Arquivo da Categoria: krautrock

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #120 – “The ultimate trip (FM)”

#120 – “The ultimate trip (FM)”

Fernando Magalhães
24.06.2002 020243
…Com CONRAD SCHNITZLER e o álbum “Constellations” (Ed. Badland,1987).

Dois únicos temas: “First constellation” (30’10) e “Second constellation” (38’50).

Duas viagens pelo cosmos que exploram as profundezas eletrónicas mais escuras de “Phaedra” e “Rubycon”, dos TANGERINE DREAM, aos quais CS aliás já pertenceu, na primeira formação.

Parte-se numa nave em direção ao desconhecido, com várias etapas que permitem a contemplação auditiva de diversos momentos sónicósmicos. Paisagens geladas cortadas por auroras boreais a la STEVE ROACH/BIOSPHERE, borbulhar de mares de mercúrio, vozes “alien” aprisionadas em estranhas emissões de rádio galácticas, as surpresas surgem a cada momento, levando o cérebro para pontos cada vez mais afastados. Tão longe como…

“Though I’m past one hundred thousand miles/I’m feeling very well/And I think my spaceship knows which way to go…

Can your hear me, Major Tom?

Can you…?

Here am I floating round my tin can/Far above the moon/Plant Earth is blue/And there’s nothing I could do”.

David Bowie, in “Space oddity”

…E, mais além, o infinito…

in “2001 – A Space Oddity”-

FM

Kraftwerk – “O Admirável Mundo Novo” (artigo de fundo | dossier | blitz)

BLITZ 3 ABRIL 1990


KRAFTWERK

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO


«I Sing the Body Electric»
Ray Bradbury

Bip Bip Bip. Boing Boom Tschak. A beleza da música dos alemães Kraftwerk é a beleza da eletricidade em estado puro. A harmonia da informação circulando livremente através dos chips de circuitos integrados. O classicismo digitalizado. A herança elegante de uma Europa crepuscular rendida à imagem requintada da despersonalização e da indiferença. Ralf Hutter, Florian Schneider, Wolfgang Flur e Klaus Roeder são as quatro máscaras humanas para um rosto que deixou de o ser. Manequins de gesto suspenso sobre a imobilidade gelada do Tempo aprisionado. Save. Enter. Return.

É costume considerar os Kraftwerk como os precursores de quase todas as principais inovações relativas às técnicas de estúdio. O «Disco Sound» ou o «Rap» proclamam-se devedores das manipulações sonoras levadas a cabo pelos quatro homens de Dusseldorf. Estes não confirmam nem desmentem, limitando-se a gravar discos, sem fazer grandes ondas e alargando com cada um deles as fronteiras do que se convencionou na generalidade designar por «música eletrónica».



Hutter e Schneider, os fundadores da banda, encontraram-se em 1970 no Conservatório de Música de Dusseldorf, uma das cidades mais industrializadas da Alemanha, e formaram os Organisation. Sob esta designação foi editado o álbum «Tone Float», gravado e produzido por Conny Plank numa refinaria de petróleo da cidade. No mesmo ano nascem os Kraftwerk que gravam no ano seguinte o álbum estreia «High Rail», com o selo Philips. No ano seguinte a Vertigo reúne estes dois discos num duplo intitulado simplesmente «Kraftwerk», infelizmente há já alguns anos fora do mercado. Na sua fase inicial a música do grupo conciliava as explosões de metal, o minimalismo e a música concreta com um lirismo exacerbado tão caro ao Romantismo alemão. Grupos como os Einstuerzende Neubauten, Test Dept, ou os primeiros SPK decerto que ouviram e aprenderam muito com este disco seminal.
O álbum seguinte, «Ralf and Florian», de 83, prossegue a mesma via, com temas fabulosos como «Eletrisches Roulette», à beira da esquizofrenia, a dança metálica de «Tanzmusik» e os catorze minutos planantes, cristalinos e tropicais de «Ananas Symphonie».
Em 74 os Kraftwerk passam a quarteto, com a inclusão de Klaus Roeder e Wolfgang Flur, respetivamente no violino e guitarra e nas percussões eletrónicas. É com esta formação que gravam, no mesmo ano, a obra-prima «Autobahn», um dos melhores discos de sempre de música eletrónica. O primeiro lado é ocupado na totalidade pela faixa do mesmo nome, uma «trip» psicadélica-automobilística, só ao alcance das auto-estradas e das cabeças teutónicas. Sem despistes e com as mudanças engatadas sempre na altura exata. Nunca os sintetizadores, «Vocoders» e «sequencers» tinham andado a tanta velocidade. O Futuro tinha começado. Do outro lado do disco o fogo-de-artifício sonoro em duas deslumbrantes versões de «Kometenmelodie». Surpreendentemente as rádios americanas e inglesa tocam uma versão mais curta de «Autobahn». O single e o álbum alcançam todos os Tops abrindo caminho para a vaga do «Eurodisco», com Giorgio Moroder à frente. «I Feel Love» é a voz de Donna Summer sobre um plágio grotestco dos ritmos robóticos dos alemães. Curiosamente este tema tem sido «samplado» pelas novas bandas até à exaustão. O Tempo é cada vez mais uma ilusão.
Em outubro de 75 Karl Bartos (percussão eletrónica) substitui Roeder, ficando assim constituída a formação que até à data se mantém inalterável. No mesmo mês, os Kraftwerk abandonam a Philips/Vertigo e formam a sua própria editora a Kling Klang, distribuída pela EMI. Ainda em 75 é publicado o LP «Radio Aktivitaet», versão original alemã de «Radio Activity» que sai em Inglaterra no ano seguinte. «Radio Activity» é o álbum mais fraco da banda, versão turístico-infantil da estética futurista. A simplicidade de meios, propositada ou não, e letras pueris à beira do imbecil tornam a audição do disco apenas divertida. Destaque mesmo assim para o título-tema «Radio Activity» e «Airwaves», dançáveis e irremediavelmente coláveis aos ouvidos.
1977 é o ano de «Trans Europe Express», dos manequins-réplicas em palco e do retorno à boa forma. «Trans Europe Express», «Metal on Metal» ou «Franz Schubert», metálicos, gelados e repetitivos são paradigmáticos e proféticos da «Cold Wave» que se avizinhava. Mais uma vez os Kraftwerk ditavam as leis, escrupulosamente seguidas pelas gerações futuras.
«The Man Machine» aparece no ano seguinte levando às últimas consequências todas as anteriores premissas estéticas e ideológicas do grupo. O fator humano cede definitivamente ao fator máquina. O álbum abre com «The Robots» e fecha com «The Man Machine». «Spacelab», «Metropolis», e «Neon Lights» são imagens de um filme fantasmático sobre cidades percorridas por sonâmbulos, ecos de «slogans» cibernéticos e neons deslumbrantes. O filme para. A realidade é elétrica. A luz torna-se branca. E fria.
«Computer World», de 81, é mais humano ou talvez não consoante a perspetiva. Em «Pocket Calculator» os Kraftwerk utilizam o som de uma calculadora eletrónica de bolso. «Numbers» é a Torre de Babel do Novo Mundo reduzido a ações de compra e venda, números e mais números soletrados em diversas línguas sobre um ritmo implacável de máquinas em sintonia. A realidade é matemática, rigorosa, previsível e programável. «Computer Love», bits em forma de coração, «I-L-O-V-E-Y-O-U» repete a voz sintetizada enquanto a mensagem vai piscando no monitor. «Home Computer», «It’s More Fun to Compute» e as máquinas continuam a dançar.
«Tour de France», como o nome indica, é dedicado à célebre prova velocipédica e aparece no filme «Breakdance» (!).
Finalmente, em 86, a EMI edita «Electric Cafe». Os Kraftwerk atingem com este disco o ponto de plenitude em que a superficialidade e o desprendimento se confundem com o sublime. O humor surge radioso no fim e do alto da tragédia há sempre um sorriso irónico e distante. «Techno Pop» é o estado atual da música Pop massificada, reduzida a sons empacotados e prontos a vender em supermercados. «The Telephone Call», a conversa telefónica unilateral com uma gravação que insiste em dizer que aquele número foi definitivamente desligado. «Sex Object», de novo os bonecos-fétiche de carne e osso. Palavras vazias, repetidas, destroçadas. Séc. XX ou XXI, já nada faz sentido ou tudo faz simultaneamente todos os sentidos. Todas as coisas, todos os sons, Eletricidade, «Electric Cafe», sintético, sonoro, nuclear, infinito, finito, circular, sintético, sonoro, «Musique Non Stop» – «Techno Pop».

Faust – “As Estratégias Do Diabo” (valores selados | blitz | artigo de opinião | dossier)

BLITZ 17 OUTUBRO 1989 >> Valores Selados


FAUST
AS ESTRATÉGIAS DO DIABO



Se há grupo que nos últimos 30 anos de música popular, soube guardar ciosamente os seus segredos, esse grupo foi certamente o dos Faust. Os seus membros sempre se esconderam num secretismo cerrado, ficando para a História os discos e as raras aparições ao vivo. Nestas últimas, conta quem viu, costumavam tocar na penumbra e rodeados de televisores ligados. Para se entreterem enquanto tocavam, diziam. Se a sua própria atuação não lhes agradava especialmente, limitavam-se pura e simplesmente a abandonar os instrumentos e a ver calmamente os seus programas preferidos.
Mas a lenda foi construída graças aos discos que gravaram. Em todos eles os Faust deixaram bem impressa a marca do génio. Entre 71 e 73 editaram quatro álbuns, correspondendo a outras tantas obras-primas. 16 anos depois da saída de «Faust IV», com que encerraram a sua existência oficial, poucos grupos se poderão orgulhar de terem alcançado os níveis de qualidade absoluta e originalidade radical que estes germânicos lograram atingir.

A Torre de Babel

Não é fácil definir a sua música. A audição de cada um dos discos revela-nos uma síntese de influências tão diversas como a canção pop, a música concreta, o free jazz, as sonoridades clássicas ou um humor corrosivo filiado na tradição Zappa. Todos estes registos são unificados e filtrados por uma abordagem específica e única para a época, traduzida numa utilização revolucionária das técnicas de mistura e gravação. Os Faust foram o primeiro grupo a utilizar o estúdio como instrumento musical. A sua música é uma gigantesca colagem de sons desmontados e voltados a montar as vezes necessárias até se atingir o resultado pretendido: uma música extremamente diversificada e complexa e, no entanto, perfeitamente coerente. O segredo dos Faust está na arte de juntar e harmonizar sons e palavras aparentemente irreconciliáveis. O 1.º álbum chamava-se simplesmente «Faust». Foi editado em 71 e provocou a perplexidade total. A começar pela capa e terminando na música, tudo era diferente do que até então era suposto um grupo pop fazer. A capa e o vinil eram totalmente transparentes, sobre os quais aparecia a radiografia de um punho fechado. Esta 1.ª edição esgotou rapidamente sendo a capa das edições seguintes já em cartão. Anos mais tarde a Recommended Records reeditava o disco com a capa original. Mas se a capa era original, que dizer da música? Era a grande pedrada no charco. O que os nossos ouvidos escutaram não se parecia com nada a que estivéssemos habituados. Era o 1.º grande golpe desferido nas convenções e tabus do Rock. O álbum abre com «Why don’t you eat carrots»: sobre uma massa eletrónica zunindo de canal em canal, soavam os estertores finais de «All you need is love» e «Satisfaction», dos dois grandes mitos da época, os Beatles e os Stones. Sucediam-se rapidamente um solo de piano desafinado, gritos, sons de motorizada ou algo parecido, até o tema entrar em força de forma não menos esquisita. O 2.º tema, «Meadow Meal», cheio de reverberações e jogos de palavras, passava por um rock ultra pesado, terminando com um órgão de pedais soando melancolicamente sobre sons de trovoada. O 2.º lado é ocupado na íntegra por «Miss Fortune», tocado ao vivo em estúdio e absolutamente indescritível. A ideia geral é a de que todos os músicos se encontravam em adiantado estado de embriaguez. Pelo meio aparecem algumas melodias dos Beach Boys, tocadas em serra elétrica. Um espanto e um direto bem dirigido aos preconceitos reinantes na época dos sinfonismos e progressismos vários. Em 72 é editado o álbum seguinte «So Far». Desta vez é tudo em negro: capa, disco e rótulo central, sem qualquer informação. A versão original continha uma série de gravuras alusivas a cada um dos temas. «So Far» é ainda mais estranho e diversificado que o seu antecessor. Sucedem-se temas magníficos como «It’s a Rainy Day, Sunshine Girl» de uma violência obsessiva, «So Far», mais industrial e ameaçador que todos os atuais industrialismos juntos, a beleza acústica de «On the Way to Albamae», as delirantes paródias de «Mamie is Blue» e «I’ve got my car and my TV» ou o blues degenerado de «In the Spirit». Em 89, «So Far» continua à frente de quase tudo. Descubram-no, ouçam-no e pasmem.

Os anos da virgindade



O grupo assina entretanto pela Virgin, com Richard Branson, nessa época, apenas preocupado em contratar todos os nomes importantes da música vanguardista europeia. O 1.º trabalho editado já com o novo selo é «The Faust Tapes», como o nome indica, uma recolha de material original não incluído nos dois primeiros álbuns. É uma colagem sonora nonstop, 42 minutos de inspiradíssima loucura, exemplo paradigmático do estilo e do génio do grupo. Os géneros mais heterogéneos sucedem-se numa cadência delirante, fazendo deste disco um precursor das técnicas posteriormente utilizadas, em novo contexto, por John Zorn. Experimentalismo radical, truques de gravação e mistura espantosos e melodias do outro mundo tornam «The Faust Tapes» numa peça fundamental da música do nosso século. O disco termina com a recitação em francês e alemão de um texto surrealista, acompanhado unicamente por uma guitarra acústica. Parece simples? Escutem o resultado e abram a boca de espanto. Os Faust faziam maravilhas com os meios mais exíguos.
«Faust IV» é editado em 73, de novo pela Virgin. A formação original do grupo, até então constituída por Jean-Hervé Peron, Werner Diermaier, Joachim Irmler, Arnulf Meifert, Rudolf Sosna e Gunther Wusthoff, dissolve-se, saindo Diermaier, Meifert e Sosna, substituídos por Uli Trepte, vindo dos Amon Duul II e Peter Blegvad que viria posteriormente a formar os Slapp Happy.
«Faust IV» é o álbum da sedimentação de um estilo já então reconhecido nos meios mais vanguardistas. O som apresenta-se mais limado, a sequência das faixas é mais clássica, o choque é menor, em todos os aspetos. «Krautrock», uma divertida crítica ao então designado «Rock Alemão» ou «The Sad Skinhead», mais uma melodia perfeita das muitas que o grupo compôs, são dois momentos significativos de um álbum à altura dos anteriores.

A lenda de Fausto

Com «Faust IV» fechava-se um capítulo de ouro, escrito em apenas três anos por um grupo inesquecível. Nesses três anos os Faust tinham revolucionado toda a música popular. Os motivos da dissolução nunca foram tornados públicos. O mistério mantinha-se até ao fim. Ficaram a lenda e algumas colaborações dispersas de alguns dos seus membros. «Outside the Dream Syndicate» do radical Tony Conrad ou a gravação original do 1.º álbum dos Slapp Happy são as que merecem maior destaque. A partir de aí foi o silêncio.
Foi necessário esperar até 1986, ano em que a Recommended edita «Return of a Legend-Music & Elsewhere», com material inédito gravado já após a dissolução do grupo. Finalmente, em 88, a mesma Recommended edita ainda «The Last LP» também conhecido como «The Party Album», com honras de versão em CD. Este derradeiro testemunho dos lendários germânicos contém ainda alguns originais além de novas misturas de temas antigos. Ambos os discos são indispensáveis para a compreensão do alcance e da influência decisiva que os Faust exerceram na música do nosso tempo.
Hoje têm dignos continuadores nos Residents e nos Negativland. O canadiano Jocelyn Robert também se pode considerar como um dos seus mais brilhantes discípulos, levando às últimas consequências a arte da colagem sonora. Ainda uma referência para os Biota e a sua estética do ruído harmonioso. Foi pois a América quem melhor soube compreender a lição dos mestres. Os compêndios estão disponíveis para todos os interessados.
Para a semana Daevid Allen e o seu planeta Gong.