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J. A. Deane – “Nomad”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


J. A. Deane
Nomad
VICTO, DISTRI. ÁUDEO



Toca trombone, apaixonou-se em tempos pelo calor analógico de um A.R.P. 2600, passou pelo Rova Saxophone Quartet, aprendeu a teatralidade da música com Sam Shepard, acompanhou Ike e Tina Turner, fez parte do grupo “new wave” Indoor Life. Deixou o trombone durante alguns anos, para tocar percussões acústicas e electrónicas com Jon Hassell. John Zorn, Shelley Hirsch, Jim Stanley, Butch Morris e Bill Horvitz fazem parte do lote das suas comparticipações musicais. Apareceu, entre nós, em disco, numa colectânea tripartida da Earational Records, ao lado dos Art Zoyd e Jeff Greinke, em que deixava antever o melhor. “Nomad”, composto para coreografias de Colleen Mulvihill, sintetiza as diversas vertentes e influências assimiladas ao longo dos tempos por este trombonista e manipulador de electrónica que, até certo ponto, se pode equiparar ao trompetista Bem Neill, na medida em que ambos, antes de serem executantes, no sentido clássico do termo, se assumem como conceptualistas e reestruturadores das sonoridades originais dos respectivos instrumentos. “Nomad” ordena e esculpe sequências de sons acústicos samplados (o “ney” de Richard Horowitz, por exemplo), que tanto podem tomar a forma de amplas explanações ambientais (“Wolfrun/Priests”, “Algebao”, “Dark heart”), como submeter-se às programações rítmicas (“Standing wave”) ou ainda divagar pelas regiões menos exploradas de uma “world music” digital (“Liquid time”) ou do minimalismo programático (“Last Supper”). A influência de Steve Reich e do Maciunas Ensemble faz-se sentir nos dez minutos finais de “Thread of life”, composto para a City Contemporary Dance Company de Hong Kong. Um álbum multi-sensorial em que Deane concretiza as suas aspirações em fazer uma música que, mais do que uma experiência linear, constitua um detonador de estados emocionais. “As peças em si não mudam”, diz, “mas as perspectivas sobre elas podem mudar.” (8)

Didier Malherbe – “Zeff” + “Fluvius”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


Didier Malherbe
Zeff (8)
Fluvius (7)
TANGRAM, DISTRI. FABRICA DE SONS



Para quem não se lembrar, Didier Malherbe era o saxofonista e flautista, “Bloomdido Bad de Grass”, ou “Glad de Brass”, dos Gong, uma das bandas menos alinhadas e mais representativas do rock (?) que se fez nos anos 70. Autor de uma discografia a solo razoavelmente preenchida, este francês de expressão alucinada tem vindo a desenvolver a faceta mais “zen” e orientalizante dos “pothead pixies”, tornada autónoma a partir de “Shamal” (título inspirado no músico indiano Shamal Maitra, aliás, um dos convidados de honra de “Zeff”), primeiro álbum dos Gong sem o seu guru Daevid Allen. Em “Zeff”, a voz principal pertence às flautas – incluindo a estranha flauta baixo circular que, certo dia, um marselhês anónimo lhe ofereceu, em plena rua – num conjunto de temas que giram obsessivamente em torno de “Zeff”: “Zeff dance”, “Zeff waves”, “Drôle de Zeff”, “Zeff over the dunes”, “Zeff up”, etc. Fusão original da música indiana com o jazz, num registo mais contemplativo que o dos Shakti, de John McLaughlin, arrisca ainda a electrónica (“Zeff waves”) e a improvisação (“Am stam jam”), dando a revelar um compositor e instrumentista com identidade e discurso próprios. Entre os músicos convidados, contam-se ainda John Livengood (ex-Red Noise, grupo francês da década de 70, parceiro recente de Richard Pinhas, em “Cyborg Sally”) e Jean-Phillippe Rykiel, nas teclas. “Fluvius” dispersa-se por outros afluentes, estando, curiosamente, mais perto do espírito original dos Gong. Conceptual, concedendo maior espaço de manobra ao saxofone, envolve-se sem preconceitos nas malhas do jazz-rock e do flamaneco-jazz (“Au moulin d’Andé”) mas também na música africana (“Pyxie-Java”, citação directa do grupo-mãe, que, na sua mais recente encarnação, apresenta a sua versão pessoal da música deste continente, em “Shapeshifter”), no free-jazz espacial à Sun Ra (“Broken Waves”), na amálgama de “downtown acid-jazz” e vocalisos indianos da treta, em “Trashville” ou no cruzamento do piano romântico com Pascal Comelade e o “film noir”, em “Blues de l’horizon”. Uma cabeça felizmente ainda mal refeita dos chás de haxe que ajudavam as conversas telepáticas do planeta Gong.

pop rock >> quarta-feira >> 17.01.1996


Squeeze
Ridiculous
A & M, DISTRI. POLYGRAM



Há algo de nostálgico na música dos Squeeze e na persistência com que a banda de Glen Tilbrook e Chris Difford insiste em trazer o espírito da “power pop” dos idos de 80 para os dias de hoje. “Ridiculous” não é melhor nem pior que os outros discos, nomeadamente o anterior, “Some Fantastic Place”. É com prazer que reencontramos as mesmas melodias, cuja estrutura não poderia ser mais simples, embelezadas embora por uma iconografia adolescente, já algo desbotada e deslocada, inspirada nos Beatles. Precisamente, o que faz o encanto da música dos Squeeze é essa discrepância temporal entre o apego à memória e a recusa em evoluir para modelos mais actuais. Os Squeeze nunca vão mudar, nem ninguém há-de querer isso. “Walk away” é o exemplo máximo de anacronismo enquanto “This Summer” recua até aos quatro de Liverpool e à ingenuidade mágica de uma qualquer “Michèle”… Deixemos passar “Ridiculous” sem lhe fazer mal. Seria ridículo destruir uma estufa. Ou desprezar um oásis. (6)