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Danças Ocultas – “Danças Ocultas Estreiam AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM”

pop rock >> quarta-feira >> 21.02.1996
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Danças Ocultas Estreiam
AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM


Um disco instrumental, ainda por cima só de concertinas, é uma operação arriscada, por mais calculado que seja o risco. Foi isso que fizeram os Danças Ocultas, um grupo de Águeda que, no seu álbum de estreia, decidiu elevar aquele instrumento de fole à categoria de música de câmara.



“danças Ocultas” rejuvenesce um instrumento considerado durante muito tempo parente pobre, remetido para a animação de romarias ou para o peditório do cego. Se Júlio Pereira tirou o cavaquinho e a braguesa do gueto, e Tentúgal e Fernando Meireles fizeram o mesmo com a sanfona, o quarteto de Águeda devolveu a concertina à sua condição de nobre que é capaz de chorar a melancolia de Satie. Artur Fernandes, mentor do projecto, num intervalo das filmagens do vídeo promocional, explicou ao PÚBLICO os segredos do instrumento.
PÚBLICO – Como decorreu a gravação?
ARTUR FERNANDES – No início trazíamos uma forma de execução, um tipo de reportório e uma determinada afinação das concertinas, a tradicional, com as palhetas mais vibrantes. A pedido do Tó Pinheiro da Silva [engenheiro de som e responsável pela sonoplastia], estudámos a possibilidade de ter o som mais afinado, com as palhetas mais próximas. Foi o que fizemos. Não podemos igualmente negar a influência, no modo de trabalhar, do produtor Gabriel Gomes, determinante na feitura dos arranjos. Nos três dias que antecederam a gravação, alterámos alguns aspectos dos temas.
P. – Gravaram ao vivo no estúdio?
R. – Como temos vindo a tocar sempre os quatro desde há seis anos, criou-se entre nós um balanço próprio. O Tó Pinheiro entendeu que isso devia ser aproveitado, essa envolvência, gravando não por pistas mas todos juntos. Claro que deu mais trabalho, sempre que alguém se enganava tínhamos de gravar outro “take”.
P. – A relação com a tecnologia deu-se sem atritos?
R. – Tenho essa relação, mas a outro nível. Estou neste momento a fazer estágio no curso superior de Composição, mantendo uma relação com a música electro-acústica, com sistemas digitais e analógicos. Este trabalho com as concertinas funciona, no entanto, a outro nível.
P. – O tema inicial, “Folia”, constitui uma experiência radical na utilização da concertina…
R. – No acordeão e na concertina existe um botão do ar que liberta o fole sem ser necessário tocar nos botões. No acordeão, este botão serve essencialmente para, no fima da música, fechar o fole. Na concertina ele tem outra função, que é, durante a música, compensar a necessidade de maior ou menor tempo a abrir e a fechar o fole. Havendo esta funcionalidade do movimento do fole, optámos por explorá-lo isoladamente, de maneira a produzir uma sensação de respiração humana.
P. – As pessoas costumam ver na concertina um instrumento folião, extrovertido, mas “Danças Ocultas” é um disco bastante melancólico, poderíamos mesmo dizer de música de câmara…
R. – Exacto. Comecei na música tradicional, a tocar concertina nos grupos folclóricos. Depois fui para o Conservatório e iniciei experiências com a concertina, precisamente na área da música erudita. Verifiquei que o instrumento afinal não era tão limitado assim. O que era necessário era explorar as suas potencialidades. Fui descobrindo então o tipo de trabalho que se faz na música de câmara, com distribuição das vozes pelos instrumentos, o tipo de envolvência, ou a necessidade de tocar com o máximo de conforto. Anatomicamente, há a necessidade de tocarmos sentados, para obtermos um máximo de rendimento em termos de expressão.
P. – O “No8c) turno das 7” traz-nos ecos de uma “gnossienne” de Erik Satie…
R. – Não posso negar. Sobretudo no acompanhamento harmónico e no tipo de ritmo. Mas há no disco todas as influências da música que ouço e estudo, Piazzola (em “Quartetra”), de quem sou grande fã, músicas tradicionais da Europa, menos Stravinsky, Messiaen e Webern, este último pelo culto da forma. Um pouco o que eu tento disciplinar neste projecto e que aprendi com a análise de Webern. Na “moda assim ao lado”, não poso negar a inspiração de um Riccardo Tesi ou de um Kepa Junkera. Mas o nosso som resulta pessoal, em parte devido à afinação diferente que procurámos. Em Portugal, a concertina tem um som estridente. Em Itália ou nos países celtas, trabalha-se um som que os afinadores chamam mais “ligado”. Nós ainda fomos a um extremo maior. Tentámos, nos vários arranjos, explorar a diferença de timbres, nas mãos esquerda e direita, além dos tais movimentos do fole.
P. – Já pensou na possibilidade de desenvolver o instrumento, liga-lo à electrónica, como faz, por exemplo, Valentin Clastrier com a sanfona?
R. – Para já não penso nisso, gosto imenso do som acústico. Sinto mais vibração no corpo assim do que com os sons electrónicos ou electrificados.
P. – Está consciente do risco que é editar em Portugal um disco instrumental, para mais centrado num único instrumento?
R. – O projecto, quando começou, partiu precisamente da tal influência da música de câmara. Sei que, por vezes, as pessoas precisam de seguir, ouvir uma letra, mas, talvez por estudar música, consigo dispensar a voz. Neste aspecto tenho como modelo o “Quinteto do novo Tango”, do Piazzola, onde os instrumentos têm como função imitar as vozes humanas. É um pouco pedagógico tentar ensinar as pessoas a ouvir música e a aperceber-se de que não interessa se uma música é comercial ou não.
P. – Para eventuais interessados, quanto custa uma concertina?
R. – Há concertinas a três e duas vozes. Quer dizer, cada botão dispara três ou quatro palhetas. Com três palhetas, o som é mais potente. A de três vozes é mais cara, custará agora à volta de 200 contos. As italianas, que são as melhores, custam ainda mais.
NOTA: Os Danças Ocultas apresentam o seu disco de estreia num espectáculo a realizar a 16 de Março, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Por agora, estão a gravar um vídeo de promoção com realização de Tó Forte, um jovem de 27 anos cujo currículo inclui já trabalhos com os Kussondulola, Diva, Sacred Sin, Sérgio Godinho, Mário Laginha e Janita Salomé, além da assinatura em programas para a televisão como o extinto Pop-Off ou, actualmente, o de moda, “86-80-86”.

Danças Ocultas – “Danças Ocultas Dignificam Instrumento Vilipendiado – ‘Respeitamos As Vontades Anatómicas Da Concertina'”

pop rock >> quarta-feira >> 28.06.1995


Danças Ocultas Dignificam Instrumento Vilipendiado
“RESPEITAMOS AS VONTADES ANATÓMICAS DA CONCERTINA”



Há seis anos, Artur Fernandes dava aulas de concertina em Águeda. Começou a experimentar coisas diferentes, com dois dos seus alunos, Filipe Cal e Francisco Miguel. Daí surgiu um quarteto de concertinas, com o objectivo de “mostrar que a concertina, em Portugal – onde estamos habituados a ouvi-la no folclore, na música tradicional -, ao contrário do que as pessoas pensam, não é um instrumento limitado”, diz Artur Fernandes, compositor da maioria dos originais do grupo. Durou cerca de quatro anos esta fase do grupo, durante a qual tocaram um ou outro tema próprio, mas sobretudo adaptações, não só de peças clássicas, como a marcha e a abertura da “Aida” de Verdi ou a ária da “Suite em Ré”, de Bach, mas também da “Aguarela brasileira”, de Ary Barroso.
O encontro com Rodrigo Leão, companheiro de Artur Fernandes na tropa, deu uma reviravolta ao projecto inicial. O professor de acordeão mostrou uma cassette ao então debutante nos Madredeus e Sétima Legião e este passou-a a Gabriel Gomes, acordeonista dos Madredeus. A reacção deste último foi de tal forma positiva que funcionou como um impulso decisivo na evolução deste projecto que hoje tem o nome de Danças Ocultas.
Artur Fernandes compõe “respeitando as vontades do instrumento, vontades anatómicas”. “A concertina”, diz, “possui uma organização de escalas muito específica, que não tem nada a ver com a sequência de notas como as de um piano.” Neste ponto talvez convenha esclarecer que a concertina, no seu sentido mais lato (a concertina original tem a caixa hexagonal e é mais pequena), é um acordeão diatónico, o mesmo instrumento que na Itália se chama “organetto” e nas ilhas Britânicas “melodeon”. Diatónico porque emite um som quando se abre o fole e outro quando se fecha. Artur Fernandes faz questão de explicar tudo isto. À semelhança do que Fernando Meireles fez com a sanfona, recuperando-a da sua má fama, Artur Fernandes procura libertar a concertina dos preconceitos que a dão como “instrumento de cego”. A própria escolha do nome do grupo, Danças Ocultas, prende-se com este desejo de dignificação do instrumento, mas também com algo que sempre lhe foi inerente. “A concertina sempre esteve associada à dança”, diz Artur Fernandes, “mas a música que estamos a fazer, por enquanto, não tem uma forma de dança específica, digamos que está ainda por descobrir.”
A preocupação de tirar o máximo partido da concertina levou, inclusive, a que alguns dos elementos do grupo pedissem aos fabricantes para alterarem a sua afinação. Por outro lado, existe uma “componente didáctica” no trabalho do Danças Ocultas. Artur Fernandes conta um episódio ocorrido com o grupo que ilustra bem este tipo de preocupações: “O Ministério da Saúde convidou-nos uma vez para tocarmos num congresso qualquer no Hotel da Curia. Queriam que tocássemos música para acompanhar a refeição. Perguntei se não seria possível arranjar um espaço fora da sala de jantar onde as pessoas se pudessem dirigir depois da refeição. Ainda nos disseram que os congressistas eram pessoas diferentes, que não faziam barulho. Mas claro que não tocámos. Tentamos fazer compreender às pessoas que queremos comunicar com a música que fazemos, possuidora de uma identidade própria.”
Em Setembro sairá o primeiro compacto do grupo, gravado ao vivo em estúdio, em directo para a fita. Para trás ficaram dois concertos integrados no programa Mistérios de Lisboa. Os próximos espectáculos de palco só acontecerão depois da saída do disco. No futuro, e com um outro projecto, Artur Fernandes poderá reatar o contacto com a música tradicional.

Danças Ocultas + Simentera + Ustad Mahwash & Kaboul Ensemble + Mahotella Queens + Totonho & Os Cabra + Kronos Quartet + Kad Achouri + The Skatalites +”Músicas Do Mundo Entram No Castelo De Sines” (concertos / festivais / artigo de opinião)

(público >> cultura >> world >> concertos / festivais)
quinta-feira, 24 Julho 2003


Músicas do Mundo entram no Castelo de Sines

Em Sines a “world music” está bem guardada no castelo, palco da 5ª edição do Músicas do Mundo. Com os Kronos Quartet a radicalizarem o conceito de “fusão” que caracteriza a linha musical do festival



As Mahotella Queens, da África do Sul, levam a Sines as músicas e as tradições do Soweto, representadas pelo estilo “mbaqanga”

Sines, o castelo, o fogo-de-artifício a iluminar o espetáculo da última noite. A música derramando-se para dentro e para fora das ameias do castelo. Instrumentos e vozes exóticos em contraponto ao som das ondas do mar. O festival Músicas do Mundo, que hoje começa na cidade alentejana de Sines, é tudo isto e muito mais.
“Isto” chama-se mística, um especial eco que certos acontecimentos, pessoas e lugares são capazes de desencadear. Em Sines, a mística faz-se da comunhão e do convívio com a música e a história. Com a pedra, a areia, a água (e o peixe, acabado de saltar diretamente do anzol para o grelhador) e os sons da “world music”.
O “muito mais” depende do programa. Que, regra geral, é bom. O desta 5ª edição não é exceção. O Músicas do Mundo ganhou prestígio e não brinca em serviço.
Quinta-feira. Como é hábito, há o banquete de inauguração, a preparar o corpo e o espírito para as libações da noite. Os olhos, já brilhantes, e os ouvidos, já despertos, receberão em primeiro lugar, e convenientemente, os Danças Ocultas, grupo de acordeões diatónicos sob a direção de Artur Fernandes. “Fazemos nova música com um instrumento antigo”, diz Fernandes, acrescentando que, ao invés de exibições de virtuosismo, o grupo prefere “explorar o lado expressivo do instrumento e comunicar através da emoção coletiva”. Em Sines vão ter a companhia dos convidados Rui Júnior (percussões), Gabriel Gomes (acordeão) e Edu Miranda (bandolim), na apresentação de material a incluir no próximo álbum, a sair em Outubro.
Sem quebrar os laços de fidelidade os ligam à sua terra natal, Cabo Verde, os Simentera levam a Sines as velhas formas de canto tradicional do arquipélago adaptadas às formas de vida e cultura de Cabo Verde contemporâneo. O seu quinto álbum, a apresentar no Músicas do Mundo, tem por título “Tr’adicional”.

Rainhas do Soweto
Sexta-feira, a agulha da bússola aponta para o Afeganistão. Formados em Genebra em 1995, o Ensemble Kaboul dedica-se à recuperação da música tradicional afegã nas três principais modalidades: o ghazal (influenciado pelo raga indiano), a popular e a pachtoun, típica da etnia dominante. O exotismo da cultura e da instrumentação (tablas, rubab, tula, harmónio…) não deverão distrair nem da integridade do trabalho nem da voz da cantora Ustad Mahwash. Em Sines, o Ensemble apresentará o novo projeto “Rádio Kaboul, Tributo aos Compositores Afegãos”.
Desvio para a África do Sul, de fortes tradições na música vocal “a capella”. É de lá que chegam as rainhas Mahotella Queens. Começaram por acompanhar o cantor Mahlathini, tornando-se presença regular no circuito musical do Soweto dos anos 60, projetando-se, a partir daí, para uma carreira internacional que atingiu o zénite em 2000, com a atribuição ao grupo, pela cooperativa Womex, do prémio “World music artist of the year”. O seu estilo, denominado “mbaqanga”, integra elementos de música tradicional zulu, gospel, ritmos elétricos e soul americana.
A noite de sexta encerra com Totonho & Os Cabra, grupo brasileiro oriundo do Nordeste. Sons livres, como os de Lenine, que os apadrinhou, e de Tom Zé. “Manguebeat”, electro, salsa, funk, rock, misturam-se na paleta dos Cabra, e a palavras que retratam a realidade social do país. O chefe Totonho já escreveu canções para Chico César e afirma: “Sou melhor compositor. Eu parto da palavra, daí faço uma frase, desmancho, faço outra, mudo, transformo, busco um sinónimo… Sou um tipo de pedreiro que vai quebrando um tijolo até ele caber em sua construção.” Totonho deverá deixar intactas as ameias do castelo.

O feitiço do tempo
Sábado, contar-se-á o tempo pelos Kronos Quartet cuja presença neste festival alguns acharão estranha. Os Kronos Quartet, já com 30 anos de carreira, são um grupo de cordas contemporâneo e o seu conceito de “música do mundo” não é exatamente o da ortodoxia, como se pode verificar em álbuns como ”Pieces of Africa”, “Caravan” e o novo “Nuevo”, com as suas especialíssimas interpretações da música do México, que vai estar no centro do concerto.
Noite de violinos, violas e violoncelos para escutar candidamente sob as estrelas? Nem por sombras. O Kronos domina o tempo a seu bel-prazer, quebrando as noções convencionais da música de câmara com irrupções de eletrónica, sampling e um sentido, por vezes arrasador, de experimentação iconoclasta.
Kad Achouri, que atua a seguir, nasceu em França há 33 anos, filho de pais argelinos. Mas foi em Londres que desenvolveu o seu estilo particular de fusão onde o “groove” nasce do equilíbrio entre o jazz, a canção francesa e as tonalidades étnicas. “Liberté”, álbum de estreia editado no ano passado, reflete algumas das suas preocupações sociais: “Tenho a impressão de que a cidadania já não existe. Tornou-se um pouco ‘eu consumo, eu sou’, o resultado do capitalismo selvagem que favorece o individualismo em detrimento da noção de partilha.”
Mas como nem tudo é consumismo e capitalismo selvagem, o Músicas do Mundo termina festivamente com uma sessão de “reggae” por uma das suas bandas históricas e mais carismáticas, os Skatalites, formados em 1962. A música do grupo, radicando embora nas típicas síncopes da Jamaica, assimilou o rhythm ‘n’ blues e a música tradicional africana. O título do álbum de 1998, “Ball of Fire”, evoca toda a energia do rock ‘n’ roll. Os Skatalites não andam lá longe. São fogo. E assim, as “músicas do mundo” de Sines arderão, uma vez mais, no abraço entre as bolas de chamas multicolores que chovem do céu e os sons em brasa que salpicam o castelo.

Hoje
DANÇAS OCULTAS + SIMENTERA

Amanhã, dia 25
USTAD MAHWASH & KABOUL ENSEMBLE + MAHOTELLA QUEENS + TOTONHO & OS CABRA

Sábado, 26
KRONOS QUARTET + KAD ACHOURI + THE SKATALITES
SINES, castelo
Às 21h30. Tel. 269632204. Bilhetes a 2 euros