outro digipak com embalagem de luxo, onde cabe a versão remasterizada de “Substrata”, um dos melhores álbuns de “ambient tecno”. Também deste ano, “Light” reúne os nove temas compostos para a banda sonora de “O Home da Câmara de Filmar”.

Festival Bluespot 2001

23.11.2001
Bluespot

Khan

Também proveniente de Colónia, mas turco de nascimento, chega Khan, aliás, Can Oral, também conhecido como El Turco Loco, o mesmo nome que atribuiu à sua companhia discográfica. Can Oral (o nome soa a pornográfico) foi companheiro de apartamento de Jimi Tenor, fez tecno e cultivou os germes da cena illbient, exercendo um indiscutível fascínio no pessoal, já de si pouco “normal”, das editoras Fat Cat e Ninja Tune. Aprendeu com os anos 80, identificando-se com as suas margens mais daninhas, dos Contortions a Lydia Lunch, dos Einstuerzende Neubauten aos Pere Ubu, dos The Gun Club aos Public Enemey. E com Diamanda Galás, “Miss Peste”, que, apesar do seu ódio visceral aos turcos, não se escusou a participar como convidada no mais recente álbum de El Turco Loco, “No Comprendo”. Da mesma forma que não é fácil compreender a mistura musical deste idiossincrata que tanto amolga o lounge, a new wave e a música industrial como passeia de mãos dadas nos jardins edénicos de Julee Cruise.

Kid606

Génio ou “hype”? Depende do ponto de vista pelo qual se analise a ascensão deste quase adolescente de origem venezuelana que nasceu para dialogar com os computadores e com eles fazer uma música com tanto de dilaceração como de humor. O pito 606 já se apresentou no Número Festival do ano passado, assinando uma perfomance onde a matemática andou de mãos dadas com o caos. É um mestre do ruído mas também da articulação surrealista de fontes sonoras que combinam numa simbiose bizarra os “found sounds”, a samplagem em registo de esquizofrenia e as linguagens programáticas do computador, organizados em forma de assalto aos sentidos em álbuns como “Down with the Scene” ou “PS I Love You”. Kid606 é um tecnicista dos chips, um iconoclasta das civilizações em colapso, profeta do sado-masoquismo monitorizado. Mas talvez não passe de um puto reguila em quem o espírito punk continua vivo e cujo principal fito é desancar as convenções. Consta que em alguns dos seus espectáculos lança objectos para o público.

Mouse on Mars

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Provavelmente nenhum outro grupo da nova cena electrónica alemã conciliará com tanta eficácia e criatividade o experimentalismo e uma faceta lúdica como os Mouse on Mars MOM, dupla de Colónia (berço de krautrockers pioneiros como os Can) constituída por Andi Toma e Jan St. Werner. Na sua anterior visita a Portugal, decerto entusiasmados com a onda de entusiasmo que então se gerou à sua volta, desbundaram na maquinaria, produzindo uma sucessão infatigável de grooves e breakbeats que terá pecado por demasiada vassalagem às dance floors e menor cuidado na exploração da vertente mais abstracta do grupo, presente em álbuns essenciais, clássicos da electrónica contemporânea, como “Ihaora Tahiti”, “Niun Niggung” ou o novo e orgulhosamente autista “Idiology”. Alemanha, séc. XXI, com os Mouse on Mars, as máquinas reaprenderam a sorrir.